DESENVOLVIMENTO DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL: O CASO DO SETOR TÊXTIL NA MICRORREGIÃO DE CAMPO BELO (MG) WELLINGTON TAVARES 2010 WELLINGTON TAVARES DESENVOLVIMENTO DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL: O CASO DO SETOR TÊXTIL NA MICRORREGIÃO DE CAMPO BELO (MG) Dissertação apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Administração, área de concentração em Dinâmica e Gestão de Cadeias Produtivas, para obtenção do título de “Mestre”. Orientador Prof. Cleber Carvalho de Castro LAVRAS MINAS GERAIS – BRASIL 2010 Ficha Catalográfica Preparada pela Divisão de Processos Técnicos da Biblioteca Central da UFLA Tavares, Wellington. Desenvolvimento de um Arranjo Produtivo Local: o caso do setor têxtil na microrregião de Campo Belo (MG) / Wellington Tavares. – Lavras : UFLA, 2010. 168 p. : il. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Lavras, 2010. Orientador: Cleber Carvalho de Castro. Bibliografia. 1. APL. 2. Cooperação. 3. Competitividade. 4. Desenvolvimento regional. 5. Relações interorganizacionais. I. Universidade Federal de Lavras. II. Título. CDD – 658.4012 WELLINGTON TAVARES DESENVOLVIMENTO DE UM ARRANJO PRODUTIVO LOCAL: O CASO DO SETOR TÊXTIL NA MICRORREGIÃO DE CAMPO BELO (MG) Dissertação apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós-graduação em Administração, área de concentração em Dinâmica e Gestão de Cadeias Produtivas, para obtenção do título de “Mestre”. APROVADA em 24 de fevereiro de 2010 Profa. Cristina Lelis Leal Calegário UFLA Prof. Bezamat de Souza Neto UFSJ Prof. Janio Caetano de Abreu UFSJ Prof. Cleber Carvalho de Castro UFLA (Orientador) LAVRAS MINAS GERAIS – BRASIL A Deus por permitir a concretização de grandes sonhos e pela força e perseverança concedida para trilhar minha vida. A minha mãe, pela vida e pelos ensinamentos que sempre foram direcionadores e motivadores para o alcance dos meus objetivos. A minha família, em especial aos meus irmãos e irmãs, que de alguma maneira contribuíram como apoio e impulso para cada passo dado. Aos amigos e amigas que sempre acreditaram no meu potencial e fizeram parte de diversos momentos de vida, inspirando e vibrando a cada conquista. DEDICO AGRADECIMENTOS São muitos e tão especiais... A Deus pela saúde e capacidade me concedida para este trabalho e pelas inúmeras surpresas e bênçãos concedidas no decorrer da vida. A ele são direcionados os principais agradecimentos! A minha mãe, pelas inúmeras vezes que demonstrou confiança nas minhas batalhas e deu forças para eu continuar, seja pelas palavras simples, mas profundas, pelos grandes ensinamentos de vida e mesmo do exemplo de luta e perseverança que sempre mostrou, mesmo sem querer. A minha família, que de alguma maneira me serviu de conforto, exemplo e incentivos diversos para prosseguir na caminhada acadêmica, em especial aos meus irmãos Tueli, Nilvane, Josy e Gleicy. Aos amigos essenciais que de alguma maneira me suportaram nos momentos de estresse ou que vibraram comigo cada passo dado nesta caminhada. São tantos, mas entre eles destacam-se especialmente o David, André Bomber, André Dezim e Vanessa. Obrigado por tudo. Aos amigos conquistados em Lavras, que, com muita sinceridade e cumplicidade, me foram essenciais na passagem por Lavras, fazendo minha vida ser mais cheia de graça e alegria, André e Luci. Ah! Sem falar nos ‘puxões de orelha’ e nos aconselhamentos que foram essenciais para me ajudar a descobrir caminhos. Aos inúmeros colegas e amigos da UFLA e de Lavras pelas festas que fizeram tornar a passagem pela cidade mais leve e divertida, pelas festas de aniversário surpresas, pelas idas aos shows e esquentas na casa do Tom, pelas idas ao CIUNE ou simples conversas no RU que fizeram toda diferença. Aos colegas do mestrado, em especial aos amigos Gabriel, Pedrão, Ana Elisa e Ana Rosa que foram essenciais para me sentir em casa no DAE. Obrigado pela receptividade com que me acolheram e pelos grandes momentos compartilhados de tensão, incertezas e lógico, das festas e comemorações. Aos amigos da República Porão dos Gatos, Betinho, Xikinho e Gleissinho. Grande abraço do Tom e creiam que ficaram muitas ótimas recordações do tempo vivido juntos. Quantos momentos bons que não saem mais da memória. Vocês foram fundamentais na minha permanência em Lavras. Ao meu orientador Cleber Carvalho de Castro pela ‘puxada no freio’ nos momentos devidos. Pelo incentivo a buscar novidades e complementar minha formação e trabalho no mestrado. Sem falar ainda no exemplo de profissional que mostrou ser e por permitir ter em que me espelhar para continuar a traçar meu caminho acadêmico. Aos demais professores do DAE que vez ou outra estiveram comigo nas minhas atividades no DAE ou etapa do mestrado, em especial ao Antonialli, Daniel, Joel e Cristina Calegário. Obrigado pelas orientações e pelas oportunidades concedidas para demonstrar meu trabalho e me fazer um melhor profissional. Aos funcionários do DAE/UFLA que de alguma maneira fizeram parte da minha vida. Pelo coleguismo e atenção da Jackie, pela confiança depositada pelas meninas do ensino a distância (graduação e MBA), Dirlene, Eliane, Mary, Simone e Renata. Aos meus contínuos orientadores da UFSJ, Bizuca e Janio, por terem sempre acreditado na minha vocação acadêmica e pelas oportunidades concedidas na graduação que favoreceram meu acesso ao mestrado. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo incentivo financeiro concedido para a conclusão do mestrado por meio de bolsa de estudo. À Universidade Federal de Lavras (UFLA) e ao Departamento de Administração e Economia (DAE) pela estrutura disponibilizada para a minha formação. SUMÁRIO RESUMO.............................................................................................................iv ABSTRACT .........................................................................................................v 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................1 1.1 Problema .........................................................................................................4 1.2 Objetivos.........................................................................................................5 1.2.1 Objetivo geral ..............................................................................................5 1.2.2 Objetivos específicos ...................................................................................5 1.3 Justificativas ...................................................................................................6 2 REFERENCIAL TEÓRICO ..............................................................................9 2.1 Os mercados e as relações interorganizacionais .............................................9 2.2 Os arranjos produtivos locais (APLs) ...........................................................16 2.2.1 As diferentes denominações do fenômeno aglomeração ...........................17 2.2.2 Características dos APLs ...........................................................................23 2.2.3 Fatores de indução e motivação para a formação de APLs .......................25 2.2.4 Elementos de diferenciação dos APLs.......................................................29 2.2.5 Etapas de desenvolvimento, estrutura e funcionamento ............................33 2.2.5.1 A abordagem do desenvolvimento espontâneo.......................................35 2.2.5.2 A abordagem das políticas de indução para o desenvolvimento.............36 2.2.5.3 A abordagem social ................................................................................37 2.2.6 Vantagens da aglomeração de empresas....................................................37 2.2.6.1 Competitividade......................................................................................41 2.2.6.2 Desenvolvimento regional ......................................................................42 2.2.7 Metodologia de Identificação de APLs......................................................48 3 MÉTODO E PROCEDIMENTOS ..................................................................55 3.1 Perspectiva metodológica .............................................................................55 3.2 Método da pesquisa: estudo de casos............................................................56 3.3 Coleta de dados.............................................................................................57 3.4 Plano de análise dos dados............................................................................60 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO.....................................................................65 4.1 Contextualização do setor têxtil na microrregião .........................................65 4.2 Alterações na estrutura econômica e social ..................................................76 4.3 A atuação das instituições de apoio e existência de políticas de incentivo...87 4.4 Processos de interação e cooperação entre os diferentes agentes .................99 4.5 Benefícios competitivos e dificuldades advindas do processo de aglomeração industrial e as dificuldades decorrentes deste processo ....................................107 4.6 Perspectiva de formação de um APL..........................................................118 5 CONCLUSÕES .............................................................................................143 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................150 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Cadeia Produtiva Têxtil – Confecção. ..................................... 66 FIGURA 2 Comparação entre os elementos de um APL típico e da aglomeração produtiva da microrregião de Campo Belo (MG). ..................................................................................... 140 FIGURA 3 Ações necessárias para o alcance de maiores condições competitivas da aglomeração e obtenção de condições para se tornar um APL........................................................... 141 i LISTA DE QUADROS QUADRO 1 Síntese conceitual das abordagens de aglomerações industriais................................................................................. 22 QUADRO 2 Principais características dos APLs. ........................................ 25 QUADRO 3 Principais elementos indutores da formação e do desenvolvimento de APLs. ...................................................... 27 QUADRO 4 Protocolo das principais vertentes analíticas do estudo........... 63 QUADRO 5 Repertório Interpretativo - A evolução do setor têxtil na microrregião............................................................................. 69 QUADRO 5 Repertório Interpretativo - Alterações na estrutura econômica e social. .................................................................. 81 QUADRO 6 Repertório Interpretativo - Percepções dos empresários do setor sobre a atuação de instituições de apoio. ........................ 88 QUADRO 7 Repertório Interpretativo - Percepções das instituições de apoio sobre suas atuações. ....................................................... 94 QUADRO 8 Repertório Interpretativo - Processos de interação e cooperação entre os diferentes agentes. ................................. 100 QUADRO 9 Repertório Interpretativo - Benefícios competitivos advindos do processo de aglomeração industrial................... 108 QUADRO 10 Repertório Interpretativo - Dificuldades encontradas na aglomeração industrial........................................................... 115 QUADRO 11 Repertório Interpretativo - Perspectivas gerais sobre o setor. ...................................................................................... 119 QUADRO 12 Características dos APLs e condições atuais da aglomeração da microrregião de Campo Belo (MG)............. 126 ii LISTA DE TABELAS TABELA 1 Municípios da Microrregião de Campo Belo (MG). ................. 7 TABELA 2 Número de entrevistas com empresários por município.......... 58 TABELA 3 Comparativo do número de estabelecimentos do setor de confecções e facções e dos demais setores nos municípios da microrregião........................................................................ 77 TABELA 4 Comparativo do número de empregos nos municípios da microrregião............................................................................. 78 TABELA 5 Representatividade do número de empregos do setor nas 10 microrregiões com maior participação em MG. ................. 80 iii RESUMO TAVARES, Wellington. Desenvolvimento de um arranjo produtivo local: o caso do setor têxtil na microrregião de Campo Belo (MG). 2010. 168 p. Dissertação (Mestrado em Administração) – Universidade Federal de Lavras, Lavras∗. O atual contexto competitivo estabelecido nos mercados regionais e globais tem levado as organizações a assumirem uma nova postura de atuação, caracterizada pelo constante envolvimento com demais organizações na busca de maior capacidade competitiva e de condições de sobrevivência no mercado. Além da cooperação entre organizações, os aspectos relacionados à localização e à influência de políticas e programas públicos passam a se apresentar como fatores muito relevantes no estabelecimento dos Arranjos Produtivos Locais - APLs. O presente estudo tem por objetivo identificar e discutir evidências da possível formação de um APL do setor têxtil na microrregião de Campo Belo (MG) e conhecer quais benefícios competitivos, econômicos e sociais podem ser verificados a partir das evidências de tal aglomeração. Para tanto, foi realizado um estudo multicaso qualitativo, com uso de dados secundários e primários. Os dados primários foram coletados por meio de entrevistas com empresas localizadas nos municípios da microrregião considerada, além de entrevistas com representantes das prefeituras municipais e de associações comerciais, industriais e setoriais de cada município. As entrevistas foram tratadas por meio de análise de conteúdo e, juntamente com os dados de fontes secundárias, foram estabelecidos os nexos causais. Além disso, os dados secundários complementaram a identificação do possível APL por meio da análise de indicadores sugeridos na literatura. Ao fim deste trabalho verifica-se, por exemplo, que as relações interorganizacionais entre os agentes da aglomeração não se mostram fortalecidas ou não existem, o que pode justificar a aparente estagnação do setor na atualidade. O reduzido nível de cooperação existente e a predominante atuação dos empresários no que se denomina ‘facções’ expõem os riscos da aglomeração em se manter no mercado, visto que o reduzido grau de inovações e agregação de valor nas atividades interfere em sua capacidade competitiva, na sustentabilidade do setor na microrregião e nas possibilidades de organização da aglomeração na forma de APL. Palavras-chave: Arranjo Produtivo Local; Relações Interorganizacionais; Competitividade; Desenvolvimento Regional. ∗ Orientador: Prof. Cleber Carvalho de Castro – UFLA. iv ABSTRACT TAVARES, Wellington. Development of a local productive arrangement: the case of the textile sector in the micro-region of Campo Belo (MG). 2010. 168 p. Dissertation (Master in Management) – Universidade Federal de Lavras, Lavras∗. The current competitive environment established in the regional and global markets has led organizations to adopt a new approach of performance, characterized by constant involvement with other organizations in pursuit of greater competitiveness and living conditions in the market. Besides the cooperation between organizations, aspects related to the location and the influence of public policies and programs are performing as factors relevant for the establishment of Local Productive Arrangements - APLs. This study aims to identify and discuss evidence for the possible formation of an APL of the textile industry in the micro-region of Campo Belo (MG) and know what benefits are competitive, economic and social conditions can be verified from the evidence of such clustering. Therefore, we performed a qualitative study multicase, with the use of secondary and primary data. The primary data were collected through interviews with companies located throughout the region in question, plus interviews with representatives of local councils and chambers of commerce, industry and sector in each municipality. The interviews were treated by means of content analysis and, together with data from secondary sources, was established the causal links. In addition, the secondary data complemented the identification of possible APL through the analysis of indicators suggested in the literature. After this work there is, for example, that the inter-relationships between the agents of the agglomeration not show strengthened or do not exist, which may explain the apparent stagnation in the industry today. The low level of cooperation that exists and the dominant role of business in what is called 'factions' expose the risks of crowding in remaining on the market, since the low level of innovation and value-added activities interferes with their competitiveness, sustainability sector in the micro and the possibilities of organization of agglomeration in the form of APL. Key words: Local Productive Arrangement; Interorganizational Relations, Competitiveness, Regional Development. ∗ Advisor: Prof. Cleber Carvalho de Castro – UFLA. v 1 INTRODUÇÃO Na atual realidade dos mercados regional, nacional ou global, destaca-se cada vez mais a importância das Micro e Pequenas Empresas - MPEs para a economia, principalmente pelo seu foco na geração de emprego e renda para as comunidades onde se inserem. Diante disso, analisa-se por vezes a problemática da sobrevivência de tais empresas diante de fatores tais como, dificuldades gerenciais na obtenção de crédito e clientes, poder de barganha e nível de confiança nos fornecedores, entre outros. Por vezes a preocupação dos estudiosos e governo encaminha-se para o entendimento do comportamento das MPEs em suas relações com Grandes Empresas - GEs, tanto em termos de concorrência quanto na inserção das MPEs nas estruturas verticais lideradas por GEs. Em outra vertente de estudo destacam-se a inserção de MPEs em Arranjos Produtivos Locais -APL e as estratégias utilizadas na busca por sobrevivência no mercado, tais como a cooperação com demais MPEs e GEs por meio de redes interorganizacionais. Observa-se ainda, a crescente preocupação de pequenos empresários com o fortalecimento de suas atividades e posicionamento no mercado, atuando em estratégias compartilhadas, como através de associações e cooperativas, em busca de benefícios para um maior número de MPEs. Os micro e pequenos empreendimentos muitas vezes são alvos de programas e políticas públicas que priorizam a capacitação de mão-de-obra, implantação de incubadoras de empresas, incentivos para implantação de plantas industriais entre outros. Além disso, a própria legislação que dá direcionamento e rege as atividades das MPE´s, constantemente passa por mudanças que abrangem fatores como o estímulo do uso de microcrédito, facilidades para recolhimento de impostos e uma série de propostas para direcionar os pequenos empreendedores a formalizarem suas empresas. 1 Outras formas mais flexíveis de estrutura de governança das organizações têm se desenvolvido com vistas a permitir maiores chances para que elas sobrevivam no mercado e alcancem novas posições concorrenciais, em um mercado que se mostra cada vez mais competitivo. Fala-se então nas redes interorganizacionais, as quais apresentam benefícios competitivos para as organizações, por meio, principalmente, da incorporação do fator “cooperação” entre elas. Tais relações procuram somar forças entre duas ou mais delas por meio de confiança mútua e o desenvolvimento conjunto de projetos variados. Porém, há que se falar de demais aspectos que permeiam as relações tais como a confiança e o oportunismo que podem servir de base para o entendimento da forma como as relações são estabelecidas e na maneira como influi na existência de situações de cooperação, competição e na capacidade competitiva de cada organização e da coletividade. Desse modo, as empresas preocupam-se cada vez mais em criar mecanismos relacionais para que a interação com outros parceiros, mesmo incorrendo em custos, facilite a entrada em certos mercados e aumente sua competitividade. Assim, aparecem as figuras dos contratos e da estrutura de governança, que procuram estabelecer uma ordem nas transações entre as organizações, além de diminuir os possíveis conflitos por meio da obtenção de ganhos por todos os envolvidos, o que possivelmente não poderia ser assegurado por meio de simples trocas no mercado. O interesse dos estudiosos da economia das organizações volta-se, principalmente para a estrutura, funcionamento e consequência das decisões estratégicas dos gestores para a empresa. Tais decisões são relativas à definição das empresas em se hierarquizar ou cooperar no mercado com vistas a se manter e fortalecer, levando-se em consideração fatores de competição entre elas. Como se nota, a capacidade competitiva surge, em partes, como resultado da interação com demais agentes. Por isto, as ações do setor público e 2 agentes de apoio, bem como a localização das empresas, apresentam-se como fatores a serem considerados para a obtenção de competitividade de empresas e setores, em especial na relevância com que estes têm se apresentado no estabelecimento dos Arranjos Produtivos Locais - APLs. Assim, a geografia econômica passa a ter maior visibilidade, assumindo mudanças em relação às correntes econômicas tradicionais que desconsideravam ou reduziam a relevância de tais aspectos. Desse modo, o desenvolvimento de novos empreendimentos tem sido alvo de preocupações de vários níveis de governo, entidades de apoio e da sociedade em geral. Novas formas de relacionamento entre as empresas foram surgindo, traduzindo-se como estratégias de compartilhamento para fortalecimento de empresas no mercado, como por meio das aglomerações industriais. Várias referências são feitas aos APLs, que podem ser definidos como uma aglomeração de empresas e instituições em regiões geográficas, apresentando alguma especialização produtiva e formas de articulação entre os agentes. Tal conceituação leva em conta, ainda, o nível de cooperação e aprendizagem que elas têm entre si e com outros órgãos ou entidades, públicas ou privadas, de auxílio e incentivo. Para caracterizar um APL verifica-se também se existe um número considerável de representantes de dado setor produtivo ou atividade principal, inseridos na mesma região, podendo ser bairros, cidades, estados, países ou grupos de países. Verifica-se que as aglomerações podem surgir espontaneamente por meio do trabalho e desenvolvimento de empreendimentos semelhantes ou complementares, implantados em uma determinada região, ou por parte de interesses de governos e outros órgãos que se comprometem a dar condições para o desenvolvimento de um APL, segundo alguns autores como Krugman (1991), Porter (1998) e Lastres & Cassiolato (2003). Para a implantação de tais arranjos são considerados fatores como potencialidade de geração de empregos e 3 de crescimento econômico, faturamento e lucratividade, mercado a ser atendido, diversificação de produtos, envolvimento de atores como incubadoras e instituições de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, entre outros fatores previamente analisados e planejados (Parrilli, 2007; Erber, 2008). A partir daí são geradas condições para implantação e desenvolvimento de empreendimentos por meio de políticas e programas de apoio. A implantação e consolidação de APLs tornam-se extremamente relevantes para o desenvolvimento socioeconômico de territórios. Porém, para que tal desenvolvimento se concretize, novas posturas têm sido adotadas por entes governamentais em várias partes do mundo e apontam para mudanças no que se refere ao retorno dado à sociedade em termos de projetos, políticas e atividades desempenhadas para favorecer seu desenvolvimento social e econômico. Como exemplos citam-se as novas estratégias surgidas que visa potencializar o desenvolvimento endógeno de certas regiões por meio de programas relacionados ao empreendedorismo, cooperativismo e outras formas de organização do trabalho. Além disso, nota-se a ampliação e fortalecimento de bases para implantação de novas empresas, tais como programas de capacitação para o trabalho, políticas de incentivos fiscais e tributários, ampliação e facilidade na obtenção de financiamentos/empréstimos do próprio governo e de entidades privadas. A proposta de estudo é analisar as perspectivas de desenvolvimento de um APL do setor têxtil na microrregião de Campo Belo, situado no sudoeste de Minas Gerais. 1.1 Problema A diversidade da formação dos arranjos empresariais de MPEs, na busca de poder de mercado, suscita um importante debate sobre a eficiência do ponto de vista competitivo e dos desafios de coordenação. 4 No caso da microrregião de Campo Belo, situada no sudoeste de Minas Gerais, observa-se um forte crescimento no número de indústrias do setor têxtil, responsável por gerar empregos e renda, impactando diretamente na estrutura econômica e social da região. A aglomeração apresenta benefícios para a região, porém torna-se necessário identificar os principais elementos existentes nas relações para se compreender a dinâmica e a capacidade competitiva da aglomeração, bem como as perspectivas de organização do setor na região e os principais benefícios advindos deste processo. Neste sentido, o presente estudo busca elucidar a seguinte questão de pesquisa: quais as evidências de formação de um APL do setor têxtil na microrregião de Campo Belo (MG) e quais benefícios competitivos, econômicos e sociais são verificáveis a partir das evidências de tal aglomeração? A partir desta questão de pesquisa, definiu-se o objetivo geral e os objetivos específicos que nortearam todo o trabalho, conforme apresentado a seguir. 1.2 Objetivos 1.2.1 Objetivo geral O objetivo geral é identificar e discutir as evidências de formação de um APL do setor têxtil na microrregião de Campo Belo (MG) e os benefícios advindos da aglomeração setorial de indústrias como fator catalisador da dinâmica econômica regional. 1.2.2 Objetivos específicos a) Contextualizar o setor têxtil na microrregião em análise; b) identificar as transformações da estrutura econômica e social da microrregião de Campo Belo nas últimas décadas a partir de indicadores socioeconômicos dos municípios em análise; 5 c) caracterizar a atuação das instituições públicas e privadas no apoio à implantação e desenvolvimento das empresas do setor têxtil, bem como a existência de políticas públicas de incentivo e indução para a geração de novas empresas; d) caracterizar os processos de interação e cooperação entre os diferentes agentes (públicos e privados) no setor têxtil; e) identificar os benefícios competitivos advindos do possível processo de formação de um APL ou de uma simples aglomeração setorial de indústrias, bem como identificar possíveis dificuldades na formação do aglomerado; f) analisar as perspectivas de formação de um APL a partir das perspectivas dos agentes da aglomeração e comparar características observadas com as características verificadas em APLs típicos. 1.3 Justificativas O estudo se justifica uma vez que a microrregião de Campo Belo tem se despontado como núcleo de produção de peças de vestuário, congregando um grande número de empresas do setor, em especial indústrias de facção, como são denominadas as indústrias de transformação do setor têxtil. A prefeitura municipal de Campo Belo, por exemplo, demonstra preocupações com tal crescimento ao desenvolver e implementar alguns programas de capacitação para o trabalho nas fábricas, em parceria com instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa - SEBRAE e o Sistema Nacional de Empregos - SINE. Este suporte é parte do programa “Município Empreendedor”, lançado em 2005, pela Prefeitura Municipal de Campo Belo, para fomentar em especial, a criação de indústrias de transformação têxtil. Este programa contempla ainda, ações como, o pagamento de aluguéis de galpões para empresas que se instalem no município, entre outras 6 propostas que estão por vir a ser implantadas segundo dados da prefeitura municipal. Além disso, outros municípios da microrregião apresentam-se em fase de desenvolvimento do setor, ampliando a relevância de análise para a microrregião, composta por sete municípios, com população total estimada em 116.377 residentes. Este dado, bem como a divisão da população por municípios pode ser observado na Tabela 1. TABELA 1 Municípios da Microrregião de Campo Belo (MG). Ordem Município UF População 1 Aguanil MG 4.315 2 Campo Belo MG 53.653 3 Cana Verde MG 5.915 4 Candeias MG 16.281 5 Cristais MG 11.269 6 Perdões MG 20.228 7 Santana do Jacaré MG 4.716 Total Microrregião MG 116.377 Fonte: IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2009 O exemplo de Campo Belo, como polo da microrregião, pode ser observado preliminarmente por meio de informações disponibilizadas pela Associação Comercial e Industrial de Campo Belo - ACICB que demonstram o crescente número de trabalhadores envolvidos na atividade manufatureira de confecções no município e microrregião. De acordo com a ACICB e a Associação das Indústrias dos Confeccionistas e Faccionistas de Tecidos, Couros e seus Derivados de Campo Belo e Região - ACONF, sugere-se que existam mais de 8000 empregos no setor na microrregião, entre formais e informais. Este número pode ter contribuído para colocar o município de Campo Belo no terceiro lugar no estado de Minas Gerais, no ano de 2007, em número de postos de trabalho gerados com carteira assinada, considerando-se todos os setores, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE. 7 Esta relevância de atividades ligadas ao setor têxtil no município e microrregião fica mais claramente comprovada diante da diferenciação por meio da qual o setor desponta perante outros, transformando as tendências da economia que imperavam em tal localidade. Em termos teóricos, o estudo pode indicar caminhos para o entendimento da competitividade por meio dos APLs e de como essas aglomerações podem contribuir para o alcance de benefícios sociais e econômicos para as regiões, de acordo com a perspectiva do trabalho de Susigan (2003). 8 2 REFERENCIAL TEÓRICO Esta seção está dividida em duas partes principais: “Os Mercados e as Relações Interorganizacionais” e “Os Arranjos Produtivos Locais – APLs”. Na primeira parte busca-se apresentar como as mudanças dos mercados e das relações entre as empresas influem no modo de articulação de diferentes tipos de organizações ao buscar aumentar os níveis de competitividade para as empresas e o grau de desenvolvimento regional. Também são abordados fatores como oportunismo, confiança e capital social como determinantes nas relações entre as empresas. Na segunda parte são abordados conceitos sobre os APLs e alguns fatores, como cooperação e competição e sua influência na produtividade, competitividade e desenvolvimento destes. Além disso, são tratados alguns aspectos como as principais características apresentadas pelos APLs, os fatores que induzem e motiva sua formação, as vantagens das aglomerações, elementos de diferenciação entre os APLs, sua estrutura e funcionamento, etapas de desenvolvimento e aspectos que podem provocar sua estagnação e/ou extinção. 2.1 Os mercados e as relações interorganizacionais As profundas e rápidas transformações na economia e nos processos produtivos em nível mundial têm causado uma significativa reestruturação da organização das empresas no mercado, produção de bens e geração de postos de trabalho (Bartholo, 2005). A crescente oferta de produtos, com maior valor agregado (gerado pelas constantes inovações) e custos reduzidos, fazem crescer a competitividade das empresas, tanto no âmbito regional, como no nacional e mundial. Neste contexto, as pequenas empresas, em especial, requerem novas formas de organização e interação com demais parceiros com vistas a melhorar suas condições de permanência no mercado (Cassaroto Filho & Pires, 2001; Ring, 1999). 9 Assim, o novo contexto econômico da modernidade tem sido acompanhado pela necessidade crescente de integração entre os agentes no mercado visando capacitá-los e ampliar suas chances de manutenção das empresas no mercado. Esse fato pode ser entendido diante das alterações que se percebem na organização das empresas no mercado, afetada por elementos relacionados à maior integração das empresas em cadeias de suprimento, à forte terceirização das atividades não essenciais nas empresas de médio e grande porte e a privatização de atividades econômicas até então induzidas e dirigidas pelo Estado (Amato Neto, 2001). Neste sentido, ao se falar de competitividade é inevitável relacioná-la a maneira como as empresas se organizam internamente em termos de conjugar atividades e recursos com vistas a alcançar os objetivos traçados de maneira eficiente, bem como elas se utilizam dos aspectos e elementos externos necessários para o seu desenvolvimento. Deste modo e por entender as organizações como um conjunto de fatores e recursos, Burt (1992) define as empresas como portadoras de três grandes fatores que as levam a melhor se relacionarem no mercado e alcançarem as posições almejadas por meio da competição. Desse modo, o autor define tais fatores como: a) capital financeiro: dinheiro em caixa, reservas em bancos; b) capital humano: atributos naturais combinados às habilidades adquiridas por meio de educação formal e experiência em empregos anteriores; c) capital social: adquirido por meio de amigos, colegas e contatos gerais, ganhando assim, oportunidade de utilizar seu capital financeiro e humano. Portanto, os dois primeiros tipos de capitais permitem a realização do trabalho e o último possibilita auferir lucros e obter oportunidades por meio de relações dentro e fora das empresas. Ainda de acordo com Burt (1992), os capitais financeiros e humanos são propriedades de indivíduos e definem suas capacidades de investimento para obter certa equação de produção e capacidade produtiva. Nesse caso, o capital 10 financeiro é utilizado com vistas à obtenção de materiais e maquinários para a produção e os capitais humanos utilizado para assegurar o processamento dos materiais em produtos. Contudo, na mesma lógica de ação o capital social depende da relação entre os parceiros. Se um deles deixa a parceria, o capital social então se perde ou desestabiliza (Burt, 1992). Ao tomar o papel de transformador dos capitais financeiros e humanos em lucratividade, o capital social leva as empresas a aplicarem suas habilidades na busca pelo alcance de seu lucro e competitividade através do relacionamento com outros agentes, baseado nos aspectos de confiança e reciprocidade (Burt, 1992; Malafaia et al., 2007). O capital social assume um importante papel, pois haverá conflitos relacionados aos fatores de produção e uma série de impedimentos que lhe será de grande valia para resolver, bem como para permitir que os custos de gerenciamento das relações interorganizacionais não cresçam e desfavoreçam a interação por meio da rede (Burt, 1992; Amato Neto, 2001; Williamson, 2003). O capital social, entendido como um elemento fundamental no relacionamento entre as empresas mostra-se extremamente relevante para que elas conquistem com maior facilidade seus espaços no mercado, de modo a se fortalecerem e não se tornarem vulneráveis a ação de seus concorrentes. Assim, as empresas que estabelecem relações de maior proximidade com outras organizações, normalmente tornam-se mais fortes e capacitadas para enfrentar melhor a competitividade (Amato Neto, 2001). Nota-se que a globalização da economia, ao mesmo tempo em que gera o fechamento de empresas que não suportam a concorrência, permite com isso a abertura de um novo ciclo econômico com foco no desenvolvimento de novos empreendimentos, geração de tecnologia e aumento da circulação de renda na economia. Porém, as pequenas empresas iniciam suas atividades com muitas dificuldades de inserção, passando muitas vezes, a utilizar-se de relações com 11 outras organizações como meio de se estabelecerem no mercado através de estratégias compartilhadas. Como consequência das diferentes necessidades e objetivos das interações organizacionais, estas relações podem se configurar sob diversas formas ou tipologias, entre as quais podem se destacar as cooperativas, as alianças estratégicas e os consórcios (Cassaroto Filho & Pires, 2001). Neste sentido, o desenvolvimento do modelo de rede baseou-se desde o início das mudanças ocorridas nos processos produtivos e da forma como as organizações passaram a se relacionar, não apenas como clientes e fornecedoras de insumos e produtos, mas numa lógica embasada na troca de informações e na cooperação para desenvolvimento de projetos em conjunto. Uma nova ordem no mercado internacional foi estabelecida, na qual a prioridade de ação das organizações volta-se para uma economia informacional global, pressupondo maior contato e transferência de informações entre as organizações, bem como na utilização de estruturas flexíveis para acompanhar a dinâmica das instituições, culturas, tecnologias e mercados (Castells, 2007). Deste modo, as redes podem apresentar grande relevância no oferecimento de condições adequadas para que se desenvolvam os processos de criação do conhecimento e assim também, seu refino e compartilhamento (Balestrin & Fayard, 2003). Deve se falar ainda na importância das redes organizacionais para o armazenamento de uma grande quantidade de informações e para o crescimento das relações de confiança entre os atores, que pode favorecer ainda mais a criação conjunta de conhecimentos para o desenvolvimento de projetos e alcance de objetivos comuns. De acordo com Balestrin & Fayard (2003), o conhecimento a que se refere pressupõe a troca informações sobre fornecedores, clientes, processos produtivos, tecnologias e outros, como visitas a empresas parceiras, viagens de negócios conjuntas, confraternizações, troca de e-mails e utilização de outras tecnologias de informações, encontros informais e assembléias formais. 12 Entre tantos benefícios propostos, muitos outros motivos podem levar as organizações a se inserirem em redes. Contudo, normalmente eles surgem quando a empresa é despertada por intenções de penetração em novos mercados de desenvolvimento e implantação de novas tecnologias, por meio de pesquisa e desenvolvimento, introdução de novos produtos, integração de mercados, estabelecimento de produtos padronizados, diminuição de custos e aumento de competitividade, entre outros (Amato Neto, 2001). Ainda segundo Amato Neto (2001), as redes passam a se apresentar como elementos de grande relevância para as organizações ao servir como base para o fortalecimento de suas atividades sem, necessariamente, envolver laços financeiros entre elas. Outras atividades normalmente constituem-se nos focos de interesse das redes, como: compras, exportação, logística, marketing e aspectos técnicos e operacionais. Muitos custos das organizações podem ser reduzidos por meio da constituição de redes interorganizacionais como: custos de produção reduzidos por meio de ganhos de escala e inovação através de processos conjuntos de Pesquisa e Desenvolvimento - P&D; custos de aprendizado reduzido pelo fácil acesso a um grande número de agentes e informações mais baratas, custos de oportunidade reduzidos por um uso mais eficiente dos recursos disponíveis e tomadas de decisões mais rápidas e precisas. Além destes, o custo do bem-estar social pode aumentar ou diminuir de acordo com as posturas adotadas pelos participantes da rede em relação aos melhoramentos das condições de trabalho, incentivo ou desestímulo do aumento da concorrência, entre outros (Ring, 1999). A lógica de funcionamento das redes baseia-se em pressupostos e elementos de cooperação, no entanto, muitas formas estruturais passaram a existir de acordo com as contingências do ambiente e com as necessidades surgidas nas relações entre as organizações, estabelecendo-se várias formas 13 como as empresas horizontais, as redes multidirecionais, as redes de subcontratação e as alianças corporativas (Castells, 2007). Entre tantas tipologias e formatos das redes, a discussão encaminha-se para reconhecimento e utilização de outros elementos, focando-se principalmente em fatores como: atores das redes; atividades e funções que desempenham; obtenção e utilização de recursos compartilhados; formas de interações; aspectos como confiança e oportunismo entre outros fatores relacionais entre as organizações (Gulati, 1998). Os aspectos ressaltados anteriormente levam ao reconhecimento sobre a percepção dos elementos envolvidos na cooperação entre as organizações e assim, acredita-se que, quando essas são heterogêneas em relação às percepções dos indivíduos e seus interesses, maiores serão as dificuldades de se ajustar condutas de acordo com o que se espera alcançar coletivamente. Para isso, algumas ações surgem como tentativas de se criar incentivos individuais econômicos ou sociais e buscar alinhamento dos interesses individuais e coletivos, bem como o desenvolvimento de um maior nível de confiança e da reciprocidade entre os envolvidos, fatores gerados em um longo prazo (Lourenzani et al., 2006). Como se observa, a abordagem de rede organizacional traz a todo momento, a condição de cooperação como elemento-chave nas interações entre as organizações. Os indivíduos envolvidos nos grupos agem coletivamente ou mesmo individualmente no sentido da criação de redes, independentemente de suas diferenças concernentes à classe social, gênero, entre outras variáveis. Por esse mesmo motivo, observadas as diferenças culturais e comportamentais, as intenções e ações dos agentes podem se desvirtuar no decorrer do processo, descaracterizando e prejudicando o desenvolvimento sadio e natural das redes. Em consequência ao exposto anteriormente, o principal interesse na formação de grupos deve basear-se no fato de que os interesses grupais sejam maiores que os individuais, eliminando-se elementos oportunísticos (Lourenzani et al., 2006). 14 Os relacionamentos cooperativos, portanto são fortalecidos pela troca de informações entre os agentes de uma dada cooperação, o que contribui ainda, para a diminuição do oportunismo que possa vir a existir. Entretanto, para que isso ocorra, a confiança entre os agentes deve ser trabalhada para colaborar com a melhoria da manutenção das ações coletivas, seja em nível de relações horizontais ou em nível de relações verticais entre organizações (Lourenzani et al., 2006). Ao analisar as interações entre as organizações, Williamson (1991) ressalta a existência de fatores como a racionalidade limitada dos sujeitos envolvidos nas transações e o oportunismo que pode surgir por meio das ações de tais agentes. A teoria dos custos de transação procura evidenciar como aspectos humanos podem induzir os agentes a agirem em prol de seus benefícios particulares por meio de oportunismo, principalmente quando há assimetria das informações a que os participantes do grupo têm acesso. Desse modo, ao se priorizar a cooperação entre organizações, deve-se observar que essas relações apresentam certos aspectos relacionais bem mais complexos que os fatores relacionados especificamente aos custos (Williamson, 1991). Entre tantos aspectos que permeiam as relações interorganizacionais, estas também apresentam diferentes configurações de acordo com o tipo de interação existente e com os objetivos que se pretendem alcançar coletivamente. Contudo, indiferentemente do tipo de relação estabelecida entre as organizações, pode-se afirmar que todas são permeadas por aspectos como a racionalidade dos agentes, os níveis de confiança existentes, elementos oportunísticos e demais aspectos que influenciam as relações e o capital social que cada organização utiliza para interagir no mercado. Entre os tipos de relações possíveis, destaca-se a tipologia de rede de empresas, sejam elas verticais (dentro de uma cadeia), ou horizontais (formadas por empresas similares ou complementares), que apresentam um grau 15 considerável de conhecimento e de troca de informações no ambiente da rede, bem como o foco no desenvolvimento conjunto para o alcance de competitividade. Desta maneira, os Arranjos Produtivos Locais - APLs surgem como um formato de rede de maior abrangência, normalmente em grandes áreas geográficas, apresentando características e benefícios peculiares que os diferenciam dos demais, como pode ser compreendido na seção seguinte. 2.2 Os arranjos produtivos locais (APLs) A organização de empresas em redes no formato das aglomerações geográficas tem sido cada vez mais frequente nos mais variados países e segundo Gordon & McCann (2005), esse fenômeno organizacional torna os processos menos custosos e mais eficientes em termos de novidades de produtos e processos produtivos, criando um ambiente favorável aos negócios. Pode-se entender que os aglomerados são reflexos das transformações nas organizações, em um mundo que busca cada vez mais se conectar em redes. Neste contexto de redes, as organizações, em especial as empresas de menor porte, buscam parcerias como meio de obter novos nichos de mercado por meio da cooperação com demais empresas de diferentes portes (Castells, 2007). Estudos realizados por Brusco (1982), há mais de vinte anos na região da Emilia Romagna na Itália, já apontavam a relevância da estrutura industrial e da estrutura das relações estabelecidas entre os agentes da aglomeração, com vistas a alcançar maior flexibilidade produtiva e inovações para atender as demandas dos dinâmicos mercados consumidores que foram surgindo. Além disso, fatores como a associação entre empresas, geradas pelas iniciativas de cooperação, passaram a favorecer a expansão de empresas de menor porte, por conseguirem ganhar em economias de escalas que não obtinham atuando isoladamente. 16 Diante disto, vários conceitos de aglomeração geográfica passaram a surgir no campo dos estudos de organização industrial, visto que diferentes aspectos sobre as necessidades de integração e articulação passaram a encaminhar as discussões sobre a formação e desenvolvimento dos mesmos, de acordo com o nível de organização e articulação dos diversos atores que formam a aglomeração (Marshall, 1966; Santos & Ferreira Júnior, 2006). A variedade de conceitos é justificada diante da grande quantidade de estudos sobre o fenômeno das aglomerações, das múltiplas possibilidades de interpretação e da falta de delimitação dos aspectos estudados (Zissimos, 2007). A literatura normalmente apresenta os Distritos Industriais como os precursores deste movimento. A formação dos primeiros Distritos Industriais pode ser constatada na Inglaterra no século XIX. Contudo, o fenômeno das aglomerações passou a chamar mais atenção na Itália no século XX, especialmente a região da Emilia Romana localizada nas regiões norte e nordeste deste país (Marshall, 1966; Brusco, 1982, 1986, 1990; Porter, 1999; Casarotto Filho & Pires, 2001). Como se nota, as aglomerações passaram a ser foco de novos estudos e da preocupação de empresas e governos buscando entender e favorecer a formação e desenvolvimento dessas formas organizacionais nas mais variadas localidades do mundo sob diferentes denominações, mas com intuitos semelhantes como o alcance de desenvolvimento de regiões por meio do desenvolvimento de setores e empresas correlatas. 2.2.1 As diferentes denominações do fenômeno aglomeração Em virtude da enorme quantidade de estudos da atualidade que tratam de aglomerações geográficas, muitas são as denominações criadas para caracterizar essas regiões, tais como Distritos Industriais (Marshall, 1966; Brusco, 1982, 1986, 1990), Clusters (Krugman, 1991; Porter, 1998, 1999), 17 Milieux Innovateur (Lastres & Cassiolato, 2003), Sistemas Inovativos e Produtivos Locais - SPILs (Lastres & Cassiolato, 2003) e Arranjos Produtivos Locais – APLs (SEBRAE, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Crocco et al., 2006; Cassiolato & Lastres, 2003). Os Distritos Industriais apresentam-se como a fonte do desenvolvimento da maior parte da literatura referente às aglomerações geográficas de empresas. O conceito foi inicialmente tratado por Alfred Marshall no final do século XIX ao retratar as concentrações de empresas inglesas nos chamados Distritos Industriais Marshallianos, nos quais grandes empresas figuravam no espaço central e as pequenas e médias na periferia do sistema de organização industrial, no que se convencionou na literatura chamar de distritos centro-radiais, nos quais uma grande empresa é o centro do destino da produção de empresas de menor porte (Markusen, 1999). Contudo, no decorrer do século seguinte a Itália passou a se destacar ao apresentar um movimento semelhante na região que passou a ser conhecida como Terceira Itália, termo cunhado por Arnaldo Bagnosco na década de 1970 ao diferenciar o desenvolvimento desta região com as demais regiões da Itália que passavam por crises de recessão econômica e baixo grau de desenvolvimento (Schmitz, 1995). Uma característica básica de tais aglomerações é a forte integração de pequenas e médias empresas, grande especialização da mão-de-obra e presença ativa da comunidade. O foco de estudo destas aglomerações está no entendimento das externalidades econômicas geradas pelas concentrações e da passividade de demais empresas na obtenção de benefícios da concentração (Marshall, 1966; Brusco, 1982, 1986, 1990). Os estudos dos clusters iniciaram-se por meio de Krugman (1991) ao sugerir que as aglomerações industriais existiam como consequência da geografia econômica, priorizando mais os aspectos relacionados às 18 externalidades econômicas que o foco na concentração das empresas e as inter- relações destas com demais agentes. Além disso, verifica-se que em seus estudos havia uma ausência quanto às explicações de demais fatores que passariam a dar forma a esse tipo de aglomeração industrial, tais como a competitividade que viria a ser foco de estudos posteriores como os de Michael Porter. De acordo com Porter (1999), por exemplo, um cluster é um agrupamento espacialmente concentrado de empresas inter-relacionadas e instituições de apoio numa determinada área, que se ligam por elementos comuns e complementares. Além disso, muitas outras estratégias podem ser inseridas internamente com vistas a torná-lo mais competitivo, bem como outros fatores de desenvolvimento das empresas e dos empreendedores envolvidos por eles. Para Baptista (2003), um cluster é um forte grupo de empresas que normalmente, se concentram na mesma área geográfica. Aponta ainda que os clusters apresentam uma infra-estrutura de empresas relacionadas e de suporte, bem como de universidades e centros de pesquisa. Já Ciccone & Cingano (2003, p. 219-220) definem cluster com “um sistema locais de trabalho onde se concentra determinadas indústrias”. Outro formato de concentração produtiva geográfica pode ser encontrado no que se conceitua de Milieux Innovateur, conceito desenvolvido por meio de estudos do instituto francês Groupe de Recherche Européen sur les Milieux Innovateurs - GREMI. O Milieux Innovateur foca o processo de inovação especialmente na análise sobre territórios, englobando aspectos culturais e fatores locais, para demonstrar a relevância do ambiente ou meio (milieux) no desenvolvimento tecnológico. Nestes ambientes as empresas são consideradas como partes de um sistema que envolve elementos materiais (empresas e infraestrutura), imateriais (conhecimento) e institucionais (regras e 19 leis) que se ligam e geram externalidades locais, propiciando condições para a inovação e o desenvolvimento tecnológico (Lastres & Cassiolato, 2003). O conceito de Sistemas Inovativos e Produtivos Locais – SPILs relaciona-se aos “arranjos produtivos nos quais fatores como interdependência, articulação e vínculos consistentes resultam em interação, cooperação e aprendizagem, com potencial de gerar o incremento da capacidade inovativa endógena da competitividade e do desenvolvimento local” (Lastres & Cassiolato, 2003, p. 4). Contudo, em virtude do desenvolvimento de pesquisas no contexto industrial brasileiro, a maior parte da literatura nacional trata as aglomerações produtivas como Arranjos Produtivos Locais – APLs (SEBRAE, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Crocco et al., 2006; Cassiolato & Lastres, 2003), considerando, normalmente, as semelhanças existentes entre os clusters, os APLs e os demais modelos de concentrações produtivas geográficas. Os APLs normalmente congregam um número considerável de empresas que possuem atividades, produtos e/ou serviços semelhantes em determinado território e mantém inter-relações entre si e com outros agentes, tais como consórcios de exportação, associações de compra de insumos, entidades de apoio do governo, entre outras (Cassaroto Filho & Pires, 2001). De acordo com aspectos já analisados, Cassiolato & Lastres (2003) conceituam os APLs como uma forma arranjada de organizações em aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais - com foco em um conjunto específico de atividades econômicas - que apresentam vínculos, mesmo que simples. Hori & Boaventura (2006), afirmam que um APL pode figurar como uma reunião de várias empresas de um mesmo setor quer sejam de grande, médio ou pequeno porte, numa determinada área territorial, na qual as empresas vivenciam uma condição simultânea de competição e cooperação. Há 20 que se lembrar ainda que a área geográfica pode variar em abrangência e se referir a cidades, estados, países ou redes de países. A partir dos conceitos encontrados e das especificidades contextuais de cada um deles, e ainda em razão dos fins a que se propõem, os APLs podem ser definidos como: Aglomeração de empresas, localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como: governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa (SEBRAE, 2003, p. 12). Como se pode perceber, os APLs se apresentam por meio de diferentes conceitos e realidades. Contudo, a maior parte dos elementos que os constituem são semelhantes e caracterizam de maneira geral esse tipo de aglomeração produtiva geográfica. De acordo com Zissimos (2007), apesar das várias conceituações encontradas sobre o fenômeno das aglomerações, elas apresentam alguns elementos comuns, tais como espaço geográfico com delimitações onde os agentes se localizam, as instituições de suporte e a inter-relação das empresas entre si e com as instituições. Os diferentes conceitos tratados nesta parte introdutória são resumidos no Quadro 1. Portanto, diante da diversidade de nomes, modelos e conceitos de aglomerações, considera-se que o valor da similaridade e correlação de seus elementos são mais expressivos e úteis que as possíveis divergências existentes nas conceituações. É nessa perspectiva que se desenvolve este trabalho, focando em especial, o modelo dos Arranjos Produtivos Locais. 21 QUADRO 1 Síntese conceitual das abordagens de aglomerações industriais. Abordagem das Aglomerações Idéias Básicas Principais Autores Distritos Industriais - Predominância de grupos de pequenas e médias empresas. - Grande especialização de trabalhadores e forte divisão de trabalho. - Elevado grau de inter-relacionamento e presença ativa da comunidade por meio de cooperação. Marshall, 1966; Brusco, 1982, 1986, 1990; Markusen, 1999 Clusters - Relações da aglomeração com a geografia econômica. - Agrupamento espacialmente concentrado de empresas inter-relacionadas e instituições de apoio numa determinada área, ligadas por elementos comuns e complementares. - Infraestrutura de empresas relacionadas e de suporte, bem como de universidades e centros de pesquisa. - Foco em inovação e competitividade global, priorizando fatores competitivos ao invés de cooperação. Krugman, 1991; Porter, 1998, 1999; Baptista, 2003; Ciccone & Cingano, 2003; Parrilli, 2007. Milieux Innovateur - Processo de inovação em função de fatores territoriais e aspectos culturais. - Representa um sistema que envolve elementos materiais, imateriais e institucionais que se ligam e geram externalidades locais. - Foco no ambiente como estimulador da inovação e do desenvolvimento tecnológico Groupe de Recherche Européen sur les Milieux Innovateurs - GREMI; Lastres & Cassiolato, 2003. Sistemas Produtivos e Inovativos Locais – SPILs - Sistema no qual existe grande interdependência, articulação e vínculos consistentes entre os agentes. - Geração de interação, cooperação e aprendizagem, com potencial de gerar o incremento da capacidade inovativa endógena, da competitividade e do desenvolvimento local. Lastres & Cassiolato, 2003. Arranjos Produtivos Locais – APLs - Congrega um número considerável de empresas que possuem atividades, produtos e/ou serviços semelhantes em determinado território e mantém inter-relações entre si e com outros agentes. - Conjunto específico de atividades econômicas. - Reunião de várias empresas de um mesmo setor. SEBRAE, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Crocco et al., 2006; Cassiolato & Lastres, 2003. 22 2.2.2 Características dos APLs Ao partir para a caracterização de uma região produtiva como um APL, dentro do que define a literatura, as concentrações geográficas de empresas devem estar alinhadas quanto ao número de empresas que se concentram em determinada localidade à existência de relações de cooperação, a um grau elevado de especialização e trabalhadores no(s) setor(es) específico(s) do APL, entre outros (Cassiolato & Lastres, 2003; Crocco et al., 2006; SEBRAE, 2003; Medeiros & Magalhães Filho, 2007). Brusco (1986) argumenta que os distritos industriais italianos eram caracterizados pelo alto nível de especialização da força de trabalho, normalmente tendo formação técnica e escolaridade secundária. As empresas também se caracterizavam por apresentar habilidades específicas nas atividades que desempenhavam e por manterem relações com outras empresas especialistas em atividades diferentes que se complementavam, incrementando as atividades umas das outras. Porter (1998) apresenta, entre as principais características de uma aglomeração industrial, a forte interação em uma rede de relacionamentos formada pelos mais diversos agentes de uma dada localidade, tais como empresas, universidades, associações comerciais, de classe e normalização, agências do governo e demais instituições de apoio. Aponta ainda que a formação dessas aglomerações permita que se crie um melhor canal de comunicação entre o setor privado (empresas e entidades privadas de apoio) e o setor público (em suas atividades de apoio direcionadas para a educação, formação de trabalhadores, infraestrutura, financiamento, definição de legislação e política industrial, entre outras). O autor aponta ainda que a dualidade “concorrência/cooperação” é que permite às aglomerações desenvolverem suas competências locais. 23 De acordo com Brusco (1999), nas aglomerações produtivas existem algumas regras tácitas de comportamento dos agentes que nelas se inserem. Desse modo, em tais aglomerações deve existir clareza de estratégias de ações entre compradores e fornecedores visando ao alcance de maiores condições competitivas e livre circulação de informações e de inovações, visando fugir da situação de dependência e parasitismo entre empresas ou regiões inovadoras. As aglomerações podem apresentar duas formas principais de confiança nas relações entre seus agentes: confiança sistêmica e confiança calculada. A confiança sistêmica refere-se ao ambiente social criado na aglomeração, a qual impera a confiança surgida por meio da criação de normas de comportamento e interações criadas pelos próprios indivíduos, baseados nos sentimentos de moralidade, bem como na reciprocidade e empatia nos relacionamentos que fazem parte do modo de agir da coletividade (Parrilli, 2007). Já a confiança calculada refere-se à criação de formas contratuais que se antecipam aos possíveis comportamentos oportunísticos que os agentes econômicos podem apresentar (Parrilli, 2007; Williamson, 2003), visto que essa concepção de confiança é especialmente relacionada às interações econômicas. O capital social (Burt, 1992) aparece como base para a criação de um ambiente social e institucional, no qual possa prevalecer a capacidade competitiva das empresas aglomeradas (Parrilli, 2007). As características principais dos APLs podem ser visualizadas por meio do esquema apresentado no Quadro 2. 24 QUADRO 2 Principais características dos APLs. Características dos APLs Elementos de análise Fatores e condições para a análise Especialização produtiva Existência de especialização produtiva e diferenciação das atividades dos agentes no interior da aglomeração Número de empresas Relação do número de trabalhadores ligados às atividades do setor têxtil na microrregião Habilidades específicas Relação das habilidades de cada empresa e a contribuição dentro da aglomeração Canais de comunicação Existência de canais de comunicação entre as empresas e entre elas e o setor público Concorrência/cooperação Dualidade de concorrência e cooperação e o papel do capital social nestas relações Estratégia coletiva Existência e clareza das estratégias entre compradores e fornecedores Diversidade de agentes Existência de universidades, associações comerciais, de classe e de normatização, agências governamentais e demais instituições de apoio Circulação de informações Existência de livre circulação de informações e tecnologia Confiança sistêmica Normas de comportamento e interações criadas pelos próprios participantes Confiança calculada Formas contratuais como apoio para as relações entre compradores e fornecedores A partir do entendimento dos conceitos relacionados às aglomerações industriais, em especial aos APLs e suas características, parte-se, na próxima seção, para a discussão dos principais fatores que induzem suas formações. 2.2.3 Fatores de indução e motivação para a formação de APLs O entendimento da realidade do território abre espaço para novas vertentes de estudo direcionadas para as relações entre empresa em dada localidade geográfica, como no caso dos Arranjos Produtivos Locais - APLs. Desse modo, aliado ao entendimento do território como construção social, apontam-se outros aspectos como indutores de desenvolvimento econômico setorial localizado, como exemplo: relações de cooperação, especialização produtiva dos agentes, organização produtiva nas cadeias dentro da aglomeração, aspectos institucionais e políticos, entre outros (Crocco et al., 25 2006). A motivação para a localização de empresas em aglomerações geográficas pode dar-se diante de três fatores: a) mercado de trabalho especializado – benéfico para as empresas e para a força de trabalho; b) maior quantidade de compradores – maior variedade de insumos nas compras, e; c) spillovers (transbordamentos) – maior facilidade para o fluxo de informações do que em grandes distâncias, colaborando para o transbordamento de informações e tecnologias (Marshall, 1966; Medeiros & Magalhães Filho, 2007). Podem-se destacar ainda a presença de recursos naturais únicos na localidade, economia de escala produtiva, proximidade dos mercados, trabalhadores especializados e fornecedores de insumos e equipamentos na localidade (Marshall, 1966; Enright, 2003). Enright (2003) aponta ainda que a potencialidade de crescimento da aglomeração depende do desenvolvimento de capacidades internas, pressão do mercado e incentivos gerados no ambiente da aglomeração. Enright (2003, p.100) ainda argumenta que fatos e dados históricos “sugerem que a economia tende a se desenvolver por meio da emergência de clusters regionais”. Para ele, estes clusters são baseados em algum tipo de indústria que se desenvolvem diante da utilização de recursos naturais da localidade, necessidades vislumbradas no mercado ou habilidades próprias da região. Complementando esses fatores, Santos & Ferreira Júnior (2006) expõem alguns elementos notavelmente relevantes na constituição e desenvolvimento das aglomerações, tais como: a) economias externas geograficamente específicas (atividades correlacionadas), rivais, consumidores sofisticados, entre outros; b) desenvolvimento tecnológico e a formação de sistemas de inovação; c) estruturas de interdependência dispersas – interrelação da geografia econômica e do desempenho industrial, e; d) eficiência coletiva – vantagem competitiva 26 obtida por meio das economias externas da localidade e da ação dos agentes econômicos da aglomeração. Ainda de acordo com os autores, essas características estão correlacionadas e se tornam resultantes das primeiras concepções econômicas de organização industrial idealizadas por Alfred Marshall (1842-1924), definida como “economia externa marshalliana”. No Quadro 3 apresentam-se os principais elementos que induzem a formação e ao desenvolvimento de APLs, bem como a forma como estes elementos podem ser analisados. QUADRO 3 Principais elementos indutores da formação e do desenvolvimento de APLs Relações Interorganizacionais Elementos de análise Objetivos da análise Relações de cooperação Identificação da existência de relações de cooperação e de como essas relações colabora para a formação de uma rede Especialização produtiva dos agentes Identificação da existência de maior integração das atividades por meio da especialização Mercado de trabalho especializado Identificação de variáveis da especialização da mão-de- obra na definição dos níveis de produção da aglomeração Organização produtiva nas cadeias Identificação da existência de processos de coordenação das atividades na cadeia Aspectos institucionais e políticos Identificação de demais agentes que supram as necessidades de apoio e suporte para o desenvolvimento Maior quantidade de compradores Identificação do número de compradores para a produção e das possibilidades de aumento da demanda Spillovers Identificação dos transbordamentos de informações e tecnologias através de um maior fluxo de informações Economia de escala produtiva Análise da existência de ganhos competitivos através da economia de escala produtiva Proximidade dos mercados Análise dos ganhos obtidos com a proximidade de mercados consumidores e o aumento/facilidade para escoar a produção Fornecedores de insumos Análise das facilidades encontradas na obtenção de matérias-primas para a produção e do poder de barganha com os fornecedores Continua... 27 QUADRO 3 Cont. Relações Interorganizacionais Elementos de análise Objetivos da análise Equipamentos na localidade Análise das facilidades encontradas na obtenção de equipamentos e serviços de manutenção/assessoria/treinamento Desenvolvimento de capacidades internas Identificação das condições e estratégias de desenvolvimento das capacidades competitivas das empresas Incentivos gerados na aglomeração Identificação da existência de incentivos diversos gerados pela própria aglomeração por meio dos diversos agentes Fatos e dados históricos Análise do histórico de desenvolvimento do setor e da aglomeração sobre fatores que apontem para o seu desenvolvimento Necessidades vislumbradas no mercado Análise das necessidades e demandas do mercado e capacidade da aglomeração para supri-las por meio da produção Habilidades próprias da região Identificação das habilidades específicas desenvolvidas na região responsáveis pela atração de elementos diversos para o desenvolvimento Economias externas geográficas Identificação das atividades correlacionadas e rivais que colaboram para a obtenção de ganhos produtivos e concorrenciais Eficiência coletiva Identificação das vantagens obtidas por meio das economias externas da localidade Desenvolvimento tecnológico Identificação da formação de sistemas de inovação Estruturas de interdependência dispersas Análise sobre a inter-relação da geografia econômica e do desempenho organizacional Como se observa no quadro, as principais características dos APLs se relacionam diretamente entre os agentes, demonstrando que a co-localização não basta para se considerar uma aglomeração como APL. Para isto, há uma organização do setor por meio da definição de papéis, na qual a diversidade de agentes seja acompanhada da complementaridade das atividades para obtenção de maior capacidade competitiva. Além das relações entre os agentes, outros fatores se mostram essenciais na diferenciação dos APLs e na forma como se apresentam no mercado, conforme será discutido na seção seguinte. 28 2.2.4 Elementos de diferenciação dos APLs Apesar de se apresentarem sob uma forma organizacional bastante semelhante, os APLs se diferenciam entre si por meio de elementos específicos como os recursos de que dispõe, nível de formação da mão-de-obra ou pool de trabalhadores, histórico de formação, habilidades para inovar, complementaridade das atividades, entre outros. Crocco et al. (2006, p. 7-8) sugerem que a diferenciação existente entre as aglomerações produtivas se relaciona a elementos específicos de cada uma delas, como “atributos socioeconômicos, institucionais e culturais; o sistema de governança; a capacidade inovativa; os princípios de organização e a qualidade dos encadeamentos produtivos internos e externos ao ‘espaço industrial”. Questionamentos, como o porquê as regiões de um mesmo país se desenvolvem economicamente de maneiras diferentes, surgem no debate sobre a criação das aglomerações. Brusco (1986), ao exemplificar o caso das regiões italianas, explica que as regiões mais avançadas normalmente já se encontravam mais desenvolvidas em termos da agricultura familiar. Como as famílias dependiam basicamente de tomadas de decisão quanto aos seus negócios, desenvolveram-se habilidades gerenciais mais amadurecidas que nas regiões em que não se encontrava tal realidade. Outras habilidades relacionadas aos negócios fizeram essas regiões se destacarem, por exemplo, a habilidade de negociação com fornecedores e compradores e a capacidade de calcular os investimentos que se pretendiam fazer. Ainda em relação às diferenças regionais, consideram-se os aspectos relacionados à globalização econômica, o fluxo de investimentos externos entre os países e a proximidade do mercado externo de cada região, responsáveis por incrementar a economia de certas regiões e caracterizar diferenças regionais em termos de desenvolvimento econômico e das aglomerações industriais (Ge, 2009). 29 O desenvolvimento das áreas urbanas e o oferecimento de serviços públicos de alta qualidade também são fatores que se relacionam ao desenvolvimento das aglomerações. Autores como Jong & Lambooy (1986), Brusco (1986) e Wennberg & Lindqvist (2008) argumentam que o desenvolvimento das aglomerações deve ser estudado juntamente com o desenvolvimento das áreas urbanas. Isto indica que o desenvolvimento das cidades, as estruturas espaciais e os serviços, associado à cooperação interorganizacional, o envolvimento com agentes de apoio e do governo, bem como às relações mercadológicas atuais, favorecem a aglomeração industrial no alcance de um maior nível de desenvolvimento. Desse modo, aspectos encontrados nas cidades ou regiões mais desenvolvidas, tais como estrutura econômica diversificada, infraestrutura científica e mercado de trabalho especializado, contribuem para o crescimento da atratividade de novas empresas, que por sua vez dinamizam ainda mais a aglomeração existente (Jong & Lambooy, 1986). Möller & Haas (2003) sugerem que a densidade urbana é essencial para o aumento das competências locais, assim como a densidade da mão-de-obra é para o aumento da produtividade nas localidades, gerando economias de escala regionais e externalidades positivas locais (Correia, 2003; Oliveira & Torkomian, 2005; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Baptista; 2003; Parrilli, 2007). As externalidades são reforçadas pelo talento, motivação, boa educação e competência dos indivíduos que favorecem o desempenho das aglomerações e elevam suas vantagens. Os autores sugerem que nas áreas populacionais mais densas são pagos os maiores salários e como consequência, essas aglomerações se desenvolvem mais. Essas diferenças podem afetar sobremaneira o nível de desempenho de uma aglomeração para outra. Baptista (2003) aponta os aspectos “estrutura da indústria” e “alta densidade de empresas” como um dos principais fatores que 30 afetam o balanço entre as externalidades positivas da aglomeração e as “deseconomias” de escala, pontuando que a maior concentração de capital e de mão-de-obra, densidade urbana, presença de habilidades específicas e processos de transferência afetam sobremaneira a produtividade da aglomeração. Segundo Gordon & McCann (2005), outro fator de fundamental importância para o desenvolvimento de empresas e das aglomerações é a inovação. Nesse sentido, o novo foco de análise para o desenvolvimento de empresas nas aglomerações está imbricado à necessidade de desenvolvimento tecnológico gerado tanto individualmente, quanto por meio de parcerias. Kesidou & Romijn (2008) argumentam sobre a importância das trocas de informações e os spillovers de conhecimento que, ao criar um fluxo de transferência de conhecimento, contribuem para a geração de inovação nos arranjos e o para o desenvolvimento dos países. A tecnologia deixa de ser entendida como fenômeno marginal e passa a ser ostentada como um elemento central do crescimento e desenvolvimento de organizações, setores, aglomerações, regiões e países. Caso haja um processo de desenvolvimento e difusão constante de tecnologias, pode-se falar no surgimento de um sistema de inovação, gerando envolvimento de instituições distintas em prol do desenvolvimento do APL e consequentemente, da economia das regiões e países (Cassiolato & Lastres, 2003; Gordon & Mccann, 2005; Kesidou & Romijn, 2008). Entre as variáveis que podem promover o dinamismo dos agrupamentos de empresas existem aspectos ligados ao empreendedorismo (Wennberg & Lindqvist, 2008), tais como coesão social e auto-realização (Parrilli, 2007). A coesão social, pautada nos valores e prioridades locais, bem como a ‘auto- realização’, ligada à competitividade individual e satisfação coletiva, colaboram para integrar os agentes e dinamizar o ambiente local das aglomerações de forma empreendedora, visando à inovação e a geração de novas empresas. Os 31 programas de implementação de incubadoras de empresas mostram-se essenciais para elevar o nível de abertura de novas empresas, que dinamizam e renovam as aglomerações e regiões. De acordo com Correia (2003), a interação das empresas possibilita que se reduza a assimetria e possa se trabalhar com vistas ao desenvolvimento de inovações constantes por meio dos spillovers de conhecimento (Kesidou & Romijn, 2008), além de aumentar a eficiência coletiva (Schmitz, 1995; Schmitz & Nadvi, 1999; Crocco et al., 2006; Correia, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Parrilli, 2007; Erber, 2008). O processo de desenvolvimento dos aglomerados pressupõe, ainda, a existência de incentivos e benefícios criados pelo setor público por meio de políticas e programas que aumentem a especialização de mão-de-obra e diminuam custos e impostos, visando o incremento da produtividade e a criação de associações que forneçam suporte ao pleno desenvolvimento do mesmo (Gordon & McCann, 2005). Tal desenvolvimento requer a observação da relação (empresa/indústria/geografia), em que fatores específicos ligados à natureza e tipos de cada APL devem ser analisados para se alcançar o desenvolvimento socioeconômico da região. Esses e outros fatores passam a interferir na estrutura e forma de governança que as empresas assumem nos APLs para tornar seus processos mais eficientes, consequentemente interferindo na maneira como são distribuídos os ganhos na aglomeração (Erber, 2008). Deste modo, fatores como planejamento, coordenação (Wennberg & Lindqvist, 2008), liderança, sistemas de informações, e demais elementos relacionados à estrutura de governança, apresentam-se extremamente relevantes para o desenvolvimento dos participantes do APL como um todo e para sua diferenciação em termos de estrutura e desenvolvimento, de demais aglomerações (Arbarge, 2003). 32 2.2.5 Etapas de desenvolvimento, estrutura e funcionamento Ao estudar o histórico dos sistemas de produção local na Itália, os denominados Distritos Industriais Marshallianos, Brusco (1990) classifica seu desenvolvimento em quatro fases, considerando os contextos a partir da década de 1950. A primeira fase é caracterizada pela aglomeração de pequenas oficinas de atividades tradicionais locais de manufatura iniciadas há poucos anos antes da Segunda Guerra Mundial. A segunda fase ocorre entre os anos de 1950 e 1960 caracterizada pela presença de pequeno número, de grandes empresas líderes no sistema local de produção, concentrando as atividades e mudanças da produção artesanal para a produção, industrial no modelo chamado de distrito centro-radial (Markusen, 1999). A terceira fase, que ocorre do final dos anos 1960 até o início da década de 1980, é caracterizada pela crise do sistema fordista que promoveu uma expansão no número de MPEs que surgiam nas aglomerações. Nessa fase as concentrações industriais passaram a ser denominadas de Distritos Industriais. A quarta fase verificada a partir da década de 1990 é marcada pelas alterações do ambiente do mercado, pautado agora nos aspectos da globalização e crescente relevância da inovação nos processos produtivos. Dessa maneira os tradicionais Distritos Industriais passam a ser denominados de Distritos Industriais Competitivos. Enright (2003) aponta que, em termos de desenvolvimento dos arranjos, eles podem apresentar-se nos seguintes estágios: a) ativos (working clusters) – nestes, a maior parte do conhecimento e dos recursos são gerados na aglomeração para serem utilizados na competição com demais aglomerações; 33 b) latentes (latent clusters) – estes não desenvolvem um nível de interação e informação necessários para dar coesão a co-localização dos agentes, existindo uma carência de confiança e de conhecimento dos demais agentes e da visão comum de futuro; c) potenciais (potencial clusters) – neste caso há muitos elementos de que o cluster necessita para se desenvolver, já que requerem organização para se expandirem e beneficiar a aglomeração; d) sustentados por políticas (policy driven clusters) – são favorecidos por condições desenvolvidas por governantes, e; e) Aglomerados que “sonham acordados” (“wishiful thinking” clusters) – estes são dependentes de políticas que os orientem, já que são carentes de massa crítica e recursos próprios para obterem vantagens e se desenvolver. Assim, as políticas públicas de apoio ao desenvolvimento econômico setorial devem ser condizentes com a fase de desenvolvimento que a aglomeração apresentar, visando à estruturação de programas que permitam a sobrevivência dos mesmos (Parrilli, 2007). Como se nota, independente da fase de desenvolvimento em que se encontram, pode-se utilizar políticas e estratégias com vistas a apoiar o desenvolvimento das aglomerações. Contudo, torna-se necessário conhecer a estrutura, funcionamento e demais aspectos de cada uma delas, sendo relevante conhecê-los e conceituá-los. Neste sentido, Enright (2003) sugere alguns fatores que podem orientar para uma classificação: escopo geográfico, densidade, amplitude, profundidade, atividades básicas, alcance regional das vendas, intensidade de seu posicionamento competitivo, estágio de desenvolvimento, a natureza das atividades tecnológicas, capacidade inovativa e a estrutura que o cluster apresenta. 34 Quanto à especialização produtiva, Baptista (2003, p. 163) afirma que ela se apresenta com maior grau em áreas de densa atividade e se estabelece como um recurso de crescente retorno para a região. Neste caso, define densidade nos aglomerados como a “intensidade do capital de trabalho, humano e físico relativo ao espaço físico”, sendo a densidade mais alta quando existe uma grande quantidade de trabalho e capital por quilômetro quadrado. Conhecendo-se esses fatores, tem-se condições para compreender quais são os problemas e potencial de desenvolvimento das aglomerações e a partir daí, favorecer a implementação de políticas e estratégias ao seu favor. Partindo de uma vertente diferente de estudo, Parrilli (2007) apresenta três diferentes abordagens tratadas na literatura que dão base para o entendimento de como se desenvolvem os arranjos de MPEs: abordagem do desenvolvimento espontâneo, abordagem das políticas de indução para o desenvolvimento e abordagem social. 2.2.5.1 A abordagem do desenvolvimento espontâneo No século passado muito se discutia sobre as políticas macroeconômicas definidas pelos Estados com vistas a permitir que os países e regiões pudessem lidar com a nova realidade criada pela internacionalização dos mercados. Para isto, no final do século passado, passou-se o foco de atenção para a redução de barreiras de entrada no mercado e das deficiências do Estado para a implementação de programas de privatização. Contudo, as empresas que se localizavam em aglomerações se desenvolviam de modo espontâneo aproveitando a eficiência coletiva (Schmitz, 1995; Schmitz & Nadvi, 1999; Crocco et al., 2006; Santos & Ferreira Júnior, 2006, Parrilli, 2007; Erber, 2008), as externalidades econômicas (Correia, 2003; Oliveira & Torkomian, 2005; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Baptista; 2003; Möller & Haas, 2003) e as ações de cooperação (Marshall, 1966), sem 35 intervenção direta de políticas. Porém, a partir do ano de 1985, a espontaneidade verificada na formação dos arranjos não era entendida como suficiente para gerar os benefícios da aglomeração como mão-de-obra especializada e fluxo de informações e inovações. Neste novo contexto, as políticas passaram a ser fundamentais, para dar apoio na reorganização dos métodos baseados em inovação, informação, estudo de mercado e tecnologias por meio de instituições correlatas. 2.2.5.2 A abordagem das políticas de indução para o desenvolvimento Apresentam-se duas linhas de argumentação que se referem à importância das políticas para o desenvolvimento das aglomerações: políticas indutoras e governança existente em seu ambiente. As políticas indutoras são essenciais para os agrupamentos, não bastando apenas os esforços espontâneos das MPEs para se organizarem, ressaltando-se a relevância dada às políticas de mercado nos níveis internacional, nacional e local. Outro aspecto a ser analisado é a maneira como as empresas se organizam nas aglomerações em termos de governança. A distinção dos tipos de governança (mercado, rede, hierárquica, e quase hierárquica) torna-se necessária para que possa analisar como as MPEs e as aglomerações se inserem nas cadeias globais de valor e de que maneira as forças nacionais e internacionais podem intervir para dinamizar o seu desenvolvimento. Neste contexto, Parrilli (2007) ressalta a importância de políticas que induzem o crescimento dos APLs, por meio da proteção dos interesses das MPEs e destas aglomerações, bem como da facilitação de suas entradas para competir nos mercados, enfrentando as forças dos competidores. Assim, as políticas podem se direcionar, por exemplo, para o suporte financeiro, comunicação de tecnologias e/ou informações de mercado. 36 2.2.5.3 A abordagem social A abordagem social refere-se às mudanças requeridas nas relações entre as empresas para que elas se estabeleçam eficazmente no mercado. O governo teria o papel de coordenador para se estabelecer um cenário baseado em confiança, moralidade, transparência de objetivos e honestidade, visando à eficiência econômica, por meio do estabelecimento de normas de conduta para os agentes no mercado. Enfim, segundo Parrilli (2007), essa abordagem refere-se à influência dos governos que pode levar a obtenção de transbordamentos sociais por meio da ação econômica. 2.2.6 Vantagens da aglomeração de empresas A forma das organizações se arranjarem espacialmente por meio das aglomerações leva a obtenção de uma série de benefícios. Cassaroto Filho & Pires (1999) ressaltam que os APLS estimulam o autoconsumo dentro da própria cadeia produtiva (trocas econômicas entre fornecedores e clientes), além de referenciar a regionalização social como forma de atenuar a desigualdade social e econômica. Os autores ressaltam o valor dos APLs para as pequenas empresas, nos quais elas podem encontrar subsídios para competir no mercado e sem os quais teriam dificuldades em competir isoladamente, tendendo a ser extintas ou assimiladas pelas maiores concorrentes. Os aglomerados produtivos permitem que as empresas de pequeno porte (MPEs) aumentem suas oportunidades de cooperarem com outras empresas e instituições diversas, dando a elas maior potencial de competitividade no mercado global por meio de melhores condições de desenvolvimento de suas atividades (Galbraith et al., 2008; Gomez & Helmsing, 2008). Além disso, as tendências macroeconômicas e macropolíticas que se apresentam como obstáculo ao desenvolvimento são reduzidas no ambiente das aglomerações, 37 apresentando menor resistência para o desenvolvimento das MPEs (Parrilli, 2007). A relevância dos APLs centra-se em permitir que, por meio do compartilhamento de certas atividades, as empresas de menor porte agreguem vantagens de grandes empresas por meio de funções como logística, marca ou tecnologia, alcançando maiores chances para competir no mercado (Cassaroto Filho & Pires, 2001). As aglomerações colaboram ainda para a redução dos custos de transação, tanto nos processos de negociação quanto nos de monitoramento dos contratos, figurando como uma forma de estrutura híbrida para as empresas participantes (Williamson, 2003; Enright, 2003). Outros custos incorridos nas organizações podem ser reduzidos por meio da constituição de APLs: custos de produção reduzidos por meio de ganhos de escala e inovação com processos conjuntos de P&D; custos de aprendizado reduzidos pelo fácil acesso a um grande número de agentes e informações mais baratas, custos de oportunidade reduzidos por um uso mais eficiente dos recursos disponíveis e tomadas de decisões mais precisas e dinâmicas. Além destes, o custo do bem-estar social pode aumentar ou diminuir de acordo com as posturas adotadas pelos participantes da rede em relação aos melhoramentos das condições de trabalho, dos possíveis incentivos ao aumento da concorrência, entre outros (Ring, 1999). Outras vantagens possíveis da aglomeração produtiva são: fornecimento de produtos especializados com rapidez, acesso a maquinaria e peças novas, sobressalentes ou mesmo usadas, maior facilidade na interação com fornecedores e clientes, acesso a serviços técnicos especializados, formação de trabalhadores qualificados e interação com instituições e associações de interesse privado que podem influenciar políticas públicas para o setor. Neste sentido, espera-se que fatores de desempenho, como produtividade, 38 lucratividade e crescimento das vendas, também sejam positivamente influenciados (Ring, 1999; Porter, 1999). Assim, os resultados obtidos por meio dos APLs direcionam-se principalmente, para o fortalecimento das atividades de empresas de pequeno porte que não obteriam grandes resultados atuando isoladamente no mercado, maior inserção de trabalhadores nas atividades econômicas surgidas, maior nível de especialização do mercado de trabalho local e favorecimento ao desenvolvimento social. Somam-se ainda a tais resultados os demais aspectos que contribuem para o crescimento socioeconômico regional e transbordamentos diversos ocasionados pelo alcance de maior eficiência coletiva (Schmitz, 1995; Schmitz & Nadvi, 1999; Crocco et al., 2006; Correia, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Parrilli, 2007; Erber, 2008) e competitividade frente a grandes empresas e outras regiões produtivas (Crocco et al., 2006). Deste modo, os empreendimentos inseridos em APLs beneficiam-se da “passividade” da eficiência coletiva, incorporando tecnologias que se encontram no “ar” dos aglomerados disponíveis a todos. Para Correia (2003), os APLs tornaram-se um meio para organizar atividades que dêem base para a obtenção de crescimento econômico ao favorecer tanto o desenvolvimento de empresas já estabelecidas em uma região, por meio da concentração geográfica de empresas, como também, por permitir que se estabeleça um ambiente propício ao desenvolvimento de novos empreendimentos. Deste modo, a aglomeração permite que os participantes de um arranjo assumam uma posição de vanguarda diante de outras empresas que se encontram fora do mesmo. Essas vantagens estão relacionadas, em grande parte às reduções de custos e ganhos em qualidade, como o desenvolvimento de fatores tecnológicos e organizacionais. Oliveira & Torkomian (2005) sugerem que pequenas empresas localizadas em aglomerações produtivas beneficiam-se, entre as externalidades 39 locais decorrentes da concentração e proximidade entre as empresas e de melhores condições para se internacionalizarem (Correia, 2003; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Baptista; 2003; Möller & Haas, 2003; Parrilli, 2007). Nesse sentido, as autoras argumentam que, pequenas empresas das aglomerações podem se organizar de maneira a exercerem pressão sobre as autoridades políticas com vistas a criar uma estrutura condizente com as necessidades para entrar no mercado internacional. Galbraith et al. (2008) afirmam que a localização de empresas de um mesmo setor, em especial as relacionadas ao setor de tecnologias, fortalece as empresas aglomeradas, além de favorecer a criação de novas empresas e o ganho de competitividade. Apesar de, por um lado, servir como plataforma para a criação de novos empreendimentos, os APLs podem se apresentar como uma barreira potencial à entrada de agentes externos a eles, que procure também se inserir visando reduzir custos de transação e obter as vantagens da aglomeração (Oliveira & Torkomian, 2005; Santos & Ferreira Júnior, 2006; Baptista, 2003; Möller & Haas, 2003; Parrilli, 2007). Diante desse contexto, as empresas de seu interior podem não aceitar cooperar com aquelas que normalmente são suas concorrentes fora do APL (Correia, 2003). Diante dos benefícios esperados na constituição e desenvolvimento de APLs, pode se destacar que a competitividade no mercado e o desenvolvimento socioeconômico regional são os principais resultados buscados pelas empresas que nele se inserem e pelos governos e demais parceiros que se aliam nessa estratégia compartilhada. A seguir são detalhados estes dois principais benefícios. 40 2.2.6.1 Competitividade De acordo com Carvalho (2005, p.41), a aglomeração de empresas cria o que se pode chamar de competência coletiva, entendida como “a capacidade de obtenção de vantagens competitivas compartilhadas pelas empresas inseridas em complexos geograficamente concentrados, que uma empresa, isoladamente, não poderia obter”. Desse modo, a busca pela competitividade por meio dos aglomerados, diferente da realizada por setores ou agrupamentos mais tradicionais, se pode dar com maior eficácia, visto que eles acentuam as oportunidades de coordenação e aprimoramento dos participantes, a fim de enfrentarem juntamente suas limitações e obstáculos e direcionarem melhor a inovação e implantação de novas empresas pela grande atenção dada ao empreendedorismo e pela atração de novas empresas para a aglomeração em virtude do pool de trabalhadores especializados (Porter, 1999; Wennberg & Lindqvist, 2008; Galbraith et al., 2008). Assim, a vantagem competitiva relaciona-se com a localização ao selecionar o local que apresente os fatores relacionados por Porter (1979), no conhecido modelo do “diamante”, a saber: condições dos fatores (insumos); condições de demanda; setores correlatos e de apoio; e contexto para a estratégia e rivalidade da empresa, fatores esses observados na implantação e desenvolvimento dos aglomerados. Linde (2003, p.144) argumenta que a “rivalidade é um importante determinante na competitividade dos clusters”. Complementa afirmando que [...] os clusters que baseiam sua competitividade primeiramente em condições de fatores e de demanda, são, significantemente, menos competitivos que os clusters que baseiam suas competitividades na relação e suporte de indústrias ou no contexto da estratégia e rivalidade. 41 Percebe-se que, as aglomerações menos competitivas e em grande parte as aglomerações de países em desenvolvimento, baseiam-se mais em “condições de fatores e de demanda”, enquanto os mais competitivos no mundo e os de países desenvolvidos centram-se mais nas indústrias suportes e relacionadas, bem como no contexto de estratégia e rivalidade (Linde, 2003). Dessa forma, de acordo com estudos de Hori & Boaventura (2006), a competitividade toma maiores proporções à medida que, no APL, sejam estabelecidas cada vez mais, maiores números de empresas relevantes para seu desenvolvimento como um todo. Contudo, não se pode afirmar que a simples localização de uma empresa de menor porte em um APL signifique ganhos em competitividade ou acesso a todas as vantagens surgidas por meio da aglomeração. Assim, nem todas as empresas usufruem de igual maneira dos benefícios da aglomeração, já que elas atuam também de maneira isolada e podem apresentar estratégias próprias que não condizem integralmente com as estratégias coletivas. Deste modo, orienta-se que as empresas localizadas em um APL devem buscar alinhar suas estratégias àquelas da aglomeração, participando de maneira ativa e não apenas por meio da presença física na área de abrangência do APL (Barroso & Batista, 2003). 2.2.6.2 Desenvolvimento regional O contexto atual do mercado, da economia e da sociedade tem aberto espaço para a inserção de um movimento de valorização dos aspectos locais em oposição ao processo globalizante. A nova realidade expõe o “local” como um espaço de criatividade, aberto a inovação e a interferência da sociedade sobre o próprio futuro. Assim, a gestão pública passa a trabalhar duas dimensões: política e econômica. A dimensão política refere-se à obtenção de poder por parte da região ou município para se desenvolver, devendo desse modo, gerenciar seus próprios recursos e empregá-los da maneira que considerar 42 conveniente. Já a dimensão econômica relaciona-se à preocupação da gestão em identificar e respeitar a vocação econômica da região ou município, potencializando as vantagens próprias de tal região entre outros elementos estratégicos ligados ao avanço do desenvolvimento econômico (Costa & Cunha, 2004; Gomez & Helmsing, 2008). Considerando a importância dos governos no desenvolvimento das regiões, Putnam (2007) argumenta que a atuação dos governos pode surtir melhores resultados por meio de mudanças nas próprias formas de gestão pública, passando de forma centralizada para forma regionalizada. Contudo, esse movimento é novo, datando sua maior aceitação no final da década de 1980 e início da década de 1990. Neste contexto, observa-se que as políticas públicas requerem o envolvimento de demais atores sociais, por meio de maior cooperação, a fim de suprirem as demandas sociais e permitir que as regiões se desenvolvam com maior dinâmica. Desde a década de 1980, nota-se o constante envolvimento dos diferentes níveis de governo (nacional e local/regional) com vistas a fomentar o desenvolvimento de pequenas empresas em vários países. Normalmente, o envolvimento dos entes públicos se dá por meio de políticas criadas e direcionadas ao incentivo para a criação e reforço dos vários tipos de arranjos que elas podem constituir ao cooperarem entre si e dos agentes que dão base para o desenvolvimento das suas atividades e estruturas. Desse modo, o setor público demonstra preocupação com tais empreendimentos, visto que as empr