KAREN RAÍSSA NUNES POR OUTRO CHÃO NA FORMAÇÃO DOCENTE CONTEMPORÂNEA LAVRAS – MG 2022 KAREN RAÍSSA NUNES POR OUTRO CHÃO NA FORMAÇÃO DOCENTE CONTEMPORÂNEA Dissertação apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação do Mestrado Profissional em Educação, área de concentração em Formação de Professores, para a obtenção do título de Mestra. Prof. Dr. Luciana Azevedo Rodrigues Orientadora LAVRAS – MG 2022 Ficha catalográfica elaborada pelo Sistema de Geração de Ficha Catalográfica da Biblioteca Universitária da UFLA, com dados informados pelo(a) próprio(a) autor(a). Nunes, Karen Raíssa. Por outro chão na formação docente contemporânea / Karen Raíssa Nunes. - 2022. 84 p. : il. Orientador(a): Luciana Azevedo Rodrigues. Dissertação (mestrado profissional) - Universidade Federal de Lavras, 2022. Bibliografia. 1. Formação docente. 2. Ténica Klauss Vianna. 3. Teoria Crítica da Sociedade. I. Rodrigues, Luciana Azevedo. II. Título. O conteúdo desta obra é de responsabilidade do(a) autor(a) e de seu orientador(a). KAREN RAÍSSA NUNES POR OUTRO CHÃO NA FORMAÇÃO DOCENTE CONTEMPORÂNEA THROUGH OTHER GROUND IN CONTEMPORARY TEACHING EDUCATION Dissertação apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação do Mestrado Profissional em Educação, área de concentração em Formação de Professores, para a obtenção do título de Mestra. Aprovado em 22 de junho de 2022 Dr. Marcio Norberto Farias UFLA Dra. Jussara Corrêa Miller UNICAMP Prof. Dra. Luciana Azevedo Rodrigues Orientadora LAVRAS-MG 2022 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus – força divina – porque descobri ao longo do processo o quão essencial é crer em uma força para além de nós. Porque quando se escuta o ritmo do coração e todos os movimentos internos há algo de supremo e muito grandioso nisso. Agradeço de todo coração a meus pais, por me oportunizarem a existência neste mundo fabuloso e por vezes tão controverso. A vocês, sempre, pelo cuidado, amor e dedicação para formar um ser humano. Por todas as palavras, gestos e incentivos infinitos. Agradeço imensamente à querida orientadora Luciana Azevedo Rodrigues, pela sabedoria em guiar os passos desta pesquisa, pela plena confiança no processo e todo o tempo em mim. Obrigada por todos os momentos em que me fez pensar e reavaliar a pesquisa, você não pode dimensionar o quanto isso foi precioso. Agradeço por todos os mestres e por todas as mestras que passaram por mim em algum momento, ou permaneceram presentes por longos momentos, vocês trouxeram ensinamentos valiosos para as curvas da vida. Agradeço muitíssimo ao estimado professor Marcio Norberto Farias e à querida professora Jussara Corrêa Miller por seu tempo de leitura dedicado e também pelas sábias palavras proferidas em momentos tão cruciais. Saibam da sua relevância para este processo! Agradeço ao Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal de Lavras, que está diretamente citado nesta pesquisa e que me propiciou boas reflexões. Agradeço assim a todos os professores e professoras com os quais tive aulas, pelos referenciais teóricos e também aos colegas do mestrado da turma 2020.1 por me emprestarem suas vozes para compor esta pesquisa. Agradeço especialmente ao Grupo de Estudos em “Teoria Crítica, Educação e Educação Física” da Universidade Federal de Lavras pelas conversas coletivas e pelas leituras de textos tão relevantes para minha formação enquanto ser humano. Agradeço também pela oportunidade de encontro com pessoas tão ímpares. Agradeço ao “Corpos em Com-tato”, projeto de extensão da Universidade Federal de Lavras, uma iniciativa recente e da qual tive a honra de estar em sua origem. Agradeço novamente à Luciana pela oportunidade e aos participantes pelos compartilhamentos. Aprendi muito com vocês. Agradeço amorosamente a meu namorado, Matheus, pela eterna paciência, amparo e amor em todas as horas, mais uma vez enfrentando as intempéries de uma estudante em um processo acadêmico. Obrigada amor, por me ouvir e fazer perguntas quando era preciso. Agradeço com um abraço fraterno, minha querida amiga Carolina, por estar ao meu lado no momento mais crucial, auxiliando na organização das ideias e sendo um ouvido atento para tudo. Obrigada também pelo seu ânimo no compartilhamento de sonhos. Agradeço todas as pessoas que contribuíram direta ou indiretamente para que eu chegasse até aqui e para estas reflexões. Lanço no universo os meus agradecimentos a vocês. Muitas vezes eu achei que estivesse sozinha... mas como ser sozinha sendo a união de mil pedacinhos de histórias de muitas gentes? Estou muitíssimo grata pelo caminho que pude trilhar até aqui, dançando, pulando ou rolando! Foi incrível e desafiador. Obrigada e obrigada a todes que fizeram esta pesquisa florescer. Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar. Antonio Machado, poeta espanhol RESUMO Este estudo emerge da necessidade da pesquisadora em explicitar seus incômodos frente ao âmbito formativo docente, os quais foram se constituindo historicamente com começo na infância até a chegada ao Mestrado Profissional em Educação: Formação de professores, onde se deparou com discussões em defesa do chão da escola. Em consonância com seus interesses, no interior do mestrado surge o convite para investigar um novo universo: tratava-se do estudo da Técnica Klauss Vianna (TKV). De modo articulado ao estudo da TKV, entra-se também em contato com os referenciais da Teoria Crítica da Sociedade, através de conceitos filosóficos, os quais ampliam a compreensão dos artifícios utilizados pela sociedade neoliberal e da forma coisificada que a técnica tem assumido nos tempos atuais. Pensando dessa forma, constrói-se a tese ao longo desta pesquisa de que, na contemporaneidade, a formação docente também se encontra coisificada, modelando-se ao espírito generalizado da mercadoria, onde se toma a técnica enquanto próprio fim e o ser humano enquanto meio. Tal tendência é investigada pelo filósofo Theodor W. Adorno na cultura enquanto semiformação (2010). Assim, tendo como base o pensamento adorniano de semiformação para o terreno educacional – apontado mais especificamente nesta pesquisa do interior do Mestrado Profissional em Educação -, isto significa dizer que, há uma ênfase exagerada sobre a técnica, donde se averigua e requer-se a produção enlouquecida de materiais científicos, e também o direcionamento para a realização de “cursos atualizadores”, além do excesso de estímulos a que os indivíduos acabam por se submeter através da relação com diferentes aparatos tecnológicos - agravada no ensino remoto pela situação pandêmica – alterando-se a subjetividade. Como manifestação dos processos semiformativos, isto corrobora para a dessensibilização sensorial. Com tudo isso no horizonte, para inspirar o âmbito formativo docente, este trabalho busca recuperar um sentido de técnica (mantido vivo ainda hoje pela tradição da Escola Vianna, graças aos seus disseminadores e disseminadoras), concebido no entrecruzamento dos territórios do Teatro e da Dança e inaugurado com base nas investigações do bailarino, coreógrafo e preparador corporal Klauss Vianna. Desta sorte, a pesquisa aqui empreendida por meio da experimentação da TKV no corpo da própria pesquisadora-professora e pela narração, enfatiza que o corpo e sua expressividade não são meros materiais para operacionalizar uma técnica, tampouco um modelo de educação, mas, a técnica, ao ser apreendida como algo de natureza processual é antes um meio para potencializar os movimentos corporais, o reconhecimento de seus sentidos, capacidades imaginativas e reflexivas, entendimentos estes caros para a formação de professores e professoras enquanto Bildung. Palavras-chave: Formação docente. Técnica Klauss Vianna. Teoria Crítica. Experiência. ABSTRACT This study emerges from the researcher's need to explain her discomforts in the face of the teaching training environment, which were historically constituted starting in childhood until arriving at the Professional Master's in Education: Teacher Training, where she encountered discussions in defense of the ground. from school. In line with her interests, within the master's degree comes the invitation to investigate a new universe: it was the study of the Klauss Vianna Technique (TKV). In an articulated way with the study of TKV, we also get in touch with the references of the Critical Theory of Society, through philosophical concepts, which expand the understanding of the artifices used by neoliberal society and the objectified form that the technique has assumed in recent times. current. Thinking in this way, the thesis is built throughout this research that, in contemporary times, teacher training is also objectified, modeling itself to the generalized spirit of the commodity, where technique is taken as its own end and the human being as a means. . This tendency is investigated by the philosopher Theodor W. Adorno in culture as semi-formation (2010). Thus, based on the Adornian thought of semi- training for the educational field - pointed out more specifically in this research within the Professional Master's in Education -, this means that there is an exaggerated emphasis on technique, from which it is verified and required the maddened production of scientific materials, and also the direction to carry out "refreshing courses", in addition to the excess of stimuli that individuals end up undergoing through the relationship with different technological devices - aggravated in remote teaching by the pandemic situation - altering if subjectivity. As a manifestation of semi-formative processes, this corroborates sensory desensitization. With all this on the horizon, in order to inspire the teaching training environment, this work seeks to recover a sense of technique (kept alive today by the tradition of the Vianna School, thanks to its disseminators), conceived at the intersection of the territories of Theater and Dance. and opened based on the investigations of dancer, choreographer and body coach Klauss Vianna. In this way, the research undertaken here through the experimentation of TKV in the body of the researcher-teacher and through the narration, emphasizes that the body and its expressiveness are not mere materials to operationalize a technique, nor a model of education, but the technique , when apprehended as something of a procedural nature, it is rather a means to potentiate bodily movements, the recognition of their senses, imaginative and reflective capacities, understandings that are dear to the training of teachers as Bildung. Keywords: Teacher training. Technique Klaus Vianna. Critical Theory. Experience. SUMÁRIO 1. PONTOS PARA PARTIR.................................................................................... 10 2. EXPERIÊNCIA E FORMAÇÃO: ELABORANDO INCÔMODOS PELO CONTATO COM A TEORIA CRÍTICA DA SOCIEDADE........................... 17 2.1 Caminhos, tempos e espaços dissidentes............................................................. 17 2.2 Seguindo os rastros de outros para discutir a formação docente..................... 23 3. O CHÃO DA TÉCNICA KLAUSS VIANNA.................................................... 36 3.1 A Técnica Klauss Vianna enquanto processo histórico..................................... 36 3.2 Princípios da Técnica Klauss Vianna.................................................................. 42 3.3 Pegadas: O Caderno-oficina e A brisa................................................................ 46 4. PONTOS PARA REPARTIR.............................................................................. 75 REFERÊNCIAS.................................................................................................... 80 10 1. PONTOS PARA PARTIR [...] nas sociedades de controle”, “gere-se”. Entenda- se: garante-se, por todos os meios possíveis, que as pessoas sejam suficientemente acompanhadas para serem reduzidas a espécies de seres ectoplasmáticos, perfeitamente adaptados, consumindo a quantidade necessária de televisão e chá de camomila para aniquilar qualquer cólera, desenvolvendo “relações humanas” suficientemente “harmoniosas” para não tentarem “mudar o mundo” e tendo seu rendimento escolar e profissional inserido em magníficas planilhas de Excel [...] Philippe Meirieu Este estudo emerge da necessidade da pesquisadora em explicitar seus incômodos frente à formação docente, os quais foram se constituindo historicamente com começo em sua infância – onde em seu próprio corpo já observava os efeitos da educação recebida -, passando pela adolescência em colégio militar, depois se encontrando no ensino superior (Veterinária e Licenciatura em Artes Cênicas) e, por fim, enquanto mestranda em Educação (Mestrado Profissional em Formação de Professores da Universidade Federal de Lavras). Assim, embora todas essas observações e incômodos estivessem latentes já nos idos da infância, como dito anteriormente, somente na Graduação em Artes Cênicas têm início sua descrição e elaboração por meio de textos e performances artísticas. Tais elaborações são canalizadas de vez na pós- graduação; entretanto, a chegada no mestrado é bastante turbulenta, por não possuir familiaridade com os meandros da pesquisa acadêmica e também pelo fato de as reflexões realizadas até então estarem repletas de lacunas. Até sua entrada na pós-graduação, todo o elaborado dizia mais respeito a sensações de um eu individual, sem enfatizar muito o aspecto mais coletivo, até porque não tinha consciência do quanto isto a afetava. Destaca-se o fato de que, na escrita do projeto inicial para o processo seletivo do mestrado, foi elencado um conjunto de reflexões derivadas diretamente das escritas no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), apontando para o interesse em conduzir uma pesquisa com ênfase ao corpo, à sua sensibilidade, pois parecia que, até então, durante os variados percursos de formação, ocorria uma espécie de anestesiamento, culminando na impossibilidade de sentir de forma integral. 11 Olhando desses lugares tão múltiplos, foi se tornando mister investigar outras perspectivas de se formar para a docência, outras que considerassem o ser humano em sua diversidade. Pois então, em conversa com a orientadora, é exposto tudo isso; de forma sensível e entendendo a importância da experiência da pesquisadora em uma das “artes do corpo”, faz- se a opção em manter essa essência na pesquisa, embora trazendo um novo rumo pelo convite para adentrar em um mundo até então desconhecido. Este universo, tratava-se do estudo da Técnica Klauss Vianna (TKV) - locus que ela havia começado a estudar – demonstrando-se (depois de um tempo) extremamente alinhado com aquilo que a pesquisadora queria expressar e investigar. Assim, enuncia-se que, a fim de viabilizar um entendimento introdutório, a TKV consiste na sistematização do trabalho corporal proposto pelo dançarino e coreógrafo mineiro Klauss Vianna e é mantida viva até hoje por seus disseminadores e disseminadoras. É composta por três etapas com ênfases distintas, quais sejam: a primeira e a de interesse deste estudo, Processo Lúdico (ou despertar do corpo); a segunda, Processo dos Vetores Ósseos e; por fim, Processo Didático (opcional) (MILLER, 2005). Depois de certo tempo significa que o aceite daquele convite não havia se dado de imediato, receando o que termo “técnica” significaria naquele período, pois levava a crer em algo repetitivo e, ao invés de sensibilizar, avultaria ainda mais o anestesiamento. Mesmo assim, com algumas ressalvas, e um “pé atrás” embarca-se nesta viagem. Com o estudo da TKV, especialmente do Processo Lúdico, foi possível desfazer o receio inicial de que o convite para estudar a técnica pudesse conduzir a uma discussão meramente voltada para a repetição, a qual poderia contribuir ainda mais com o anestesiamento, este decorrente do mundo neoliberal. Ainda foi possível perceber que se poderia conhecer determinado sentido de técnica alinhavado a um sentido de formação docente voltado para experiência. De forma que, com o avançar dos estudos, é compreendida a necessidade e fundamentalidade daquelas reflexões dentro da formação de professores e professoras na contemporaneidade, afetando indubitavelmente o próprio processo formativo da pesquisadora. Juntamente com a Técnica Klauss Vianna, os referenciais teóricos da Teoria Crítica da Sociedade (linha de pesquisa a qual se afilia esta pesquisa) foram auxiliando no desvelamento e entendimento de grande parte das ilusões nas quais as pessoas vivem mergulhadas, não só quando em estudos individuais para a escrita da dissertação, mas principalmente em conversas coletivas assentes em textos selecionados no Grupo de Estudos em Teoria Crítica, Educação e Educação Física da Universidade Federal de Lavras. Com isso, sinaliza-se aqui para a complexidade de desvencilhamento dessas ilusões, uma vez estando nesta sociedade, fala-se a partir delas, porquanto toda a educação regular aconteça em prol da manutenção do 12 establishment. Com base nesses referenciais, o interesse pelo estudo da concepção de técnica partiu da ideia, construída ao longo do percurso de pesquisa, de que, na contemporaneidade, a formação docente tem se tornado cada vez mais coisificada, alienada da sua função social e modelando-se ao espírito generalizado da mercadoria, sendo mediada por conteúdos coisificados, onde a técnica é tomada enquanto próprio fim e o ser humano enquanto meio, alterando-se as subjetividades. Pois bem, como reflexões historicamente situadas, nas discussões constituintes do corpo desta pesquisa são então apresentadas a problemática da razão instrumental e do tecnicismo como reguladores dos processos formativos, a partir do conceito de semiformação (ADORNO, 2010). Com base em tal tendência, a partir das reflexões adornianas tornou-se possível interpelar as formações de professores e professoras, compreendendo de tal forma que, ao invés de formar para propósitos culturais e humanos, vão se revelando, ao contrário, um lugar majoritariamente subserviente para a reprodução dos mecanismos da sociedade, pois instituem, como bem apontam as palavras de Adorno (2010, p. 21), uma série de “[...] estruturas previamente colocadas a cada indivíduo em sentido heteronômico e em relação às quais deve submeter-se para formar-se [...]”, vigorando nada mais do que uma racionalidade instrumentalizada e nada crítica. À vista disso, verifica-se grande número de cursos na atualidade para formar professores e professoras e para “reciclá-los”, os quais oferecem ilusoriamente certa munição de informações para o (a) professor (a) agir com respostas prontas, ou seja, para cada situação do cotidiano escolar, há um curso correspondente. Com isso, as formações vão se distanciando da base forte em que deveriam estar apoiadas, sem oferecer respostas prontas, antes formando para a autonomia e, inclusive uma formação onde fosse mais aceitável também o não-saber. Bernardete Angelina Gatti et al., as quais são pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas1, (GATTI et al., 2019, p. 15) possuem reflexões2 muito importantes para a esfera formativa docente, impulsionando a considerar os “aspectos da sociedade em que hoje nos movemos [...] [pois] estes aspectos adentram a vida escolar”. Em função disso e a partir de tal assertiva, considera-se como aspectos e para análise nesta pesquisa, as premissas neoliberais na 1 A Fundação Carlos Chagas é uma instituição sem fins lucrativos, com vários grupos de pesquisa com enfoque na área educacional. Disponível em: . Acesso em: 25 de julho de 2022. 2 As reflexões citadas estão na obra “Professores do Brasil: Novos cenários de formação” (GATTI et al., 2019), escrita por pesquisadoras colaboradoras da Fundação Carlos Chagas: Bernardete Angelina Gatti, Elba Siqueira de Sá Barreto, Marli Eliza Dalmazo Afonso de André (já falecida) e Patrícia Cristina Albieri de Almeida (pesquisadora pertencente à equipe principal). https://www.fcc.org.br/fcc/ 13 sociedade contemporânea, sua disseminação nas instituições e o controle exercido na subjetividade dos indivíduos, argumentos estes sustentados a partir dos escritos também dos pensadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval. Frente a tais reflexões, foi formulada a pergunta axial: Em que sentidos a Técnica Klauss Vianna pode contribuir para ampliar as discussões para a formação docente em contexto neoliberal? Tendo no horizonte o problema de pesquisa acima, a expressividade deste estudo foi depurada no seguinte objetivo geral: compreender e expor as potencialidades e os limites do Processo Lúdico da Técnica Klauss Vianna na experiência formativa docente. Para tanto, serão abordados de forma teórica e esmiuçados os princípios, fundamentos e práticas oriundas da TKV e os sentidos de experiência e corpo permeados. Ainda nessa direção, uma vez que esta pesquisa se guia pelos pressupostos da Teoria Crítica da Sociedade, foi preciso elaborar pensamentos sobre os conceitos de experiência, semiformação, racionalidade técnica, presentes nos estudos de Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, e extrapolá-los também à formação de professores e professoras, relacionando em seguida com o encontrado nas pesquisas sobre a TKV. A substancialidade do entendimento do soma nessa pesquisa deu- se também pelo fato de a própria pesquisadora-professora experimentar a TKV e narrar a experiência fruto deste processo. Para desenvolver uma reflexão em torno do problema acima exposto realiza-se aqui uma pesquisa bibliográfica integrada a experimentações práticas da própria autora em relação ao processo lúdico da TKV. No caso da revisão bibliográfica a busca por artigos foi realizada na plataforma Scielo, a partir das palavras-chave Teoria Crítica, formação de professores, educação somática, teatro, experiência e TKV. O tratamento dos artigos foi realizado a partir de leitura refinada, extraindo informações relevantes e escolhendo aqueles que mais respaldavam o interesse deste estudo. Assim, seguiu-se propriamente à escrita e organização da pesquisa por meio de análise crítica dos materiais, todo o tempo entremeado com a experiência de vida da pesquisadora resultante de seu contato com os referenciais. Pela cena esquadrinhada, trata-se de um estudo qualitativo de caráter exploratório descritivo sustentado tanto nas vozes de autores que abordam os processos formativos na modernidade em geral e específicos da formação docente quanto na experimentação corporal 14 vivida em estudos individuais e em oficinas em meio on-line conduzidas pela professora doutora Jussara Corrêa Miller3. Assim, uma vez realizada a busca por artigos com a finalidade de saber dos caminhos já percorridos por outros, e como justificativa para o aqui descrito, foi identificada a ausência de experimentações somáticas na maioria dos trabalhos, permanecendo unicamente enquanto possibilidade teórica, excetuando-se o trabalho de Guedes (2018). Foi também possível verificar que os trabalhos com a TKV se encontram restritos às áreas reconhecidamente tidas como mais corporais, isto é, no domínio das artes do corpo (Teatro e Dança) para direcionamento de processos criativos de artistas (MILLER, 2010; BITTAR, 2012; MAFFI, 2016; HOLANDA; LOURENÇO, 2017; NASCIMENTO; MILLER, 2018; PAIVA, 2018; CASTILHO; BRITO; LEMOS, 2020) ou utilizada como metodologia para o ensino das respectivas áreas (MILLER, 2010) e, na Educação Física ou Saúde. Um único trabalho foi encontrado pesquisando a Técnica Klauss Vianna na grande área da Educação (BARROS, 2017); entretanto, diferencia-se deste estudo pois não se interessa diretamente pela formação de professores, versando sobre a micropolítica e biopolítica na sociedade. É importante ainda mencionar que os trabalhos encontrados sobre a TKV foram realizados em sua maioria no estado de São Paulo, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), mantendo-se territorialmente concentrados em grandes centros e não se dispersando para o interior do país. Não somente a ausência/incipiência de trabalhos corporais na formação de professores e professoras é justificativa para este estudo, bem como as observações realizadas pela pesquisadora diante dos diversos processos aos quais esteve circunscrita, tanto a partir de sua própria voz quanto ecoando as vozes colecionadas de docentes do interior do Mestrado Profissional em Educação. Diante da incipiência de pesquisas na área do trabalho corporal/artístico na formação docente, este trabalho quiçá contribua para germinar pensamentos mais sensíveis nesse âmbito, para que os professores e as professoras possam trazer à tona suas singularidades e talvez sentir sua práxis docente de outras formas. Entende-se aqui ser preciso cavar um espaço de tempo para o cultivo de dimensões não apenas racionais dos indivíduos, mas também daquelas 3 As oficinas mencionadas foram realizadas em dois momentos distintos. O primeiro momento refere- se à oficina contida na programação da Mostra Transversalidades – corpo, política e educação, evento que aconteceu em maio de 2021 e cuja idealizadora foi Carla Gontijo, diretora de um estúdio de dança na cidade de Ouro Preto/MG. No segundo, as oficinas foram feitas no mês de abril de 2022 através de contato direto com a própria Jussara Corrêa Miller, por participação breve em um de seus cursos disponíveis no Salão do Movimento (espaço localizado em Campinas, com diversos cursos oferecidos relacionados à TKV), intitulado A escuta do corpo. Ambas diretamente vinculadas à TKV. 15 sensíveis/estéticas. Entretanto, a exposição a outras perspectivas formativas, é também convite legítimo para repensar a própria educação e, ao mesmo tempo, enquanto professores e professoras, as concepções educacionais perpetuadas pela práxis cotidiana. Um encorajamento para imaginar, elaborar sentidos e movimentos na busca por desbravar algumas questões e afirmativas formuladas pelos pensadores e pensadoras aqui citados. Para organização deste trabalho, a escolha foi por dividi-lo em quatro capítulos, distribuídos com pensamentos mais fluidos e menos lineares, onde dentro de cada um estão alocadas as vozes coletivas constituintes da integralidade desta pesquisa, sendo o primeiro colocado como introdução. Segue-se dispondo as referências estudadas, a referência da pesquisadora e de sua orientadora Luciana Azevedo Rodrigues na experimentação destes novos rumos e problematizações, as contribuições de todos os professores e professoras do Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal de Lavras e dos (as) colegas de aula, e também dos (as) colegas do Grupo de Estudos em Teoria Crítica, Educação e Educação Física da mesma universidade, além das fundamentais contribuições dos mestres Marcio Norberto Farias e Jussara Corrêa Miller, participes da banca de qualificação. O Capítulo II, subdividido em dois tópicos, contemplará no primeiro a descrição dos espaços formativos da vida da autora, escrita esta encorajada principalmente pelo contato com os textos do autor Walter Benjamin em sua obra Rua de Mão Única (1987b), discutidos no Grupo de Estudos em Teoria Crítica, Educação e Educação Física da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Incitada também à rememoração pelas escritas benjaminianas extremamente sensíveis, e também tocada pelas orientações de Vianna e dos (as) polinizadores e polinizadoras de seu trabalho, no que diz respeito à importância do corpo em relação às espacialidades - estar atento e com os olhos bem abertos – a pesquisadora localiza seu chão, onde realiza uma breve reconstrução de suas memórias, intentando elaborar alguns incômodos, por considerar que estes indubitavelmente têm a ver com o movimento desta pesquisa marcado pelo próprio movimento enquanto indivíduo, artista e educadora no mundo. No segundo tópico continua-se a conversa acerca da formação docente na contemporaneidade, deixando estar de estar unicamente respaldada nas observações da pesquisadora e sendo balizada essencialmente pelas autoras Elba Siqueira de Sá Barreto, Bernardete Angelina Gatti, por suas amplas contribuições e pensamentos nessa área e Antonio Flavio Barbosa Moreira. Encontram-se ainda discussões emergentes da vivência da autora no Mestrado Profissional em Educação. Convergindo com tais discussões, são apresentados estudos dos autores da Teoria Crítica da Sociedade, através dos conceitos experiência, formação, semiformação e racionalidade técnica para esta escola. Logo, seu esqueleto é constituído principalmente pelas ideias extraídas de três textos: Dialética 16 do esclarecimento (ADORNO; HORKHEIMER, 1985), Educação e emancipação (ADORNO, 1995) e Teoria da Semiformação (ADORNO, 2010). Ademais, acerca das reflexões sobre o neoliberalismo, contribuem os autores Pierre Dardot e Christian Laval com o título A nova razão do mundo (2016). O Capítulo III, “O Chão da Técnica Klauss Vianna”, é onde mais diretamente este estudo apresenta fundamentos para a experiência formativa docente pela via corporal a partir primeiramente da investigação dos fundamentos da TKV. Para tanto, obviamente parte-se da história e dos pensamentos do próprio Vianna (2018) e de outros (as) que fazem eco aos estudos do autor, extremamente relevantes para o entendimento da TKV, sendo alguns como Neves (2004), Miller (2005), Miller e Neves (2013), Lazslo (2018) e Paiva (2018) para apresentar os princípios constituintes deste trabalho. Ainda nesta seção, aparece o dispositivo metodológico em que parte desta pesquisa foi organizada, o caderno-oficina, realizado no decorrer da disciplina Laboratório de Práticas Educativas4. Para complementar o material já existente no caderno, narra-se a experimentação de si outra vez com inspiração nos textos benjaminianos no encontro com a TKV, relacionada a este movimento formativo. Em “Pontos para repartir”, pondera-se sobre todo o exposto, chamando a atenção para a complexidade do cenário sociocultural e como este interfere nas formações docentes em curso e nas subjetividades, ressaltando a pertinência – e urgência – de mais pesquisas investigativas de outras possibilidades de formações, principalmente questionadoras dos modelos neoliberais de produção da vida e do conhecimento. Uma vez apresentados tanto os conceitos da Teoria Crítica quanto aqueles que circunscrevem o trabalho pela TKV, reflete-se sobre a diferença entre a técnica enquanto fim (máxima da sociedade neoliberal) e a técnica enquanto meio (núcleo da TKV), para apontar o trabalho disseminado através da Escola Vianna como um caminho de experiência (Erfahrung) formativa (Bildung). 4 Disciplina realizada no âmbito do Mestrado Profissional em Educação no período 2020.2. O caderno- oficina consiste no “produto” educacional que deveria ser produzido relacionando-se à pesquisa em curso. 17 2. EXPERIÊNCIA E FORMAÇÃO: ELABORANDO INCÔMODOS EM CONTATO COM A TEORIA CRÍTICA DA SOCIEDADE O interesse pela educação somática dentro da formação de professores e professoras advém do entendimento de que o (a) professor (a) não se forma mestre (a) apenas nos cursos realizados, mas, durante toda a sua vida está se formando enquanto docente, pois é principalmente com sua subjetividade construída durante sua existência5, portanto mais relevante em relação ao conteúdo abordado em seu percurso formativo acadêmico, com a qual sumariamente dará aulas. Através destas experiências significativas o professor e a professora constroem grande parte da concepção dos significados de educar, ainda que de maneira inconsciente. Nesse sentido, a elaboração realizada no primeiro tópico deste capítulo através da autorreflexão faz um recorte do percurso formativo nos espaços institucionais, julgados importantes para a construção da pesquisadora e intenta rastrear a justificativa em âmbito pessoal para a pesquisa em tela. Por todas as reflexões realizadas na primeira parte, cujo cunho é individual, por meio de observações construídas e colecionadas ao longo de toda uma vida, o próximo tópico tem por objetivo apresentar os diálogos realizados mais diretamente com os autores e autoras dos referenciais teóricos, principalmente Walter Benjamin, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, vinculados à Teoria Crítica da Sociedade. Por intermédio de suas respectivas reflexões, foi possibilitada a ampliação da vista sobre a formação docente permitindo problematizar a sua tecnicidade e o seu apelo ao desempenho evidenciados no tópico primeiro. Em função disso, as questões pessoais foram trazidas para o centro de um debate mais profundo e analisadas à luz das incoerências existentes em seu íntimo na modernidade, especulando-se acerca dos rumos das instituições e das subjetividades. 2.1. Caminhos, tempos e espaços dissidentes Nós somos nosso corpo. Toda educação é educação do corpo. MÁRCIA STRAZZACAPPA 5 Para os sentidos intrincados a esta pesquisa, a existência não é individual, é coletiva e, por isso, sempre está vinculada a contextos variados e a outros sujeitos. Assim, as experiências e as subjetividades são afetadas pelos modos como a sociedade é organizada em macroescala. 18 Este início é dedicado para falar brevemente sobre os espaços formativos da vida da autora, dando especial ênfase para descrevê-los segundo sua maior ou menor permissividade para o movimento corpóreo-criativo, visando, assim, significar os caminhos de estudo e importância dessa pesquisa para o âmbito da formação de professores. O prédio no qual se instala o Núcleo de Educação Continuada, onde parte das aulas do Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal de Lavras (UFLA) é realizada, tem uma de suas laterais situadas logo em frente ao atual Núcleo de Educação da Infância (NEDI), que à época de criança da pesquisadora chamava-se, “Creche Escola Semente do Amanhã”. Pois bem, estudou neste espaço dos três aos seis anos de idade. Vasculhando sua memória, não encontra muitos detalhes sobre os cômodos do interior da escola, e pensa ser a explicação para tal esquecimento a importância conferida ao lado de fora, onde se encontrava: um parquinho, o qual parecia o maior lugar do mundo, repleto de brinquedos, e eram tantas formas e cores que, de certo modo, induziam-na a brincar e brincar até parar por força maior (geralmente, uma voz chamando todos de volta para dentro). Havia um brinquedo, este chamava mais atenção, e havia sido colocado bem ao centro: um dinossauro verde, de ferro, simplesmente enorme, ele sim, roubava a cena. Nesse momento, ela se recorda vivamente de quando, olhando para cima, tinha a impressão de ser engolida pelo animal. Todas as crianças se aninhavam nele, subiam, escalavam. Havia também uma estrutura de madeira, mais ao lado, assemelhando-se a um pequeno palco, e donde brotava uma árvore possuidora de uma placa afixada em seu tronco, com os escritos “Castelo Rá-Tim-Bum”. Ali era o espaço do faz-de- conta. Ao redor da escola estava também um conjunto de arbustos chamados pelos pequeninos: “de bosque” (este era o segundo maior lugar do mundo, depois do parquinho, obviamente). Às vezes, passeavam todos por ali, pegavam as folhas caídas ao solo, em sua maioria, já secas, uma vez que, jaziam naquele lugar fazia algum tempo, apenas esperando serem carreadas pelo vento, ou por pequenas mãozinhas. No segundo caso, as mãos eram dos pequenos colecionadores de folhas secas, e artistas, pois, num dado momento posterior, aquelas serviriam de matéria-prima para a arte com giz: colocava-se uma folha de árvore por baixo de cada papel sulfite, onde se passava o giz de cera, marcando o esqueleto colorido de cada planta. Decerto esse não era o único esqueleto, porquanto o exoesqueleto das cigarras nos troncos também era alvo da curiosidade infantil: quantas vezes ao arrancá-lo, tivera aquele corpinho seco e sem vida, no seu, repleto de vida. Durante toda a primavera aqueles insetos faziam-se ouvir através do seu cantarolar. Outras vezes, para além do bosque, a aventura tornava-se mais arriscada, já que era hora de desbravar a universidade; tudo era tão envolvente naquele passeio, mas havia uma sala 19 branca, especial, onde passava em frente e, onde jamais entrara: do lado de fora podiam ser vistos esqueletos enormes fixados na mente infantil, enquanto dinossauros (talvez, por causa do brinquedo do parquinho). Entretanto, só mais tarde ela pôde descobrir que era uma das salas do departamento de Veterinária – a sala de Anatomia – e que não tinha nada a ver com suas criações arqueológicas. Assim, a menina estudaria naquele espaço “mágico” até os seis anos de idade e, desde aquela época responderia à famigerada pergunta sobre o que ia ser quando crescer com as seguintes palavras: “Eu vou ser Veterinária”, devido à paixão nutrida pelos habitantes da sala branca. Em direção ao próximo ciclo, com sete anos de idade, ela começa a primeira série na Escola Estadual Tiradentes (E.E.T.), instituição na qual permaneceu até o oitavo ano do Ensino Fundamental. Ali, experimentou as espacialidades de diversas formas, principalmente, através da construção de peças teatrais. Neste ponto, o teatro apresentava-se como possibilidade de criação e movimento, já que nessa escola não estava mais tão livre quanto na Semente do Amanhã. As encenações, às vezes, aconteciam dentro das disciplinas de Português ou Literatura para dar conta de trabalhos solicitados pelos professores – embora, estes não pedissem especificamente aos alunos que fizessem algum tipo de encenação, mas, sempre via nos referidos afazeres escolares uma oportunidade para criar um ambiente teatral. Outras vezes, a partir de iniciativa própria, ou em conjunto com outros (as) colegas de classe igualmente interessados, surgiam peças, até mesmo dissociadas da obrigatoriedade das disciplinas, tão somente pelo simples prazer de fazê-las. Nesta escola, as salas estavam divididas em dois andares, por isso, havia muitas escadas e muitos corredores; nos últimos, fazia-se valer literalmente seu nome: corria-se perigosamente ali no horário reservado para o merecido recreio. Os menores eram quase massacrados pelos maiores; era um espaço muito disputado, e poucas vezes a garota arriscaria sua vida por ali. Preferia sorrateiramente ocupar estes espaços quando havia menos gente, e quando o intento estabelecido era passar por ali para o ensaio de alguma peça teatral. Acabando a oitava série, é direcionada pela sua mãe ao Colégio Tiradentes da Polícia Militar (CTPM): logo ao lado da E.E.T. Aquele, mais sério, mais disciplinador. As brincadeiras no pátio sempre tinham os seus limites, e estavam longe de serem muito agitadas. Os corredores não serviam mais às corridas. Sair da sala era também uma enorme burocracia. Se precisasse ir ao banheiro, e no meio do percurso fosse vista pelo vigilante, logo era indagado o destino. Os passos eram sempre vigiados. Ali, pode-se dizer não ter sido tão feliz como havia sido nas outras escolas, uma vez que aquelas a enchiam de vida abrindo-se para a menina tanto quanto ela se lançava encantadoramente para nelas estar. No CTPM todo tempo destinava-se ao 20 aprendizado de conteúdos produtivos, ainda mais quando se aproximava o momento do vestibular. Ainda que, por vezes, ela tenha conseguido subverter aquela dura realidade, pois continuava com o teatro - adaptou peças, fez fotonovela, invariavelmente ligadas às disciplinas – haja vista algo naquele recinto a incomodar profundamente. De toda forma, aproximava-se a hora de prestar o vestibular e ela, claro, ia ser veterinária. Aparentemente, nada havia mudado. Quando chegou o terceiro ano do ensino médio, já não aguentava mais ter que frequentar as aulas. Não queria mais ir à escola, aquilo se tornara um martírio. Finalmente, vem o vestibular e acaba o Ensino Médio. Formou-se em 2009. Logo em 2010, começava mais um ciclo: o momento tão esperado desde a infância para entrar na sala dos dinossauros, eis nunca lá haver adentrado. Tinha uma vã esperança que ossaturas balançassem-se, movessem-se. Então, em 2010 começou o curso de Veterinária na UFLA. No primeiro dia de aula, também houve o primeiro choque: o professor de Anatomia (responsável pela sala dos dinossauros) transformou os estudantes em números na chamada, sem que fosse preciso nenhuma mágica. A menina Karen, passou a ser o número 201010229. A partir daquele momento, toda a magia criada em torno daquele lugar, e de tão esperado momento começou a se desfazer. Em sua entrada na sala de Anatomia pela primeira vez, descobre não serem dinossauros, mas, vacas; não se mexiam e eram bem menores do que aparentavam quando olhados do lado de fora pelos olhos infantis, tampouco podiam ser escalados, pois, se o fossem, desmoronariam, e o educador, numerólogo, não iria gostar nenhum pouco. Paulatinamente, vai descobrindo não gostar de anatomia (pelo menos do modo como era ali ensinada) e principalmente, dos ossos. Em todas as aulas, pairava um ar de competição entre todos os estudantes, incitado e, muito pelos preceptores e preceptoras em sua maioria. Progressivamente, o lado veterinário foi sendo ofuscado, e outro viés começava a revelar-se – a artista, ainda estava lá. A jovem dá um jeito de escapar das aulas do curso de Veterinária para ensaiar; deixa de estudar para provas para decorar textos. Em paralelo ao curso de graduação faz parte de um grupo de teatro. Ainda que, desde o ensino médio tudo parecesse ser um tanto quanto imóvel, algo dentro dela continua a movimentar-se. E, de movimento em movimento, jogada para fora por uma força centrífuga, planejou ardilosamente sua fuga: vai fazer Artes Cênicas. No curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), é convidada a colocar os pés no chão, sentir o piso de madeira, a prestar atenção nos sons do entorno do Departamento, ouvir mais a voz, os diferentes timbres, bem como a permanecer num estado de presença significando o pulsar interior, ainda que, estivesse completamente imóvel. Entretanto, mesmo em uma graduação com o intuito de formar professores e professoras, não conseguia discutir sobre as potencialidades e os desafios do corpo para a Educação, e, de algum modo, 21 estava ainda aprisionada pela dicotomia corpo/mente estabelecida em todas as disciplinas. Não se trabalhava integradamente. Se de um lado algo ampliava os sentidos corpóreos-semânticos, de outro, majoritariamente sentada, estudava sobre os Fundamentos da História da Educação. Havia também uma diferença com as escolas do ensino fundamental e médio: se naquelas todas as salas de aula eram tomadas com muitas mesas e cadeiras, restringindo a movimentação somente ao necessário, em contrapartida, no Departamento de Artes Cênicas (DEART), existiam alguns espaços, destinados às aulas “práticas”, livres de quaisquer mobílias, propiciando a liberdade para o movimento corporal. Assim, pensando sobre todos esses espaços formativos pelos quais vai passando ao longo de sua vida, a discente vai percebendo o quanto os espaços escolares sempre a encantaram e, ao mesmo tempo, continuavam em muitos aspectos obscuros e inalcançáveis. Por tudo isso – o teatro, a Licenciatura em Artes Cênicas e os questionamentos frente à realidade escolar – chega ao Mestrado Profissional em Educação com a mala cheia de perguntas. No Mestrado em Educação, sempre atenta às falas de seus e suas colegas nas aulas, começa a ouvir muitas críticas às formações iniciais, com o argumento de que o chão da escola deveria servir como espaço central para a constituição do ser professor (a). As críticas elaboradas almejavam que as formações iniciais dessem maior subsídio para o “enfrentamento” das salas de aulas, dos alunos e alunas, com a finalidade de preparar o pedagogo (a) para lidar com os inúmeros problemas da escola. Nisso, é percebida uma enorme angústia dos (as) alunos (as) do mestrado (em sua maioria, já também docente) por se acharem insuficientes frente à complexidade dos problemas existentes na escola, apontando sempre para as tantas lacunas das graduações. Nessa lógica, a autora infere algumas das expectativas quando se passava pelas formações: praticidade, utilidade e talvez - caso não fosse pedir muito - uma luz no fim do túnel. Aponta-se que, pois, a ênfase nesta ideia é de suma importância para a condução desta pesquisa, a solução externada era sempre uma formação a ser dada “no chão da escola”. Além disso, igualmente à maioria das salas de aula acima mencionadas, também no prédio em que tivera duas semanas de aula em 2020 (já que foram suspensas logo após à percepção de uma pandemia) as salas estavam repletas de mesas e cadeiras, sem quaisquer possibilidades para o movimento. Um convite para colocar os pés no chão não houve mesmo em se falando repetidamente do “chão da escola”. Neste seguimento, das referências bibliográficas indicadas sobre a formação docente, grande parte coadunava com a ideia acima referida, não deixando muito espaço para o fomento a outros tipos de reflexões. Parecia que o único pensamento possível era tomar a atividade docente enquanto uma atividade prática 22 (MOREIRA, 2021), encontrando seus sentidos de ser estritamente dentro da escola, e respondendo a questões interpeladas por “como fazer”. Havia também outra questão relacionada com o projeto de pesquisa de todos (as) os (as) discentes: muitos não tinham familiaridade com o âmbito da pesquisa acadêmica, demonstrando certo desespero no grupo de WhatsApp da turma 2021.1, e expressando-se verbalmente durante as aulas síncronas. Manifestavam-se assim, acerca das dificuldades de escrever, de organizar as ideias, das leituras das bibliografias para a própria pesquisa, e para as disciplinas versus o tempo necessário destinado para outras tarefas, inclusive as aulas dadas para outros (as) estudantes no novo modelo estabelecido - o do ensino remoto pelas telas – apareciam queixas sobre a ausência de seus orientadores e orientadoras nos processos de estudos e, havia também uma terrível preocupação com o produto a ser entregue. Foi nesse contexto que a autora se aproximou do texto Teoria da Semiformação, escrito originalmente em 1996 pelo filósofo alemão Theodor W. Adorno, e que a levou a pensar sobre a imposição da racionalidade técnica na formação de professores e professoras. Em tal caso, relacionando ao vivenciado no mestrado, nota-se uma tendência em ter em vista o resultado, e a negligenciar o processo. Esta propensão foi acirrada ainda mais pela tentativa de onipresença através dos grupos de WhatsApp, gravação de videoaulas, lives, em larga escala evidenciando-se a supremacia da técnica e da autossuperação para o desempenho. Nestes casos, a técnica aparece tomada enquanto próprio fim, e não como um meio, causadora de grande superficialidade nas reflexões realizadas nas disciplinas devido a condições objetivas disponibilizadas para tanto (tempo, espaços...). Ironicamente, por meio de uma grande reviravolta social, o cenário pandêmico colocou os (as) docentes a experimentarem um novo modo de dar aula, tendo em vista a subtração concreta do tão afamado “chão da escola”, sobretudo porque tiveram que estar mais sentados, e dando aulas diretamente do seu estúdio-casa. Encerrados entre a cadeira e a mesa, perfeitamente enquadrados pela tela, escolhem a melhor luz e ângulo para serem vistos. Às vezes, ergonomicamente posicionados. Ora, um observador distraído vendo essa cena até poderia pensar tratar-se de um pensador moderno, e, portanto, em vias de conceber uma experiência intelectual. No entanto, a pesquisadora atentando-se mais profundamente ao quadro sinaliza para o supermovimento da modernidade, onde neste bojo torna-se imperativo ter um desempenho máximo, cobrando-se para produzir a todo momento e competir, lidando com o encalço da necessidade por infinitas atualizações, de respostas imediatas, e da disponibilidade excitatória ininterrupta instituídas à formação docente. Deveras isto dissolve os intentos em prol da formação mais consistente e intelectual e dá vez à superficialidade formativa, significando antes tecnicismo e pragmatismo. 23 Diante dos aspectos acima indicados, revela-se que, embora a discussão sobre o chão da escola, e tudo o mais a ele inerente, seja essencial e indiscutivelmente necessária, porquanto o local de trabalho do professor e da professora seja exatamente na escola, onde dá aulas, como bem afirmam inúmeros autores célebres em questões formativas, há a necessidade de problematizar se este é o único chão a que os formadores e as formadoras precisam atentar-se, assim como, se a técnica constituída do trabalho realizado é apenas aquela voltada para resolução de problemas imediatos. 2.2. Seguindo os rastros de outros para discutir a formação docente Discutir a questão da formação docente na contemporaneidade é uma tarefa bastante árdua, porém imperativa, já que os professores e as professoras são (ou deveriam ser considerados) os (as) sujeitos-chave para o campo educacional, em virtude de serem aqueles e aquelas que lutam, e acabam ficando mais vulneráveis tanto frente às oscilações legais, quanto àquelas ocorridas na própria sala de aula (GATTI et al., 2019). Ainda constituem “[...] o terceiro subgrupo ocupacional mais numeroso no Brasil” (BARRETO, 2015, p. 681). Cabe ressaltar que, embora os mentores e as mentoras não sejam os culpados pelo fracasso da educação, e, tampouco sejam os heróis ou as heroínas que carregam consigo a tábua para a salvação, é imprescindível, sim, indagar e problematizar os interesses por trás da formação destes e destas, e quais seus intentos. Por isso, esta escrita segue repleta de perguntas, as quais apesar de não serem o problema da pesquisa, são também genuínas e nascidas ao longo das leituras, perpassando todo o texto – algumas vezes somente nas entrelinhas. Deste modo, para começar o assunto, a pesquisadora elaborou duas questões, uma mais geral, e a outra mais específica alinhada à linha de pesquisa do mestrado, Fundamentos da Educação, Corpo e Cultura: teoria e prática nos processos educativos. A primeira: se em outras épocas sabia-se mais precisamente quais eram os significados da Educação, quais seriam estes significados hoje? Quais seriam as referências que dariam condições para pensarmos mais diretamente o âmbito formativo hoje? Apesar de serem questões extremamente importantes e que renderiam longas divagações, elas não serão respondidas aqui diretamente, pois o interessante para início de conversa é o entendimento acerca do tempo histórico marcado em ambas: o hoje. Este tempo 24 diz respeito (segundo as referências teóricas de pesquisa) à sociedade neoliberal orientada pela tecnociência e também em contexto pandêmico6. O tipo de sociedade descrito acima (exceto pelo cenário de pandemia, acrescido por esta pesquisa) é evidenciado nas palavras dos autores Dardot e Laval (2016), a partir daquilo que definem por neoliberalismo: “[...] um sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” (p. 7). Assim sendo, a ideia de capital humano é propagada segundo a máxima empresarial da geração de lucro a todo custo não somente dentro das instituições mas, essencialmente nos próprios sujeitos, os quais precisam autocontrolar-se (idem). Estas especificidades são geradoras de consequências para a área formativa, já que as diretrizes mais precisas correspondentes aos significados de uma educação em outras épocas vão se desfazendo e confundindo-se com termos econômicos empresariais para o máximo controle e otimização dos “serviços educacionais”, ocorrendo uma espécie de desterritorialização das instituições formativas, através de sua diluição nas máximas acima referidas. Ora: desde o início da sua expansão o neoliberalismo mirou a escola, o sistema escolar, a universidade etc. Isso por várias razões diferentes, mas uma das motivações fundamentais é que se trata de um lugar de formação de um certo tipo de subjetividade. Em termos mais simples, é o lugar de criação de um “capital humano”, pensado como tal, que vai alimentar um sistema produtivo baseado na concorrência generalizada. [...] A escola neoliberal tem como alicerce a eficiência, o desempenho, a rentabilidade (LAVAL, 2019). Logo, as formações dos professores e das professoras são tomadas por diretrizes empresariais em conformidade à sua realidade na escola, valendo-se também do pensamento da competição e do desempenho, já que esta é uma das esferas regulada pelo desenvolvimento de políticas de avaliação, pela expansão de materiais pré-preparados, além do pensamento da política das competências. Neste sentido, a escola enquanto empresa intenta fazer do professor e da professora nada mais que meros executores de protocolos educativos, sentenciando-os a incorporar ao exercício de sua profissão inúmeras formações descontextualizadas para dar conta das inovações subjacentes aos novos modelos educacionais, oriundos das reformas neoliberais. Em suma, conforme apontam Isobe e Pedrosa (2019), “[...] Cria-se, com isso, um ethos 6 Embora Gatti et al. (2019) refiram-se em seu texto à sociedade em rede, esta pesquisa utilizará o entendimento da sociedade neoliberal orientada pela tecnociência e também em contexto pandêmico por julgar ser mais amplo para a discussão realizada aqui, estando em consonância com os outros referenciais teóricos, principalmente descritos em A nova razão do mundo (DARDOT; LAVAL, 2016) e Teoria da Semiformação (ADORNO, 2010). 25 competitivo no sistema de ensino, baseado na racionalidade neoliberal cuja tônica reside na lógica do mercado7”. Logo: [...] os robustos programas de formação continuada de docentes tendem a perder a importância que já tiveram, uma vez relegada a intencionalidade das ações educativas a segundo plano com o predomínio crescente do estilo gerencialista comandado pela avaliação de resultados nas políticas da educação básica. As novas formações inclinam-se a se concentrarem na aquisição de expertise no manejo de recursos humanos (professores, coordenadores pedagógicos, supervisores, pessoal de apoio, enfim) e de recursos organizacionais da escola (tempos, espaços, materiais didáticos) para alcançar as metas propostas (BARRETO, 2015, p. 698). Dessa forma, a construção do percurso formativo dos (as) docentes fica inevitavelmente fadado à superficialidade e à cumulatividade impostas pela feitura desenfreada de cursos, que individualmente – pois, se competem por vagas - procuram adquirir e desenvolver as competências solicitadas pelos arranjos institucionais, pelas vias do autocontrole, da autossuperação, das avaliações constantes e às custas de sua própria humanidade. Com isso em vista, pautado no discurso da autonomia, o indivíduo é levado a colocar- se além de todo o corpo social e da natureza para realizar aquilo que supõe almejar, forjado a partir de uma nova racionalidade, esta competitiva (DARDOT; LAVAL, 2016). Nesse sentido, o indivíduo deve ser “[...] especialista em si mesmo, empregador de si mesmo, inventor de si mesmo, empreendedor de si mesmo. A racionalidade neoliberal impele o eu a agir sobre si mesmo para fortalecer-se e, assim, sobreviver na competição” (idem, p. 331). Segundo os autores (p.377), são quatro traços que caracterizam a razão neoliberal: 1) O mercado é uma realidade construída; 2) A essência da ordem de mercado reside na concorrência; 7 Os reformadores empresariais da educação (ANDES, 2015 apud ISOBE; PEDROSA, 2019) são os responsáveis por adequar a educação ao setor produtivo (ISOBE; PEDROSA, 2019). Assim, os materiais pré-preparados de ensino, isto é, as apostilas e também as matrizes curriculares, são produzidos em larga escala para padronizar aquilo que se deve ensinar, esquadrinhando mais uma qualificação técnica do que reflexiva e humana. Nessa mesma linha, existem as avaliações de desempenho, as quais mensuram os aprendizados dos alunos com o intento de se inferir se o trabalho docente está alinhado com os interesses do mercado. Em consonância a isto, a política das competências postula uma gama de habilidades técnicas, para orientar o trabalho dos educadores e das educadoras; nisso, avalia-se quem é competente e quem não o é, descartando-se o trabalhador à medida que este não tenha as habilidades solicitadas para ocupar o posto de trabalho, tendo em vista a manutenção daquilo compreendido enquanto qualidade de ensino. Com tudo isso em vista, o professor e a professora perdem sua autonomia, pois estão limitados ao determinado por terceiros (idem). 26 3) O Estado é submetido à norma da concorrência; 4) Os indivíduos devem ser empresas de si mesmos, segundo a ideia de capital humano. Considerando tais características, neste contexto o professor e a professora são colocados tão logo como meios para geração de lucro e não como sujeitos humanos, ocasionando uma mudança na subjetividade dos indivíduos e não só em seu trabalho, corroborando exatamente com a visão do neossujeito8, para a qual sinalizam Dardot e Laval (2016), o qual por sua vez “[...] deve governar-se a partir de dentro por uma racionalização técnica de sua relação consigo mesmo” (p. 350). Ligadas a tais reflexões, e mais especificamente relacionada à subjetivação dos indivíduos, e à formação humana, são trazidas a partir de agora algumas considerações da Teoria Crítica da Sociedade (TCS)9. Sabendo que, embora Theodor W. Adorno10, Walter Benjamin11 e Max Horkheimer12 tenham escrito em uma época de plenos pulmões capitalistas, com algumas peculiaridades distintas das do tempo atual, é assumido que suas teorias são extremamente relevantes para o tratado aqui, encontrando-se as reflexões de tais autores em estudos recentes e, portanto, tomando-os como visionários acerca dos sinais existentes na sociedade neoliberal advindos ainda do sistema precursor. Em Educação após Auschwitz13, Adorno faz a seguinte indagação: O que acontece, e o que, se houver algo, poderia ser feito para a reanimação da aptidão a realizar experiências? (1995, p.148) Diante do questionamento mencionado, é preciso primeiro meditar acerca do 8 “[...] Exige-se do novo sujeito que produza ‘sempre mais’ e goze ‘sempre mais’” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 355). 9 Para melhores esclarecimentos, ver a obra A escola de Frankfurt: Luzes e sombras do Iluminismo (1993), da autora Olgária de Matos. 10 Theodor Wiesengrund Adorno nasceu em 1903 em Frankfurt. Apreciador da música desde cedo, já que sua família estava envolvida em trabalhos musicais. Estudou música em Viena e defende sua tese no ano de 1931. Conhece os horrores da guerra e precisa se exilar nos EUA; quando a guerra termina, retorna a sua cidade natal. É um intelectual bastante ativo em postos de poder e estudioso da obra de Kant. Morre em 1969 (MATOS, 1993). 11 Walter Benjamin nasceu em 1892, em Berlim [...] (MATOS, 1993, p. 78). Bastante ativo intelectualmente e politicamente, autor de inúmeros artigos ao longo de sua vida, embora não tenha sido portador de um título acadêmico. Diante da iminência de ter de sucumbir às atrocidades da guerra, comete o suicídio em 1940. 12 Max Horkheimer nascido no ano de 1885 e falecido em 1973, foi um intelectual alemão com interesses em literatura e, mais tardiamente em filosofia, que juntamente com Theodor W. Adorno escreveu o livro Dialética do esclarecimento, citado nesta pesquisa. Conforme a autora Olgária de Matos, Horkheimer “[...] desenvolveu uma crítica à anomia das sociedades contemporâneas” (1993, p. 73). 13 Transmissão radiofônica realizada em 19 de abril de 1965 por Theodor W. Adorno e encontrada transcrita no livro Educação e Emanicpação (ADORNO, 2010). 27 significado da experiência nas linhas da TCS. Conforme indica Bruno Pucci (2018), estudioso nesta linha de pensamento, é elementar discorrer sobre a experiência, porque ela está atrelada à formação, embora sendo “[...] dois conceitos que se diferem entre si, mas que [...] um exige a presença do outro” (p. 5), assim explica: A Experiência, no alemão, Erfahrung, expressa nossos esforços e lutas para superar as dificuldades da vida, na tentativa de ir além de nós mesmos e de construir nosso amanhã e, com a perspectiva de carregar conosco, em nós mesmos, aquilo que é fruto de nosso labor e conquistas. A Experiência é, pois, algo que nos atinge intimamente, que nos envolve, que nos identifica como seres humanos. Por sua vez, a Formação, no alemão Bildung, se caracteriza por duas dimensões que se contrapõem e se complementam: a autonomia, como sujeitos humanos, emancipados; e, ao mesmo tempo, a integração na realidade social, cultural, econômico e política em que vivemos (PUCCI, 2018, p. 5 – 6). Veja como está expresso em palavras adornianas: [...] A experiência - a continuidade da consciência em que perdura o ainda não existente e em que o exercício e a associação fundamentam uma tradição no indivíduo - fica substituída por um estado informativo pontual, desconectado, intercambiável e efêmero, e que se sabe que ficará borrado no próximo instante por outras informações. Em lugar do temps durée, conexão de um viver em si relativamente uníssono que desemboca no julgamento, coloca-se um "É assim" sem julgamento (ADORNO, 2010, p.33). Ora, em referida lógica, a experiência nos termos referidos por Adorno (2010) e Pucci (2018), encontra-se impossibilitada pela constante atualização, inovação, reinvenção (palavras demasiadamente propagadas no cenário educacional na pandemia), não restando condições favoráveis para o cultivo da humanidade, da sensibilidade. Frente ao temor de que tudo se torne obsoleto, humanos tais como os eletrônicos precisam constantemente de atualizações para o seu máximo desempenho. No entanto, a experiência necessita estar localizada no temps durée, sendo a antítese do prazer pela novidade e pelo gozo pontuais (DARDOT; LAVAL, 2016). Em relação à Erfahrung (experiência), Walter Benjamin (1987a) afirma que: “[...]Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo- se ao homem” (1987a, p.115) e, completa “[...] ficamos pobres” (idem, p.119). Para o autor, a pobreza de experiência seria consequência da necessidade existente nos seres humanos da modernidade pelo novo e pelo atual e, nesse aspecto, na busca pelos imediatismos, nada de realmente humano poderia se fixar. Para exemplificar aquilo dito, remete-se ao vidro como analogia ao humano pobre em experiência, afinal de contas, nesta superfície, a qual é lisa, nada se fixa, sendo ainda duro e frio, tal qual o humano ante a técnica. 28 Em Pucci (2018) já está registrada a ideia de Bildung segundo a discussão da Teoria Crítica. Nesse seguimento, Severino reflete sobre o pensamento de Bildung para o âmbito educacional, chamando atenção para o seguinte ponto: “[...] para além de qualquer processo de qualificação técnica, o que está em pauta é uma autêntica Bildung, uma paidéia, formação de uma personalidade integral” (SEVERINO, 2006, p. 621). Entretanto, se percebe na atualidade ser uma das dimensões da Bildung mais fomentada que a outra, isto é, a integração torna-se forçada através de elementos adaptativos e manipulativos, estes principalmente disseminados via discursos postulatórios da necessidade infinita de adaptação, e em palavras mais atuais, flexibilidade e eficiência. Neste momento, é preciso trazer à luz outro tipo de admissão feita do entendimento conceitual de experiência em grande parte de pesquisas acadêmicas as quais, apesar de se anunciarem contrárias ao imediatismo neoliberal, comportam-se de tal maneira a se tornarem dele aliadas. Segundo Cruz Junior, Fonte e Loureiro (2014) certos artigos utilizam-se do conceito de experiência, para dizer de saberes acumulados, saberes da vida profissional, mais comumente relacionados a questões de profissionalização, visando pensar a formação continuada de mestres e mestras. Para os autores, isto é problemático, na medida em que, ainda que tais artigos critiquem a lógica instrumental do conhecimento, emblematicamente balizam seus estudos sobre ela, dado que suas pesquisas atuam para “[...] buscar saídas para problemas imediatos” (p. 207), onde o arsenal de experiências acumuladas deve ser mobilizado para eliminar as adversidades do domínio educacional. A este respeito: [...] no caso da formação dos professores, essa tendência se impõe em decorrência de situações objetivas transformadoras da escola, em tese, num espaço legítimo e incentivador à realização de experiências formativas, em local empobrecido tanto para alunos como para professores (CRUZ JUNIOR; FONTE; LOUREIRO, 2014, p. 211). Em razão de tais pesquisas enfatizarem o viés utilitarista e prático da experiência para a solução de problemas, esquivam-se da problematização dos saberes, tornando débil a capacidade autorreflexiva dos sujeitos, reiterando as palavras benjaminianas acerca da pobreza de experiência como foi referido em linhas anteriores. Através do ímpeto das necessidades neoliberais, onde vigora a dimensão instrumental da razão, enfraquecem-se as possibilidades de uma educação autorreflexiva e autocrítica para a superação das condições de dominação permanentes na sociedade. Obviamente, isto decorre da 29 restrição da experiência formativa, fruto do adormecimento da porção sensível do ser humano, este tornado objeto capitalizado, isto é, dissociado da relação estética de sua existência. Em Educação para quê? (1995)14 Adorno expressa sua contrariedade aos modelos ideais de educação, contrapondo nesse caso a heteronomia frente à autonomia. Em um modelo ideal de Educação, de formação, não existiriam sujeitos autônomos, emancipados; mas, tão somente sujeitos coisificados, menores enquanto seres humanos. Para o autor, uma verdadeira educação estaria pautada na construção de uma “consciência verdadeira” (ADORNO, 1995, p. 140) e, continua refletindo: Penso aqui sobretudo também no papel desempenhado na consciência e no inconsciente pela técnica, possivelmente muito além de sua função real. Uma educação efetivamente procedente em direção à emancipação frente a esses fenômenos não poderia ser separada dos questionamentos da psicologia profunda (ADORNO, 1995, p. 147 – 148). Para Adorno, não há possibilidade de experiência em indivíduos com a consciência reificada, pois sempre irão responder de maneira estereotipada a tais tentativas educacionais. Nesse caso, aponta-se para uma “[...] inflexão em direção ao sujeito por meio da autorreflexão crítica” (ADORNO, 1995, p. 47), pois um caminho formativo em direção a indivíduos autônomos: [...] precisa levar em conta as condições a que se encontram subordinadas a produção e a reprodução da vida humana em sociedade e na relação com a natureza. [...] As relações sociais não afetam somente as condições da produção econômica e material, mas também interagem no plano da "subjetividade", onde originam relações de dominação (MAAR, 1995, p. 18). A ênfase na necessidade adaptativa na Bildung estaria baseada na racionalidade vazia (ADORNO, 2010) e seria expressão do movimento semiformativo. Em seu texto Teoria da Semiformação (2010) Adorno reconhece tendências semiformativas na sociedade capitalista, as quais se contraporiam ao sentido de formação cultural considerado tradicionalmente. Isso posto, antes de avançar propriamente às ideias-chave contidas no texto do referido autor, é significativo citar a mudança dos termos traduzidos de uma edição para a outra (1996 para 2010): de semicultura para semiformação. Tal alteração manifesta o caráter subjetivo do segundo termo em contraste ao primeiro. 14 Debate radiofônico realizado em 26 de setembro de 1966 por Theodor W. Adorno e Helmut Becker . Está transcrita no livro Educação e Emanicpação (ADORNO, 2010). 30 Com fundamento em Adorno (2010), o substantivo dissociação parece central para o entendimento da semiformação: esta consistiria em dissociar o espírito de sua dimensão material (adaptação), sendo os dois pertencentes à ideia de cultura. A saber: [...] a humanidade e tudo o que lhe for inerente - enquanto sejam apenas bens, com sentido isolado, dissociado da implantação das coisas humanas. A formação que se esquece disso, que descansa em si mesma e se absolutiza, acaba por converter-se em semiformação (ADORNO, 2010, p. 10). Adorno afirma que a semiformação promove uma ideia ilusória de integração, sendo inimiga mortal da formação (2010, p. 29); para isso, é necessário interferir na subjetividade dos indivíduos, tão logo tornada “[...] a forma dominante da consciência atual” (ADORNO, 2010, p.9). A impossibilidade frente a disposição para se formar exige condições não só espirituais, mas também materiais, como o tempo - ócio - para a construção dos pressupostos necessários para a apreensão das formas culturais em sua totalidade. Entretanto, como a semiformação é característica da cultura capitalista, tanto o proletariado quanto a burguesia - mesmo materialmente amparada - são indiscriminadamente seduzidas pela rapidez do “semientendido e semiexperimentado” (ADORNO, 2010, p.18). Em uma sociedade capitalista (e na atualidade, neoliberal) orientada por linhas de produção, racionalidade técnica e rapidez, é necessária mão de obra disponível, para lidar com seus meandros, esta alinhada aos mesmos princípios. De acordo com Maar (1995, p.24): Para Adorno, o travamento da experiência deve-se à repressão do diferenciado em prol da uniformização da sociedade administrada, e à repressão do processo em prol do resultado, falsamente independente, isolado. Estas seriam, como já se viu, as características da "semiformação". Conforme explicitado, embora a semiformação pareça-se com um percurso, como ponte para a formação, ela não o é; na verdade, esta é uma ideia falsa, pois os princípios para uma e outra são completamente distintos, e não podem ser analisados equivalendo-se em significância. A fim de explicitar as diferenças, a formação cultural erige-se sobre a autonomia, tradição (relação com o passado, com a história), onde prevalece o encantamento com o mundo (relação sensível e não mediada com a realidade); enquanto, de outro lado, a semiformação promove a heteronomia, ocasiona o esquecimento do passado, aferra-se em uma relação a-histórica, imediatista (desconsidera o tempo da experiência) e é mediada por conteúdos coisificados, com caráter de mercadoria, sem quaisquer aprofundamentos, conduzindo à superficialidade. Para promover a heteronomia, são disseminados padrões e ideais, e, o sujeito ao consumi-los, apoia 31 sua vida em modos ilusórios de estar no mundo; nesse ponto, é impossibilitado de almejar o caminho para a liberdade de pensamento e construir uma vida real calcada em sua própria individualidade. Por conseguinte, se furta do momento de diferenciação na cultura. Logo, a condição humana na contemporaneidade é dependente da vantagem imediata e do afã por resultados, fazendo com que os indivíduos vivenciem rasamente a vida, pois estão o tempo todo sendo guiados para bater metas e estar de acordo com determinados contextos. Neste caminho, a apreensão daquilo que cerca os indivíduos é precária, e está segura na “consciência indigente” (ADORNO, 2010, p.24) e na pobreza de experiência. Ainda na linha das condições formativas, vejam o que afirma Adorno (2010, p.8) “[...] a formação cultural requeria proteção diante das atrações do mundo exterior, certas ponderações com o sujeito singular e até lacunas de socialização”. Na era da tecnocultura e cibercultura parece quase impossível experienciar os elementos imprescindíveis para a formação, uma vez que, há uma linha tênue separando o espaço pessoal do público (até mesmo inexistente, pelo incentivo ao home office e o consumo compensatório no tempo livre). Como se não bastasse, ainda, circula a noção de flexibilidade que inter-relaciona todos os setores da vida para que estes se adaptem à realidade instituída como forma única. Em síntese, o “é assim” força à adaptação, encorajando sentimentos de conformismo e impotência. Com isso, a partir de lógicas neoliberais de produzir e buscar informação (falsamente encarada como sinônimo de conhecimento) nas formações docentes, vão sendo moldadas e padronizadas as subjetividades produzidas a partir de um novo modelo de racionalidade, processo que expropria os indivíduos da possibilidade de experimentar marchas verdadeiras de formação. Ora, frente à dificuldade da elaboração de esquemas para pensar de forma mais abrangente e crítica, são reproduzidos nos discursos, e nos atos pedagógicos máximas tecnicistas e competitivas, podendo ser concebidas como mostras de tendências semiformativas na contemporaneidade. Por conseguinte, há uma inaptidão para a experiência, e muitos obstáculos para a construção de uma consciência verdadeira e autônoma. Comodamente, é esse cenário talhado por certos princípios da revolução Iluminista e pelo cogito ergo sum, cuja determinação dá-se a partir dos pensamentos de Bacon e Descartes, que garante a autopreservação de certos modelos de civilidade ao longo de todo período moderno, reconhecendo a razão instrumental enquanto máxima instância para ordenar a vida humana (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). A este respeito, doravante as ideias iluministas, ocorre uma transformação no relacionamento entre ser humano/natureza: nisso, se à época anterior àquelas, este mantinha um vínculo mágico, ritualizado e reverenciativo, uma vez que, 32 a natureza era compreendida como uma força sobreposta ao homem, depois, enquanto sujeito do conhecimento, passa-se a dominar o ambiente. Por este ângulo: [...] a racionalidade técnica permite operar com os fenômenos em termos de submetê-los ao poder humano. A diferença está precisamente neste fator: a dominação. Quando o sacerdote invoca as forças da natureza em benefício do homem, o que ele faz na verdade é tentar reverter o poder dominante destas forças, para que elas não se empenhem na destruição do universo humano. Completamente diferente é o caso da técnica, visto que aí a supremacia, o poder e a possibilidade de domínio situam-se do lado do homem. A natureza foi esvaziada de uma alma, isto é, de um poder que tanto podia auxiliar quanto aterrorizar (SILVA, 1997). Ao dominar a natureza, isto é, tratá-la como objeto e não mais como força, expropriando-a de uma alma, os indivíduos acabam por se esquivar da pluralidade de sentidos possíveis advindos da relação mágica outrora cultivada, sobrevindo o desencantamento do mundo. [...] O que os homens querem aprender da natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos homens. Nada mais importa. Sem a menor consideração consigo mesmo, o esclarecimento eliminou com seu cautério o último resto de sua própria autoconsciência (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 5). Assim, toda aura dantes envolta na natureza é dissipada pelo processo de reificação, onde tudo se torna objeto e, nesse caso, “é para controlar que se conhece”. Limitando-se a existência a critérios pragmáticos (ADORNO; HORKHEIMER, 1985), arrolam-se sujeitos e conhecimentos úteis, onde as reflexões são substituídas por conteúdos práticos, associados à solução de problemas, logo “a racionalidade técnica não é simplesmente aquela que se serve da técnica, mas aquela que se identifica com a técnica, isto é, identifica o meio com o fim”. Segue- se assim a uma autodestruição do esclarecimento, donde individualmente acredita-se na falácia da emancipação. Por tudo isso, para os autores da Teoria Crítica da Sociedade mencionados nesta pesquisa, os sujeitos deveriam refletir e construírem seus processos de emancipação a partir de ações interventoras no interior da própria sociedade, e não permanecer à deriva naquilo que eles mesmos produzem (SILVA, 1997), pois para Adorno e Horkheimer (1985) “[...] O que aparece como triunfo da racionalidade objetiva, a submissão de todo ente ao formalismo lógico, tem por preço a subordinação obediente da razão ao imediatamente dado” (p.13). Logo, neste âmbito há uma perversão de lugares e valores, no ponto em que a técnica figura-se como fim, e o indivíduo enquanto meio, sendo o caráter mercadológico e reificado 33 das formações (ADORNO, 2010) revelado através da preocupação com a quantidade15, cuja finalidade é unicamente a de rechear currículos, em detrimento da qualidade reflexiva e da formação humana. Portanto, ter uma base é fundamental, mas estar preparado com respostas prontas é fictício. Nesse aspecto, Severino (2006) explora o viés da Teoria Crítica como tese de extrema importância para o entendimento da atualidade, em que “[...] o papel da educação é o de assegurar a sobrevivência da formação cultural numa sociedade que a privou de suas bases”, (p.632) realizando-se somente enquanto qualificação técnica. O autor detém-se a investigar a busca do sentido na formação humana, cujas bases estão fincadas em discussões do âmbito da Filosofia da Educação. Posto isso, olhar para a Educação pelas lentes da Teoria Crítica é entender que para além de pensamentos de adaptação e flexibilização, esta deve oferecer majoritariamente meios possibilitadores da produção de resistências e contraposições, ao passo que não se pode coadunar com lógicas sequer semelhantes às proclamadas pela racionalidade técnica, já que ela corrobora com o enfraquecimento do ser humano e com o “exorcismo” do corpo. Glaciane Cristina Xavier e João Luiz Gasparini (2013) afirmam a importância e a atualidade da Teoria Crítica para a construção de um “pensar de maneira não-tutelada” e para o esclarecimento acerca de uma sociedade impostora da heteronomia. Apontam para a autorreflexão crítica como modo de conceber uma formação cultural e uma educação emancipatória. Em clara desaprovação à maneira como os cursos de formação têm sido estruturados, “[...] curto espaço de tempo e [...] variadas estruturas curriculares” (p. 10149), atentam para a dificuldade de uma formação autônoma dos professores nesses moldes e, uma vez em sala de aula e semiformados, não conseguem também desenvolver em conjunto com seus alunos metodologias para fomentar a emancipação humana. Luciana Zambel e Luiz Antônio Naluco Lastória (2016) tratam da relevância do estabelecimento de uma crítica à própria educação, a qual não deve eximir-se do “debate de ideias” (p.2216) devendo rever-se e se modificar, bem como o próprio professor, pois somente assim é possível vislumbrar caminhos educacionais mais humanos e contrapostos a procedimentos bárbaros. À vista disso, pensar a educação transformadora e emancipadora exige desestabilizar uma estrutura pretensiosa a produzir modelos formativos, os quais seguem 15 Gatti et al. (2019) discutem a qualidade duvidosa da formação de professores em âmbito neoliberal “[...] tornando essa formação superficial, mais breve ou rápida, [...] não se pode deixar de lembrar as questões mercadológicas associadas à oferta desses cursos, questões que vêm se avolumando ante o movimento crescente de conglomerados educacionais privados com ações em bolsa de valores, cuja motivação básica é o lucro, a consideração do custo sobrepujando a da qualidade. [...]” (p.44). 34 diretrizes oriundas do racionalismo técnico e são, em seu nascedouro, heterônomos. Tal razão, para os filósofos Adorno e Horkheimer (1985, p.57), consiste no “[...] carácter compulsivo da sociedade alienada de si mesma”, sendo exatamente por meio dele exercido o domínio social. Diante de tais argumentos, podemos dizer que a pandemia e a necessidade de confinamento das pessoas em suas casas, com o considerável volume de trabalho em regime de home-office, tornou a educação, sobretudo transmissível em modo remoto, agravando ainda mais a dessensibilização, uma vez que “[...] A semiformação não se confina meramente ao espírito, adultera também a vida sensorial. E, coloca a questão psicodinâmica de como pode o sujeito resistir a uma racionalidade que, na verdade, é em si mesma irracional” (ADORNO, 2010, p. 25). Esta tendência concorre para levar à insensibilidade do corpo, dos sentidos, já que agora a relação estabelecida não ocorre mais diretamente entre humanos, e sim, entre humanos e máquinas tecnológicas, onde o grande número de estímulos sensoriais concorre na verdade para a dessensibilização. Na perspectiva da racionalidade técnica para a formação de professores, Gatti et al. (2019, p. 181) entendem que: As implicações dessa perspectiva para a educação dizem respeito especialmente ao reducionismo à dimensão técnica, especialmente no campo do currículo, da didática e da formação de professores. Existe uma ênfase nas questões de organização em que a ação pedagógica se reduz aos momentos de execução e avaliação do processo pedagógico, desconsiderando especialmente o contexto político, econômico e social da prática educativa. Defende-se uma educação neutra e desinteressada, que se preocupe apenas com questões de ordem científica e com a melhor maneira de transmitir conhecimentos considerados inquestionáveis. Apesar de o pensamento das autoras acerca da perspectiva técnica na formação de professores referirem-se aos idos dos anos de 1980, para as reflexões apresentadas no decorrer deste estudo soam bastante atuais, principalmente no que diz respeito à insistência em colocar o chão da escola enquanto centro das discussões vividas no Mestrado Profissional em Formação de Professores. Nesse caminho, Antonio Flavio Barbosa Moreira (2020) é categórico ao questionar o tipo de professores e professoras que estão sendo formados contrapondo-se àqueles (as) que deveriam ser formados. Logo, o professor e a professora desejosos de formarem-se estariam próximos ao entendimento de docente enquanto intelectual e pesquisador-em-ação (MOREIRA, 2001; 2021). Nessa direção, ao assumir a docência enquanto uma atividade intelectual e não somente enquanto prática, o questionamento seria o núcleo da práxis, onde encontram-se que a sociedade, bem como a própria educação são guiadas por interesses e por arranjos sociais (idem). Em contrapartida: 35 A adoção de um enfoque tão limitado, em que se supervalorizem o agir e a racionalidade instrumental, acaba contribuindo para que a formação de professores venha a se assemelhar aos locais de trabalho das grandes corporações e a se curvar às leis da economia e à mentalidade empresarial. Nesse caso, os sentidos mais globais e humanistas, que deveriam inspirar a formação, terminam substituídos por propósitos de controle de práticas, saberes, habilidades, atitudes, sentimentos e pensamentos (MOREIRA, 2020, p. 35 – 36). Segundo Moreira (2001) os “governos neoliberais contemporâneos [são] mestres em se apoderarem eficientemente de ideias defendidas por setores progressistas, em recontextualizá- las, em distorcê-las, e em fazê-las funcionar a favor de outros interesses” (p. 11). Diante do pensamento empresarial tanto dentro das instituições como guiando a subjetividade dos indivíduos, a presença das novas tecnologias e sumariamente das telas no cotidiano torna-se aliada para a maior produtividade, em virtude de disseminar a convicção da onipresença. No ano em que o ensino remoto passa a atuar nas linhas de frente dos métodos educacionais, vivenciado a partir do Mestrado em Educação, salta aos olhos o poderio das novas tecnologias, instituindo-se um caminho que já vinha sendo traçado: neste trajeto, cada vez mais se desconsidera a importância da presença vívida do corpo e das suas expressões nos recursos educativos e se rompe com o tempo necessário para a Bildung – o qual é um tempo lento, profundo. Em tal lógica, salienta-se o quanto para esta pesquisa é mais significativo pensar nos termos referentes à experiência na educação enquanto uma “abertura para o pensamento/movimentos de formação”, negando aquilo firmado posicionalmente como “alternativa teórica, metodológica, política ou paradigmática” (PEREZ; MIGUEL, 2016), por meio de uma mudança em algumas condições objetivas, as quais aparecem neste estudo, delineadas pelo trabalho intencionado em tempo-espaços diferentes dos postulados pelo neoliberalismo e tendo a técnica (tela) e TKV enquanto meios de trabalho. 36 3. O CHÃO DA TÉCNICA KLAUSS VIANNA Na primeira seção é dada a devida relevância para a Técnica Klauss Vianna (TKV) enquanto processo histórico, por ser, em primeiro plano, diretamente afetada pelas experiências de Klauss desde sua infância, guiando desta forma suas pesquisas na busca por desvelar seus incômodos com o corpo e com as maneiras de dar aula. Em segundo plano, é notável que, a sobrevivência da tradição da TKV ao longo dos tempos foi sendo assegurada pelas inúmeras contribuições de outras pessoas em suas aulas e estudos da técnica mesmo após a morte de seu idealizador, por meio da “Escola Vianna”. Ambas condições solidificam a história da TKV ao longo dos tempos. Seguindo, são apresentados os sentidos existentes por trás da TKV, juntamente esquadrinhando os princípios constituintes da técnica estudada, a fim de compreender suas potenciais contribuições para o âmbito formativo docente. Na sequência, após serem destacados os fundamentos basilares, é sinalizada a escolha por apenas um dos momentos da TKV16 para ser investigado com mais cuidado, devido ao fato de este estar mais alinhado ao recorte realizado no estudo. Por fim, é com a perspectiva de compreender o movimento como chave de luta contra a tecnificação dos corpos predominante na formação docente que a autora desta pesquisa também professora em formação, expõe no terceiro tópico seu caderno-oficina e a narrativa construída a partir de seu encontro com a técnica. 3.1. A Técnica Klauss Vianna enquanto processo histórico Esta pesquisa debruça-se no estudo da TKV, a qual é considerada Educação Somática por pensar o indivíduo em sua totalidade, e não fragmentado em corpo-mente, divisão esta realizada até a atual era e, reproduzida em inúmeros modelos formativos. Diante de tal definição conceitual desconhecida do senso comum, se torna necessário enunciar o que alguns estudiosos da área entendem a respeito. A autora Bolsanello (2011), a partir de suas experiências em diversas frentes neste domínio17, entende que “[...] Entre ciência e arte, a Educação Somática é 16 São três momentos constituintes da Técnica Klauss Vianna, sendo Processo Lúdico, ou acordar/despertar do corpo, Processo dos vetores (segundo) e Processo Coreográfico e/ou Processo Didático (terceiro e opcional). Esta pesquisa optou por concentrar-se no primeiro. 17 É diretora do Núcleo Oito Educação Somática. Foi professora assistente no departamento de dança da Université de Montréal. Docente da Universidade Estadual do Paraná, coordenou o projeto de extensão Oito de Dentro: Educação Somática dança e também atuou no programa de pós-graduação. Publicou os 37 um campo teóricoprático composto de diferentes métodos cujo eixo de atuação é o movimento do corpo como via de transformação” (p. 306). Neste nível, o movimento corpóreo fundamental para esta pesquisa, para a Educação Somática seria capaz de propiciar a ocorrência de uma transformação mais ampla, porque é a forma “[...] mais concreta e a mais apta para catalisar a globalidade da transformação” (FORTIN, 1998, p. 42)18. Isso tudo só faz sentido, uma vez que as afirmativas acima encontram seu respaldo no conceito de soma, o qual foi definido de uma forma um pouco distinta da conhecida na tradição grega19 pelo professor Thommas Hanna: o corpo como percebido de dentro pela percepção em primeira pessoa. Quando um ser humano é observado de fora – isto é, do ponto de vista de uma terceira pessoa – o fenômeno de um corpo humano é percebido. Mas, quando esse mesmo ser humano é observado do ponto de vista em primeira pessoa de seus próprios sentidos proprioceptivos, percebe-se um fenômeno categoricamente diferente: o soma humano (HANNA, 2003). Perante tal constatação, afirma-se que há uma inseparabilidade entre corpo e mente, correspondente à ideia da existência sensível de um “eu corpo”. Essa noção opõe-se radicalmente à fragmentação do indivíduo operada na sociedade neoliberal – o sujeito erradicado da própria vida e alimentado para ser somente a cabeça, ou seja, governar a si próprio com a finalidade de ser sua melhor versão, distanciado do sentir sensível propiciador do reconhecimento de como se é/está nas situações de sua vida. Diante da breve contextualização sobre o campo somático, é hora de colocar a TKV em cena. Esta foi sistematizada em meados dos anos 80 por Rainer Vianna (filho) e Neide Neves (nora) de Klauss Vianna, o qual já vinha realizando desde a década de 50 um trabalho pedagógico nas áreas da Dança, como professor, dançarino e coreógrafo - em primeira instância - e depois - e em alguns momentos simultaneamente ao estudo da dança - indo em direção ao Teatro20. Reconhecendo a necessidade de transformar modos tão rígidos do ensino da dança (VIANNA, 2018), Klauss Vianna parte em busca de outras rotas. livros Educação Somática: ecologia do movimento humano (Editora Juruá, 2016) e Em pleno corpo: Educação Somática, movimento e saúde (Editora Juruá, 2010) bem como inúmeros artigos sobre o campo da Educação Somática em revistas acadêmicas brasileiras e estrangeiras. Fonte: portalmud. Disponível em: https://portalmud.com.br/portal/colunista/debora-bolsanello. Acesso em: 9 fev 2022. 18 Sylvie Fortin é uma das referências em reflexões deste tipo, apoiando-se nas suas próprias práticas e pensamentos a partir dos seus estudos e formação em educação Somática. 19 Em sua tradução moderna, a palavra grega sôma significa “corpo”. No entanto, em aprofundamento na tradição clássica, a palavra sôma se insere em distintas tentativas de nominar e dar sentido ao corpo. Em Homero, por exemplo, sôma diz respeito ao cadáver, corpo sem vida. Já para Platão, o corpo era uma tumba que aprisionava a alma (psyché), um empecilho a ser superado para que se alcançasse a verdade universal. Fonte: Soma Ufsc. Disponível em: https://soma.ufsc.br/. Acesso em: 9 fev. 2022. 20 Chama-se atenção para o fato de que, embora Vianna tenha começado profissionalmente na dança, seu interesse primeiro, desde sua infância, estava centrado no âmbito teatral (VIANNA, 2008, p.25). 38 Assim, a trajetória de Klauss é iniciada em sua própria terra, Belo Horizonte, local onde este, ficando encantado com um espetáculo de dança, sente-se arrebatado de tal maneira que isso lhe desperta a vontade de fazer aulas de balé, cujo primeiro professor será Carlos Leite21. Dedicando-se às aulas –mesmo discordando da metodologia de Leite - alguns anos depois, esse já era capaz de elaborar suas próprias coreografias. Mais tarde, na segunda metade da década de 40, vai para São Paulo com o intuito de fazer aulas com Marina Olenewa, pois queria mergulhar diretamente no rio, não mais se contentando com seus afluentes (VIANNA, 2018, p. 27). À vista de tais experiências, Vianna indica as diferenças notadas por ele em relação aos modos de dar aula de cada professor, donde deduz-se que isto se referia às concepções educativas percebidas, assim: Leite22 tinha certa brutalidade em seu ethos, distribuindo “xingamentos e varadas”, o que acabava por silenciar as perguntas dos alunos, os quais deveriam apenas dançar sem fazer perguntas; já a segunda professora, propiciou-lhe o aprendizado da “relação entre arte e mundo”, pois ela sempre provocava seus aprendizes a refletir sobre isto (idem, p. 28). Em consequência destas percepções, Vianna conclui que o conteúdo da aula é importante, porém somente isto não é o bastante. Segue refletindo a respeito da centralidade de ampliação deste conhecimento das formas suscitando e encorajando os alunos a fazerem perguntas e a estarem presentes no momento em que dançam, obstinado ao afirmar que “[...] a dança se faz não apenas dançando [com movimentos mecanizados], mas também pensando e sentindo: dançar é estar inteiro” (2018, p. 32). Após passar este tempo em território paulista, agora na pista oposta, Klauss retorna a Minas Gerais e então, ele e sua companheira Angel dão vida a seu próprio Balé. Depois de apresentarem um espetáculo em um festival, eis que o coreógrafo é chamado a se mudar para a Bahia e integrar o corpo docente da universidade federal daquele estado na Escola de Dança. 21 Segundo pesquisa realizada por Vasconcelos, Carlos Leite foi um “Bailarino e professor nascido em 1914, estreou como cantor lírico, em 1932. Mas a partir de 1934, dedicou-se ao estudo da arte dramática e do balé na Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (atual Escola Estadual de Dança Maria Olenewa), onde foi aluno de Maria Olenewa, Yuco Lindberg e Igor Schwezoff. Estreou como bailarino em 1935, no Ballet do Theatro Municipal, sendo solista em 1940 e primeiro bailarino, em 1943. Dançou com o Original Ballet Russo, de 1942 a 1944. [...] Em 1948, mudou-se para Belo Horizonte, inaugurando a Escola de Arte que deu origem ao Ballet de Minas Gerais. Mais tarde, tornou- se professor da Fundação Mineira de Artes de Belo Horizonte. Pode-se considerar como um dos grandes marcos da carreira de Carlos Leite o fato de ter deixado o Rio de Janeiro para levar o balé clássico a Minas Gerais, onde ainda não existia. Entre seus muitos alunos estavam Klauss e Angel Vianna” (DANÇA EM REDE, 2022). 22 Um fato curioso mencionado por Klauss em seu livro, é que Carlos Leite também foi aluno de Maria Olenewa, e ainda assim possuía métodos discrepantes em relação aos de sua professora (VIANNA, 2018, p. 28). 39 Ele aceita e toma um novo rumo. Já na Bahia, encontra ricas intersecções do trabalho que vinha realizando com o pensamento presente na capoeira e em seus movimentos, desbravando também um pouco do apresentado em terreiros de candomblé, onde pode dar vazão ao seu aprendizado com Olenewa: de sempre estar atento ao entorno, já que arte e vida imiscuem-se. E foi justamente na Bahia que o exterior invadiu Klauss (VIANNA, 2018, p. 41 – 42). Além da capoeira e do candomblé, Klauss também tem contato com um anatomista, o qual vai dar aulas de anatomia para os alunos de dança - da já mencionada universidade - a convite de Vianna, uma vez que este “nutria um amor profundo” pelos esqueletos exibidores de seus ossos em toda plenitude anatômica no consultório de Antonio Brochado23 (VIANNA, 2018, p. 39- 40). Julgava ele ser de extrema relevância o conhecimento concreto do corpo para o tipo de ensino de dança que pretendia. Indo para mais adiante, depois de suas (an)danças em territórios mineiro, paulista e baiano, Klauss muda novamente sua rota e vai até o Rio de Janeiro, onde passa a desenvolver seu trabalho com atores. Sendo somente neste momento que vai trabalhar profissionalmente com teatro, onde desenvolve, segundo um crítico demarca: um “trabalho corporal” e, mais tardiamente – já no fim dos anos 60 - reconhecido por “expressão corporal” (VIANNA, 2018, p. 42 – 43). Quando Vianna coloca-se como preparador corporal, é que seu trabalho vai ganhando outros contornos, sendo ampliado em possibilidades através de sua presença no teatro com o encontro com atores ao invés de somente ter com bailarinos. Depois do Rio de Janeiro, Klauss foge para São Paulo, pois estava infeliz em solo carioca, pois era um mero administrador do Inearte sem vida criativa. Klauss conclui que a institucionalização do artista contribuía cruelmente para a morte ou adormecimento de sua criatividade. Entretanto, mesmo com este ponto de vista, ele aceita o emprego na Escola de Bailados do Teatro Municipal no território paulista (VIANNA, 2018, p. 55 – 57). Neste Lugar, ele percebe uma visão extremamente conservadora por parte dos professores que ali lecionavam e se esforça com o fito de contribuir para a construção de uma mentalidade que ele julgava ser mais pertinente ao ensino da dança, a qual devia fomentar a curiosidade das crianças, dando espaço para “suas ansiedades e questionamentos” (idem, p. 60)24. Depois dessa experiência, na 23 Segundo menciona Vianna em sua obra “A dança” (2018), Antonio Brochado à época “[...] era considerado o maior anatomista da Bahia[...]” (VIANNA, 2018, p. 39). 24 Diante desse desafio, Klauss cita algumas iniciativas tomadas por ele com a finalidade de remexer as bases nas quais aquela escola estava fincada, sendo: duas aulas de clássico por semana e uma de dança criativa; leva pessoas para conversar com os professores e também para dar outras aulas além do clássico, a fim de que estes tivessem contato com novas visões sobre o ensino da dança; torna os espetáculos parte integrante da vida dos alunos, os quais não precisariam mais esperar chegar até o 40 ordem em que se organiza seu livro, A dança (2018), Klauss comenta sobre sua saída desta escola e sua ascensão como diretor do balé do Teatro Municipal. Ali, ele insiste em demonstrar aos bailarinos a relação existente entre a técnica e a vida, evidenciando tal relação a partir da indicação aos alunos da leitura de jornais diários e também de livros cujo conteúdo era a história da arte (idem, p. 61 – 64). Ainda neste estado, trabalha no Centro Cultural com musicais. Por fim, em 1988 desenvolve seu último trabalho no teatro: em 1987 monta seu próprio espetáculo de dança, intitulado Dã-dá corpo e em 1992 encerra sua dança da vida. Ao lado de Klauss no trabalho e na vida, estava a já citada Angel Vianna, primeiro enquanto amiga e depois como esposa. Ambos compartilhavam ideais em co