0 NADIENE APARECIDA DO VALE SANTOS CATALISADORES SÓLIDOS FUNCIONALIZADOS COM NÚCLEO MAGNÉTICO DE MAGNETITA: SÍNTESE, CARACTERIZAÇÃO E APLICAÇÃO NA PRODUÇÃO DE BIODIESEL LAVRAS – MG 2016 1 NADIENE APARECIDA DO VALE SANTOS CATALISADORES SÓLIDOS FUNCIONALIZADOS COM NÚCLEO MAGNÉTICO DE MAGNETITA: SÍNTESE, CARACTERIZAÇÃO E APLICAÇÃO NA PRODUÇÃO DE BIODIESEL Tese apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós- Graduação em Agroquímica, para a obtenção do título de Doutor. Orientadora Dra. Zuy Maria Magriotis LAVRAS – MG 2016 2 Ficha catalográfica elaborada pelo Sistema de Geração de Ficha Catalográfica da Biblioteca Universitária da UFLA, com dados informados pelo(a) próprio(a) autor(a). Santos, Nadiene Aparecida do Vale. Catalisadores sólidos funcionalizados com núcleo magnético de magnetita : síntese, caracterização e aplicação na produção de biodiesel / Nadiene Aparecida do Vale Santos. – Lavras : UFLA, 2016. 159 p. : il. Tese(doutorado)–Universidade Federal de Lavras, 2016. Orientador(a): Zuy Maria Magriotis. Bibliografia. 1. Catálise heterogênea. 2. Biodiesel. 3. Catalisadores magnéticos. I. Universidade Federal de Lavras. II. Título. e de seu orientador(a). 3 NADIENE APARECIDA DO VALE SANTOS CATALISADORES SÓLIDOS FUNCIONALIZADOS COM NÚCLEO MAGNÉTICO DE MAGNETITA: SÍNTESE, CARACTERIZAÇÃO E APLICAÇÃO NA PRODUÇÃO DE BIODIESEL Tese apresentada à Universidade Federal de Lavras, como parte das exigências do Programa de Pós- Graduação em Agroquímica, para a obtenção do título de Doutor. APROVADA em 20 de abril de 2016. Dra. Iara do Rosário Guimarães UFLA Dra. Lívia Elisabeth Vasconcellos de Siqueira Brandão UFLA Dra. Maria das Graças Cardoso UFLA Dra. Renata Carolina Zanetti Lofrano UFSJ Dra. Zuy Maria Magriotis Orientadora LAVRAS – MG 2016 4 DEDICO ESTE TRABALHO A AQUELES QUE TRILHARAM E DIVIDIRAM ESTE EXTENSO E MAGNÍFICO CAMINHO DA VIDA COMIGO. À minha mãe, Sirlene, minha base familiar, que me deu todas as condições, apoio, ensinamentos morais, confiança e, principalmente, me mostrou que a vida é concretizada no amor, para que eu pudesse conduzir meus passos da melhor maneira possível e realizar sonhos como este. VOCÊ É TUDO PRA MIM! Ao meu noivo, Rodrigo, uma estrela guia em minha vida, apontando sempre direções corretas através de todos os meus medos e inseguranças, trazendo à tona sempre o melhor de mim e me mostrando que a vida é construída de sonhos. TE AMO! CHEGAMOS AO FIM!!! 5 AGRADECIMENTOS Toda pessoa que passa em nossa vida é única. Sempre deixa um pouco de si e leva um pouco de nós. Há os que levaram muito, mas não há os que não deixaram nada. Portanto, hoje eu tenho muito a agradecer. Muitas pessoas fizeram parte desta caminhada, às quais sou imensamente grata. A Deus, que sempre perdoou cada momento em que duvidei de Sua força e me deu a determinação e a perseverança necessárias para prosseguir com meus trabalhos e meus ideais de maneira cada vez melhor e à Nossa Senhora Aparecida, por ter iluminado e guiado o meu caminho até a vitória deste dia. À peofessora Dra. Zuy Maria Magriotis, uma grande profissional e, acima de tudo, uma grande pessoa que, com sua valiosa orientação, me guiou em todas as etapas da minha vida científica, agregando à minha formação, além do conhecimento acadêmico, todo o conhecimento necessário para enfrentar a vida, sempre de maneira ética. Obrigada por ser um exemplo para mim. Aos colegas e amigos do Programa de Pós-Graduação em Agroquímica, pela amizade e incentivo, e, sobretudo, aos amigos do Laboratório de Catálise e Biocombustíveis, seres humanos maravilhosos que convivem comigo no dia a dia, tornando-o sempre melhor. Pessoas sempre prontas para o trabalho e para a descontração, com um sorriso estampado no rosto. Muito obrigada, Sabrina, Ricardo, Ana Claudia, João Paulo, Clara e Marcos, os quais tiveram, cada qual à sua maneira, uma participação importante na realização deste trabalho. Aos funcionários do Departamento de Química, Priscila, Lidiany, Ana Cristina, Roseni, Marcela, Dona Angela, Xulita, Joalis, Dedé, Marcelo, Wilsinho, Ana Carolina e Liége. Pessoas fundamentais para o andamento de qualquer trabalho e que também são responsáveis por mais esta etapa da minha vida. 6 Obrigada pela ajuda em diversos momentos, obrigada pelo convívio durante estes anos e pelas amizades construídas. Obviamente, jamais poderia deixar de ressaltar a importância daqueles que fizeram e continuam fazendo parte da minha vida e são tão responsáveis por tudo que sou e que tenho quanto minha família. Não vou citar nomes para não cometer a injustiça de esquecer-me de alguém, pois, graças a Deus, são muitos, mas sei que todos vão saber que estão em um lugar especial da minha história. A todos os professores do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras, que fizeram parte dos meus 9 anos de UFLA e que dedicaram seu tempo e sua sabedoria para que minha formação se tornasse um aprendizado de vida. As escolhas são mais simples, quando se têm bons exemplos! Nesses anos de UFLA conheci pessoas maravilhosas que, das amizades formadas, pilarizaram o alicerce do bem-estar e companheirismo. Gostaria de agradecer de forma especial a todas as amigas de república que fizeram e fazem parte do meu dia a dia, pela paciência, carinho e compreensão. Ao Laboratório de Gestão de Resíduos Químicos (LGRQ) e ao Centro de Análises e Prospecção Química (CAPQ), pelas análises realizadas. Aos professores participantes da banca de avaliação, Iara, Lívia, Maria das Graças e Renata, pelo interesse, disponibilidade e pela contribuição valiosa neste estudo. À Universidade Federal de Lavras e ao Departamento de Química, pela oportunidade; à CAPES, pela concessão da bolsa de estudos e à FAPEMIG e ao CNPq, pelo apoio financeiro. Embora, em muitas ocasiões, este tenha sido um trabalho solitário, o que foi apresentado é o resultado da ajuda de muitas pessoas, que estiveram por perto durante todos os momentos. Por isso, OBRIGADA A TODOS que contribuíram para que este sonho se tornasse realidade! 7 “O dia mais belo: hoje A coisa mais fácil: errar O maior obstáculo: o medo O maior erro: o abandono A raiz de todos os males: o egoísmo A distração mais bela: o trabalho A pior derrota: o desânimo Os melhores professores: as crianças A primeira necessidade: comunicar-se O que traz felicidade: ser útil aos demais O pior defeito: o mau humor A pessoa mais perigosa: a mentirosa O pior sentimento: o rancor O presente mais belo: o perdão O mais imprescindível: o lar A rota mais rápida: o caminho certo A sensação mais agradável: a paz interior A maior proteção efetiva: o sorriso O maior remédio: o otimismo A maior satisfação: o dever cumprido A força mais potente do mundo: a fé As pessoas mais necessárias: os pais A mais bela de todas as coisas: O AMOR!” Madre Tereza de Calcutá 8 RESUMO Este trabalho foi realizado com o objetivo de desenvolver catalisadores sólidos magnéticos sulfatados e não sulfatados à base de La2O3 e de Fe3O4 suportados em SiO2-Al2O3 (Siral 30) para a aplicação na produção de biodiesel via esterificação. Os catalisadores produzidos foram caracterizados por difração de raios X (DRX), espectroscopia na região do infravermelho (FTIR), fluorescência de raios X (FRX) e análise termogravimétrica (ATG/DTA). Os resultados de DRX identificaram a presença das fases do óxido de terras raras e do óxido de ferro com susceptibilidade magnética e também a presença das fases características de aluminossilicatos. As atividades catalíticas foram medidas em reator de batelada, utilizando como reação modelo a esterificação metílica do ácido oleico. Por meio de um planejamento fatorial 23 avaliaram-se os efeitos das variáveis independentes temperatura, razão molar ácido oleico:álcool e porcentagem de catalisador, e suas interações sobre a variável dependente porcentagem de conversão do ácido oleico a oleato de metila. Os compostos mostraram-se altamente eficientes na reação estudada, com rendimentos em ésteres próximos de 60,7%, 67,2%, 75,4%, 95,8%, 92,5%, 98,4%, 93,3%, 92,5% e 89,5%, para OL, SIRAL 30, NM, SIRAL NM, OL/NM, OL/SIRAL NM5, OLS/SIRAL NM 5, OL/SIRAL NM10 e OLS/SIRAL NM10, respectivamente. A temperatura e/ou a razão molar foram as variáveis de maior influência na reação estudada. Os testes de reuso realizados indicaram que os catalisadores apresentaram atividade mesmo após o terceiro ciclo. Os catalisadores também foram avaliados quanto ao teste de lixiviação e os resultados demonstraram que os catalisadores não sulfatados não lixiviaram para o meio reacional, apresentando heterogeneidade. Os resultados apresentados demonstraram que os catalisadores estudados têm potencial para serem utilizados na reação de esterificação de ácido oleico com metanol para a produção de biodiesel, tendo, ainda, a vantagem de poderem ser facilmente ser separados do meio reacional, devido às suas propriedades magnéticas. Além disso, não são corrosivos e não exigem uma etapa de lavagem do produto, representando uma menor geração de resíduos ao final do processo, tornando-o mais sustentável. Palavras-chave: Esterificação. Catálise heterogênea. Biodiesel. Catalisadores magnéticos 9 ABSTRACT The aim of this work was to develop magnetic sulfated solid catalysts and non sulfated based on La2O3 and Fe3O4 supported on SiO2-Al2O3 (Siral) for the use in biodiesel production via esterification. The produced catalysts were characterized by X Ray Difraction (DRX), Infrared Spectroscopy (FTIR), X Ray Fluorescency (FRX) and Thermogravimetric Analysis (ATG/DTA). The results of DRX revelead the presence of both phases of rare earth and iron oxide with magnetic susceptibility as well as the presence of characteristc phases of aluminosilicates. The catalytic activity was measured in batch reactor using as reaction model methyl esterification of oleic acid. Through a factorial design 23 it was evaluated the effect of independent variables: temperature, molar ratio, oleic acid, alcohol and catalysts percentage, also evaluating, their interactions on the dependent variable percentage of conversion of oleic acid to methyl oleate. The compounds proved to be highly efficient in the studied reaction, with yields close esters 60.7%, 67.2%, 75.4%, 95.8%, 92.5%, 98.4%, 93.3 %, 92.5% and 89.5%, for OL, SIRAL 30, NM, NM SIRAL, OL / NM, OL / SIRAL NM5, OLS / SIRAL NM 5, OL / SIRAL NM10 and OLS / SIRAL NM10, respectively. The temperature and/or the molar ratio were the most influential variables studied in the reaction. The reuse tests performed indicated that the catalyst showed activity even after the 3º cycle. The catalysts were also evaluated for leaching test and the results showed that non-sulfated catalysts did not leach into the reaction medium, showing heterogeneity. The results showed that the catalysts studied have potential to be used in the oleic acid esterification reaction with methanol to produce biodiesel, although having the advantage of being easily removed from the reaction medium due to their magnetic properties. Besides that, they are not corrosive and do not require a washing step of the product, representing a less waste at the end of the process, making it more sustainable. Keywords: Esterification. Heterogeneous catalysis. Biodiesel. Magnetic catalysts. 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Esquema representativo do ciclo catalítico (A e B são reagentes, P produto). Adaptado de Chorkendorff e Niemantsvedriet (2007)........................................................................................ 22 Figura 2 Representação dos sítios ácidos de Brønsted e de Lewis em óxidos metálicos sulfatados. Adaptado de Noda et al. (2005)................31 Figura 3 Compósito magnético e sua separação magnética do meio reacional. Adaptado de Tristão (2010)........................................41 Figura 4 Fase diamagnética (a) dipolos magnéticos, (b) resposta dos momentos magnéticos submetida a um campo...........................44 Figura 5 Fase paramagnética (a) dipolos magnéticos, (b) resposta dos momentos magnéticos submetidas a um campo..........................45 Figura 6 Dipolos magnéticos para a fase ferromagnética.........................46 Figura 7 Momentos magnéticos de um material antiferromagnético........46 Figura 8 Momentos magnéticos de um material ferrimagnético...............47 Figura 9 Representação de um alinhamento de spins em um monodomínio e um multidomínio......................................................................48 Figura 10 Representação da estrutura cristalina da magnetita (VERWEY; HELMAN, 1947)........................................................................49 Figura 11 Esquema de uma reação de transesterificação............................56 Figura 12 Etapas da reação de transesterificação........................................57 Figura 13 Reação de transesterificação de triglicerídeo catalisada por base.............................................................................................59 Figura 14 Reações secundárias que podem ocorrer durante a transesterificação utilizando catalisador básico: (1) saponificação, (2) neutralização dos ácidos graxos............................................60 Figura 15 Etapas de transesterificação de triglicerídeo catalisada por ácido...........................................................................................62 Figura 16 Mecanismo da reação de esterificação de ácidos graxos catalisadas por ácidos de Brønsted (FAUZI; AMIN; MAT, 2014)..........................................................................................65 Figura 17 Esquema ilustrativo do sistema de preparação do núcleo magnético...................................................................................79 Figura 18 Representação esquemática de nanopartículas magnéticas........79 Figura 19 Representação esquemática do compósito magnético SIRAL NM.............................................................................................81 Figura 20 Representação esquemática do compósito OL/NM...................92 Figura 21 Análise termogravimétrica das amostras A) La(OH)3, B) SIRAL 30 e c) Fe3O4 sem tratamento térmico.........................................90 11 Figura 22 Difratograma do óxido de lântanio (La2O3) sintetizado - La2O3 (JCPDS NO. 05-0602), La(OH)3 (JCPDS NO. 06-0585) e La(OH)2NO3 (JCPDS NO. 26-1144)..........................................95 Figura 23 Difratograma do núcleo magnético (NM) sintetizado Fe3O4 (JCPDS NO. 65-3107) e Hematita (JCPDS NO. 33-0664).........96 Figura 24 Difratograma do catalisador OL/NM..........................................96 Figura 25 Difratograma da SIRAL 30 e das amostras sintetizadas..............98 Figura 26 Espectros de FTIR dos catalisadores estudados..........................99 Figura 27 Espectros de FTIR das amostras SIRAL NM, OL/ SIRAL NM5 e OL/ SIRAL NM 10 comparativo na região estrutural...................................................................................102 Figura 28 Espectros de FTIR das amostras SIRAL NM, OLS/ SIRAL NM 5 e OLS/ SIRAL NM 10..............................................................103 Figura 29 Análise do efeito das variáveis e de suas interações pelo gráfico de Pareto...................................................................................109 Figura 30 Representação esquemática de um possível mecanismo de esterificação de ácidos graxos com metanol. Adaptado de Yan, Salley e Simon (2009). L+: Sítio ácido do catalisador; R1: grupo alquila do ácido graxo...............................................................112 Figura 31 Superfície de resposta do rendimento mássico do oleato de metila em função da temperatura e % de catalisador................................................................................118 Figura 32 Superfície de resposta do rendimento mássico do oleato de metila em função da razão molar óleo/álcool e % de catalisador................................................................................120 Figura 33 Superfície de resposta do rendimento mássico do oleato de metila em função da razão molar óleo/álcool e temperatura...............................................................................124 Figura 34 Teste de lixiviação para os catalisadores sintetizados..............133 Quadro 1 Características das sílica-aluminas SIRAL produzidas pela SASOL (fase alumina: boemita) (SASOL..., 2015)....................37 Quadro 2 Área superficial BET, diâmetro de poros e atividade catalitica dos catalisadores...............................................................................69 12 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Reagentes químicos utilizados nos experimentos......................77 Tabela 2 Equipamentos utilizados para o desenvolvimento do trabalho.......................................................................................78 Tabela 3 Descrição das variáveis estudadas na reação de esterificação do ácido oleico pelo Planejamento Fatorial e o intervalo codificado...................................................................................87 Tabela 4 Análise de FRX dos catalisadores sintetizados.........................104 Tabela 5 Matriz contendo os resultados de esterificação metílica referente à conversão térmica..................................................................105 Tabela 6 Planejamento Fatorial para a avaliação das condições da esterificação do ácido oleico com as respostas para os ensaios......................................................................................108 Tabela 7 Resultados estatísticos da análise de variância do ajuste dos dados ao modelo de interação.............................................................115 Tabela 8 Matriz contendo os resultados de conversão do ácido oleico nas melhores condições de análise..................................................129 Tabela 9 Avaliação de reuso dos catalisadores sintetizados após três ciclos de reação...................................................................................131 13 LISTA DE ABREVIAÇÕES/ SIGLAS BAS Brønsted acid site SIRAL Hidratos de sílica-alumina SIRALOX Óxidos de sílica-alumina TR Terras raras TR3+ Cátions trivalentes TR2+ Cátions divalentes TR4+ Cátions tretavalentes µB Magnéton de Bohr χ Susceptibilidade magnética B5 5% de biodiesel no diesel B10 10% de biodiesel no diesel MP Material particulado SOx Gases sulfurados NOx Gases nitrogenados MME Ministério de Minas e Energia -OH Grupo hidroxila -OR Grupo alcoxila R e R1 Ramificações BET Brunauer, Emmett, Teller FAME Éster metílico de ácido graxo DRX Difração de raios X ATG Análise termogravimétrica DTA Análise termogravimétrica diferencial MEV Microscopia eletrônica de varredura MAV Magnetometria de amostra vibrante α Número de fatores k Número de níveis X Variável independente Y Variável dependente NM Núcleo magnético OL Óxido de lântanio SIRAL NM Sílica-alumina/núcleo magnético OL/NM Óxido de lantânio/núcleo magnético OL/SIRAL NM Óxido de lantânio/sílica-alumina/núcleo magnético OL/SIRAL NM x (x = porcentagem em massa de La2O3 na amostra) OL/SIRAL NM5 5% de óxido de lantânio/sílica-alumina/núcleo magnético 14 OL/SIRAL NM10 10% de óxido de lantânio/sílica-alumina/núcleo magnético OLS/SIRAL NM5 5% de óxido de lantânio/sílica-alumina/núcleo magnético - sulfatado OLS/SIRAL NM10 10% de óxido de lantânio/sílica-alumina/núcleo magnético – sulfatado UFLA Universidade Federal de Lavras UNIFAL Universidade Federal de Alfenas FTIR Espectroscopia na região do infravermelho com transformada de Fourier FRX Fluorescência de raios X USP Universidade de São Paulo X1 Temperatura da reação X2 Porcentagem de catalisador X3 Razão molar y Resposta predita β0 Uma constante βi Coeficiente linear βij Coeficiente de interação ε Erro associado com o modelo CG-DIC Cromatografia em fase gasosa com detector de ionização de chama LCAB Laboratório de Catálise e Biocombustíveis DQI Departamento de Química DIC Detector de ionização de chama NTotal éster Número total de mol de éster esperado segundo a estequiometria da reação NFinal éster Número de mol de éster formado no final da reação CG Cromatografia gasosa L+ Sítio ácido do catalisador R1 Grupo alquila do ácido graxo TxC Interação das variáveis independentes temperatura e % de catalisador RMxC Interação das variáveis independentes razão molar óleo/álcool e % catalisador RMxT Interação das variáveis independentes razão molar óleo/álcool e temperatura 15 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................17 2 REFERENCIAL TEÓRICO..................................................................21 2.1 Processos catalíticos................................................................................21 2.2 Catalisadores heterogêneos....................................................................24 2.3 Catalisadores heterogêneos ácidos.........................................................27 2.4 Sólidos superácidos..................................................................................29 2.5 Suportes catalíticos..................................................................................33 2.6 Sílica-alumina..........................................................................................35 2.7 Os metais de terras raras........................................................................37 2.8 Catalisadores magnéticos........................................................................40 2.9 Partículas magnéticas e o superparamagnetismo.................................43 2.10 O uso de catalisadores na produção de biocombustíveis.....................50 2.11 Biodiesel....................................................................................................54 2.12 Esterificação.............................................................................................63 2.13 Catalisadores magnéticos e a produção de biodiesel............................67 2.14 Planejamento experimental....................................................................72 3 MATERIAL E MÉTODOS....................................................................77 3.1 Reagentes de consumo.............................................................................77 3.2 Equipamentos..........................................................................................77 3.3 Preparação dos catalisadores.................................................................78 3.3.1 Preparação do núcleo magnético (NM).................................................78 3.3.2 Preparação do óxido de lantânio (OL)..................................................79 3.3.3 Preparação do catalisador magnético (Siral NM)................................80 3.3.4 Preparação do catalisador magnético (OL/ NM).................................81 3.3.5 Preparação do catalisador magnético (OL/ Siral NM x).....................82 3.3.6 Preparação dos superácidos sólidos magnéticos...................................83 16 3.4 Caracterização físico-química dos catalisadores..................................83 3.4.1 Análise Termogravimétrica....................................................................83 3.4.2 Difração de Raios X.................................................................................84 3.4.3 Espectroscopia na região do infravermelho..........................................84 3.4.4 Fluorescência de Raios X........................................................................84 3.5 Planejamento experimental para as condições da reação...................85 3.5.1 Reação de esterificação...........................................................................86 3.6 Teste de lixiviação dos cataisadores.......................................................88 3.7 Reuso dos catalisadores...........................................................................88 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES..........................................................89 4.1 Caracterização dos catalisadores...........................................................89 4.1.1 Análise termogravimérica......................................................................89 4.1.2 Difração de Raios X................................................................................94 4.1.3 Espectroscopia na região do infravermelho..........................................98 4.1.4 Fluorescência de Raios X......................................................................103 4.2 Testes catalíticos....................................................................................104 4.2.1 Ajuste dos modelos para as superfícies de resposta...........................104 4.2.2 Aplicação do gráfico de Pareto para análise do efeito das variáveis..................................................................................................109 4.2.3 Análise por superfície de resposta.......................................................117 4.3 Otimização das condições de análise da reação de esterificação............................................................................................128 4.4 Teste de reuso.........................................................................................130 5 CONCLUSÕES.....................................................................................134 REFERÊNCIAS....................................................................................136 17 1 INTRODUÇÃO Atualmente, os catalisadores heterogêneos vêm sendo utilizados na indústria química e se tornaram extremamente importantes para inúmeros processos comerciais e industriais. Os catalisadores sólidos ácidos são os materiais mais promissores e importantes empregados na indústria química e petroquímica. A natureza dos sítios ácidos e o grande potencial desses materiais os tornaram economicamente atrativos e rentáveis, uma vez que, frequentemente, é possível modificar as propriedades químicas desses materiais em uma determinada direção, por meio de tratamentos, a fim de adequá-los à aplicação que se destina. As reações catalisadas por sólidos ácidos compreendem uma grande área de atuação da catálise heterogênea e, dentre os catalisadores sólidos heterogêneos mais utilizados, destacam-se as sílica-aluminas, as zeólitas, os óxidos mistos, os óxidos e suas formas modificadas e os heteropoliácidos. O estudo de catalisadores heterogêneos mostra que a acidez destes materiais, acoplada a uma adequada estrutura superficial, volume e tamanho de poros, melhora a atividade catalítica e a seletividade destes catalisadores para uma série de reações que envolvem compostos orgânicos. Apesar de os catalisadores sólidos serem intensivamente investigados, ainda existem muitas dificuldades para a sua aplicação industrial. Um dos principais problemas associados à sua utilização é a separação da mistura reacional relacionada com a reutilização do catalisador após o processo de filtração ou centrifugação. Portanto, é de suma importância investigar catalisadores que sejam facilmente recuperáveis e recicláveis para a reação em fase líquida. 18 Para superar estes desafios, o catalisador magnético pode ser uma boa alternativa, uma vez que a separação magnética geralmente evita a perda de catalisador e aumenta a sua capacidade de reutilização, em comparação com a filtração ou a centrifugação. Tendo em vista as crescentes preocupações em relação ao aquecimento global e às mudanças climáticas, a procura por alternativas de substituição das fontes de energia não renováveis, a produção e a utilização de biocombustíveis para a substituição do diesel e da gasolina e o uso da biomassa para a geração de eletricidade tornaram-se focos de estudos de impactos ambientais e de sustentabilidade. O uso do biodiesel como um combustível alternativo tem se apresentado como uma opção promissora, se destacando como um dos combustíveis renováveis mais importantes estudados atualmente. Industrialmente, a produção desse biocombustível resulta de um processo catalítico homogêneo em que a transesterificação do óleo vegetal é realizada com metanol e, em geral, na presença de hidróxido de sódio ou potássio como catalisador. Estes catalisadores têm baixo custo e fornecem altos níveis de conversão do triglicerídeo ao éster correspondente. Entretanto, frequentemente, levanta-se a questão a respeito da conversão dos óleos que contêm significativas quantidades de ácidos graxos livres, os quais não podem ser convertidos em biodiesel e causam consumo excessivo do catalisador, além da perda considerável do potencial de rendimento em biodiesel, devido à formação de sabão, que inibe a separação final do biodiesel da glicerina. A estratégia ideal para estes materiais é utilizar a esterificação em combinação com a transesterificação para aproveitar os subprodutos, ácidos graxos ou matérias-primas de baixa qualidade para potencializar a produção do biodiesel. 19 A reação de esterificação envolve a reação de um ácido graxo livre com um álcool (geralmente de baixo peso molecular) para produzir um alquil-éster (biodiesel) e água. As reações de esterificação são catalisadas em fase homogênea, empregando como catalisadores ácidos de Brønsted fortes, como o ácido sulfúrico, o clorídrico ou o fosfórico. Estes ácidos apresentam como desvantagens a alta corrosividade e o fato de que seus resíduos devem ser neutralizados após a reação, para evitar danos ambientais. Assim, o desenvolvimento de catalisadores heterogêneos que sejam capazes de converter ambas as frações, ácidos graxos livres e triglicerídeos, em biodiesel, parece ser um dos principais desafios a serem vencidos para potencializar a produção deste biocombustível, uma vez que a catálise heterogênea contribui significativamente em processos que visam ao desenvolvimento sustentável e à proteção ambiental, dentro do conceito de química verde (“green chemistry”). Diante do exposto, o objetivo geral, neste trabalho, foi sintetizar e avaliar catalisadores sólidos ácidos magnéticos baseados em Siral 30, magnetita e óxido de lantânio e os mesmos sulfatados, visando o desenvolvimento de processos químicos mais limpos que consumam menos energia e sejam ambientalmente corretos, colaborando efetivamente no combate à poluição. Entre os objetivos específicos do trabalho destacam-se: a) síntese dos materiais por métodos de precipitação, coprecipitação e sulfatação; b) caracterização química e estrutural das diferentes classes de catalisadores ácidos magnéticos produzidos; c) avaliação da influência da razão molar de ácido oleico e metanol, da quantidade de catalisador e da temperatura na reação estudada, utilizando planejamento fatorial completo; 20 d) otimização das condições do processo pelo emprego da superfície de resposta; e) avaliação da reutilização dos materiais empregados no processo estudado, para verificar a eficiência catalítica dos materiais; f) investigação da heterogeneidade dos sólidos ácidos por meio de testes de lixiviação. 21 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Processos catalíticos Um dos maiores desafios da indústria química, atualmente, é a utilização de metodologias menos agressivas ao meio ambiente, seguras e eficientes (baixos custos e altos rendimentos). Nesse cenário, destaca-se o emprego dos processos catalíticos, pois eles possibilitam a substituição de metodologias estequiométricas convencionais, permitindo a diminuição do número de etapas sintéticas de processos mais complexos, com a economia de matérias-primas ou utilização de outras de menor custo. Estima-se que aproximadamente 90% dos produtos químicos produzidos comercialmente sejam obtidos mediante processos que requerem o uso de catalisador em pelo menos uma das etapas de sua produção, incluindo processamento de alimentos, química fina, produtos químicos a granel e processamento de energia e meio ambiente (FECHETE; WANG; VÉDRINE, 2012; JULKAPLI; BAGHERI, 2015). Segundo o relatório publicado pela empresa de consultoria SRI Consulting (IHS Inc.), estes processos desempenham papel vital na economia do planeta, gerando em torno de US$13 bilhões por ano (IHS CHEMICAL, 2014). Catálise é o fenômeno em que uma quantidade relativamente pequena de um material estranho à estequiometria – o catalisador – aumenta a velocidade de uma reação química significativamente, sem ser consumida no processo, tornando mais rápida a obtenção do produto desejado (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 1989). Uma reação catalítica é descrita como um evento cíclico (Figura 1), em que o catalisador participa da reação ligando-se às moléculas dos reagentes para promover a formação de produtos. Após esta etapa, os produtos são liberados e o 22 catalisador é recuperado à sua forma original, podendo retornar ao ciclo catalítico (CHORKENDORFF; NIEMANTSVERDRIET, 2007). Figura 1 Esquema representativo do ciclo catalítico (A e B são reagentes, P produto). Adaptado de Chorkendorff e Niemantsverdriet (2007) Enquanto, em uma reação não catalisada, as moléculas dos reagentes necessitam colidir com uma energia suficiente para quebrar a barreira energética, para que sua transformação em produtos ocorra, a reação catalisada fornece um caminho alternativo por intermédio de ligações químicas entre os reagentes e o catalisador. A formação dessas ligações entre o substrato (reagentes) e o catalisador acontece de forma exotérmica, ou seja, com liberação de energia e isso faz com que a energia do sistema seja diminuída e a reação seja mais favorecida e ocorra em um menor tempo, facilitando, assim, a formação dos produtos (CHORKENDORFF; NIEMANTSVERDRIET, 2003). Por meio desses mecanismos, os catalisadores são capazes de tornar possível o processamento de reações em condições mais brandas, em relação à reação sem sua presença (ATKINS; PAULA, 2006). 23 Parâmetros como a atividade e a seletividade são essenciais na escolha de um catalisador para atuar em determinada reação. A seletividade é uma medida importante em reações catalíticas já que a reação principal, aquela que gera o produto desejado, é, em geral, acompanhada por outras reações simultâneas, em série ou em paralelo ou em série-paralelo, que conduzem à formação de produtos considerados indesejáveis (LOGLI, 2008). Um catalisador seletivo produz uma proporção elevada do produto desejado com quantidades mínimas de produtos secundários. Outra característica também importante está relacionada à estabilidade do catalisador, ou seja, um bom catalisador deve resistir a um grande número de ciclos catalíticos para ser economicamente viável. Assim, há um grande interesse econômico no desenvolvimento de catalisadores seletivos e estáveis (MEIRELES, 2013). Os catalisadores são classificados, quanto à sua natureza físico-química, em homogêneos e heterogêneos. A catálise é dita homogênea se o catalisador e os reagentes estão dispersos na mesma fase. Ao contrário, quando um catalisador constitui uma fase distinta, a catálise é chamada heterogênea (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 2007; SCHMAL, 2011). Para a indústria, a catálise heterogênea é a mais vantajosa e de maior importância, uma vez que o emprego de catalisadores homogêneos acarreta diversos problemas técnicos e ambientais (VÉDRINE, 2014), como corrosão, formação de rejeitos e separação dos produtos obtidos do catalisador e dos solventes utilizados. Tais problemas são minimizados com o uso de catalisadores heterogêneos, que facilitam a separação dos produtos da reação e a obtenção de produtos com alto grau de pureza e, em muitos casos, podem ser regenerados e reutilizados, provocam pouca ou nenhuma corrosão, são de fácil manuseio e possibilitam o fácil reinício de processos contínuos em reações de leito fixo. Eles apresentam alta estabilidade térmica e também altas atividades e seletividades 24 diante de vários tipos de reação. Além disso, têm menor geração de resíduos ao final do processo (ZHANG et al., 2010), o que os caracteriza como ambientalmente “amigáveis” ou “corretos” (KIRUMAKKI; NAGARAJU; CHARY, 2006). Dessa forma, a catálise heterogênea pode contribuir em dois níveis para uma produção química industrial mais limpa, em primeiro lugar, fornecendo melhoria dos processos de produção e, em segundo, ao ajudar a eliminar ou, até mesmo, transformar subprodutos tóxicos indesejados (BLASER, 2000). No entanto, quanto à atividade catalítica, tempo de reação e condições reacionais, os catalisadores homogêneos ainda apresentam rendimentos muito superiores, quando comparados aos heterogêneos, o que faz deles ainda os mais utilizados nos processos industriais. Porém, um processo industrial moderno deve ser tanto eficiente como ambientalmente correto, por isso existe a necessidade contínua de pesquisas capazes de produzir catalisadores que aliem a efetividade dos líquidos à simplicidade de operação e cunho ambiental dos sólidos (MELLO et al., 2011). 2.2 Catalisadores heterogêneos A catálise heterogênea ocorre estando catalisador e reagentes em diferentes fases, sendo, geralmente, o catalisador na forma sólida e os reagentes na fase líquida ou gasosa (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 1989). Dessa forma, a reação se processa na interface destas duas fases e o fator mais preponderante na velocidade da reação é a superfície de contato (JULKAPLI; BAGHERI, 2015), uma vez que as reações de catálise podem ocorrer em poros, defeitos, ou em uma superfície mais exposta dos materiais, dependendo do tipo de material utilizado como catalisador (CHORKENDORFF; NIEMANTSVERDRIET, 2003). Ou seja, 25 a catálise ocorre mediante uma interação entre moléculas do substrato com a superfície ativa do sólido (ERTL, 2002). A primeira etapa da catálise heterogênea é governada pela adsorção. Existem dois tipos de adsorção que são a física, que se trata de um processo semelhante à condensação, envolvendo forças não específicas, tipo Van der Waals, em que não há alteração química das moléculas adsorvidas e a adsorção química, que envolve a formação de ligações químicas entre o(s) substrato(s) e o catalisador (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 2007). A adsorção química é a primeira etapa de uma reação catalítica, isto porque permite o enfraquecimento das ligações das moléculas reagentes, facilitando, assim, a sua conversão em produtos, diminuindo a energia necessária para que a reação se processe (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 2007). Após a reação química, ocorre a dessorção dos produtos da superfície e/ou poros do catalisador e a difusão para a região fora das suas proximidades. Os catalisadores heterogêneos têm ganhado destaque e sido apontados como materiais capazes de solucionar os principais problemas relacionados aos catalisadores homogêneos. Isto porque podem ser facilmente separados dos produtos, por meio de técnicas simples, como filtração e centrifugação, dependendo da granulometria das partículas do sólido. A facilidade de recuperação do sólido pode permitir que ele seja utilizado em mais ciclos de reação, desde que não perca, substancialmente, sua atividade catalítica após o primeiro ciclo (LISBOA, 2014). De forma geral, os sólidos que atuam em catálise heterogênea têm a sua atividade reduzida ou eliminada após alguns ciclos catalíticos, uma vez que diversos fatores podem originar esse fato, desde a lixiviação de metais presentes na estrutura, a inativação dos sítios ativos pela coordenação de moléculas geradas no processo ou, mesmo, o colapso estrutural (BARTHOLOMEW, 2001). Muitos 26 desses sólidos são passíveis de serem reativados por um processo que pode variar de acordo com cada tipo de catalisador e/ou processo catalítico de interesse, por exemplo, eletroquímico para catalisadores metálicos em células combustíveis ou calcinação para a eliminação de materiais orgânicos que se ligam ao material catalítico (BAIK et al., 2011; LUO et al., 2012). A contaminação do produto ao final da reação é menor na catálise em meio heterogêneo, quando comparada à homogênea, o que reduz as etapas de purificação do mesmo (SATO, 2007). Os problemas inerentes à solubilização do catalisador em determinados solventes também são menores. Além disso, a maior estabilidade térmica dos sólidos que atuam via catálise heterogênea frente aos de via homogênea permite a utilização de temperaturas mais altas, o que é muito importante, pois o aumento da temperatura favorece a cinética de reação (CHORKENDORFF; NIEMANTSVERDRIET, 2003). Apesar das vantagens apresentadas pela catálise heterogênea, um grande desafio está em produzir materiais que apresentem características desejáveis para a aplicação industrial. Para que um material sólido possa ser empregado como catalisador, é necessário que ele apresente elevada área superficial específica, elevada atividade e seletividade, alta estabilidade térmica, elevada resistência mecânica e ao desgaste por fricção, longo tempo de vida, ou seja, possibilidade de várias reutilizações antes da desativação e de regeneração após a desativação e reprodutibilidade na preparação (CHORKENDORFF; NIEMANTSVERDRIET, 2007; CORDEIRO et al., 2011, FIGUEIREDO; RIBEIRO, 2007; SCHMAL, 2011). 27 2.3 Catalisadores heterogêneos ácidos A catálise por ácidos pode ser considerada uma das áreas mais importantes da catálise. Entretanto, apesar de ser amplamente empregada pela indústria química, a catálise ácida é, basicamente, limitada à utilização de ácidos minerais tradicionais, frequentemente tóxicos e perigosos, que acarretam uma série de problemas ambientais e operacionais associados à poluição e à corrosão. Assim, desenvolveram-se materiais sólidos ácidos, os quais são empregados, hoje, em vários segmentos da indústria, como na hidratação, na alquilação, na isomerização, na polimerização e na esterificação, dentre outros (ALAYA; RABAH, 2012). Segundo Corma (1995), a acidez de um material é definida em relação à sua interação com uma base. Nesse sentido, um sólido ácido pode ser entendido como aquele que, ao interagir com um indicador básico ou agir como um sólido onde uma base pode ser quimicamente adsorvida, altera a sua cor característica. Do ponto de vista da acidez de Brønsted, o sólido é capaz de doar ou, pelo menos, transferir parcialmente um hidrogênio ionizável (próton H+) da superfície ácida para uma base. Se for considerada a definição de Lewis, um sólido ácido deve ser capaz de aceitar um par de elétrons de uma espécie química capaz de doar este par (base de Lewis) (FIGUEIREDO; RIBEIRO, 1989, 2007; MORENO; RAJAGOPAL, 2009). Assim, quando a superfície ácida reage com uma base de Lewis, uma ligação coordenada é formada e isto é claramente diferente das reações de oxidação-redução em que ocorre a transferência total de um ou mais elétrons. A acidez está distribuída pela superfície dos sólidos na forma de sítios ácidos que podem ser ativados em uma determinada reação química, conferindo ao sólido as características de um catalisador, como, por exemplo, a formação de 28 sítios ácidos de Brønsted, os mais importantes para o craqueamento térmico do petróleo (BAIL, 2012). A habilidade dos sólidos ácidos de agirem como catalisadores é consequência da presença de diferentes tipos de sítios ácidos. Normalmente, a atividade catalítica que esses materiais apresentam não está relacionada apenas com a quantidade destes sítios ácidos e de sua natureza, mas também com a força ácida destes sítios. Geralmente, eles não têm uma única classe de sítios ácidos, mas exibem larga distribuição de força ácida, resultado da não homogeneidade na composição, como também da existência de defeitos estruturais e diferentes topologias para a localização dos sítios (BRUNNER, 1997). O conhecimento dos centros ácidos dos catalisadores que promovem as reações de caráter ácido é fundamental para interpretar sua atividade e seletividade, de modo a permitir que se relacionem as suas propriedades catalíticas com as suas propriedades ácidas. No entendimento da acidez em sólidos, a visão protônica de Brønsted e a eletrônica de Lewis respondem, tradicionalmente, por sistemas distintos. A acidez de Brønsted é marcante nos mecanismos envolvendo craqueamento ou hidrocraqueamento de hidrocarbonetos, dois dos processos mais importantes da indústria de refino de petróleo. O grupo doador de prótons é usualmente representado de forma simplificada como um H+ ligado a um átomo de oxigênio em superfícies de óxidos e é chamada de sítios ácidos de Brønsted ou BAS (Brønsted acid site). A acidez de Lewis está comumente associada aos sistemas não próticos resultantes da interação com metais, principalmente os metais de transição por meio de seus orbitais d incompletos, capazes de receber elétrons. Frequentemente, esses metais formam catalisadores, homogêneos ou heterogêneos, com a habilidade de processar com eficiência diversas reações químicas (MORENO; RAJAGOPAL, 2009). 29 A acidez superficial dos sólidos desempenha papel importante em várias reações orgânicas (REDDY et al., 2009). A indústria utiliza largamente sólidos ácidos em processos catalíticos de reações químicas, uma vez que muitas reações envolvendo hidrocarbonetos se tornaram extremamente simples com a utilização desses catalisadores sólidos ácidos (NODA, 1995). 2.4 Sólidos superácidos O termo “superácido” apareceu pela primeira vez na literatura química em 1927, num artigo de Hall e Connant (1927) que se referia à capacidade de protonação de bases orgânicas fracas, aldeídos e cetonas, com uma mistura dos ácidos sulfúrico, perclórico e acético. Gillespie e Pell (1971) foram os que propuseram uma definição arbitrária, mas amplamente aceita, de superácidos como sendo qualquer sistema ácido mais forte que o ácido sulfúrico 100%. Os superácidos despertam grande interesse em várias áreas, particularmente em síntese orgânica, os quais atuam como catalisadores, pois se tornou possível preparar carbocátions estáveis em soluções, que antes só eram observáveis em fase gasosa (NODA, 1995). Muitas reações se tornaram extremamente simples com a utilização de superácidos, devido à forte acidez superficial e à elevada atividade catalítica, mesmo em condições de temperaturas brandas, como, por exemplo, a isomerização, a desidratação, a alquilação, a acilação, a esterificação, a condensação, a nitração e a ciclização, entre outras (REDDY et al., 2009). A adsorção de diversos ânions, particularmente os ânions sulfato ou fosfato, sobre óxido tem sido utilizada como uma alternativa para melhorar a atividade catalítica destes sólidos, aumentando, assim, sua acidez (KHALAF; MANSOUR; EL-MADANI, 2011). Os óxidos metálicos, quando são sulfatados, apresentam 30 maior atividade catalítica, devido à formação de sítios catalíticos conhecidos como superácidos. Um superácido pode ser obtido por meio da conjugação de dois ácidos, podendo ser ambos de Brønsted, em que se adiciona a um sistema contendo um ácido forte de Brønsted um outro ácido ainda mais forte, aumentando ainda mais o poder de ionização do primeiro. Outra maneira é por meio da conjugação de um ácido forte de Brønsted com um ácido forte de Lewis, em que o ácido de Lewis irá aumentar a autoprotólise do ácido de Brønsted por meio da formação do contraíon do ácido de Brønsted (NODA, 1995). Geralmente, os superácidos são obtidos por meio do segundo caso, no qual estão presentes tanto sítios ácidos de Lewis quanto sítios ácidos de Brønsted, criados ou já existentes, cuja acidez é aumentada pela presença de sítios ácidos de Lewis fortes vizinhos. Ambos os sítios tendem a aumentar a acidez desses catalisadores. Na Figura 2 observa-se que a força dos sítios ácidos de Lewis é devido ao efeito indutivo exercido pelo sulfato sobre o cátion metálico, que fica mais deficiente em elétrons. O aumento da força dos sítios ácidos de Lewis leva, por sua vez, ao aumento da força dos sítios ácidos de Brønsted, que são formados pela presença de água (NODA et al., 2005). 31 Figura 2 Representação dos sítios ácidos de Brønsted e de Lewis em óxidos metálicos sulfatados. Adaptado de Noda et al. (2005) Um exemplo desses sólidos são os óxidos, nos quais o grupo protônico é representado pelo H+ ligado ao oxigênio (OH) na superfície e são chamados de sítios ácidos de Brønsted (BAS). Os grupos básicos de Brønsted são representados pelos íons oxigenados (O-) resultantes da desprotonação ou gerados pela desidratação de duas hidroxilas (X-OH + X-OH → X-O- +H2O) (SHRIVER et al., 2008). A acidez de Lewis está associada aos sistemas não protônicos resultantes da interação com metais, principalmente os de transição, que são capazes de receber elétrons, como os óxidos de estanho, titânio, alumínio, ferro, bismuto e zircônia, sendo este último o mais frequentemente utilizado na indústria e estudado, devido à sua forte acidez e facilidade de preparação (YU et al., 2009). A atividade catalítica destes materiais depende fortemente do teor de enxofre presente na estrutura do óxido, uma vez que a formação de sítios ácidos de Brønsted é favorecida em amostras com maior teor de sulfato (YANG; LU; WANG, 2003). Porém, outros fatores, como o óxido de partida, o agente sulfatante e a temperatura de ativação também podem desempenhar papel importante nas propriedades catalíticas destes sólidos. Por isso, novas pesquisas Sítio ácido de Lewis Superfície do óxido Sítio ácido de Brønsted 32 vêm sendo realizadas com o objetivo de gerar sólidos com propriedades superácidas que tenham boa estabilidade (NODA et al., 2005). Outro aspecto que deve ser mencionado é que a sulfatação pode alterar as propriedades texturais (área superficial, volume e diâmetro de poros), a acidez e a atividade catalítica destes sólidos, cuja intensidade depende da porcentagem de grupos SO4 2-, da temperatura de calcinação e do método de preparação (ALAYA; RABAH, 2012). Diferentes métodos podem ser utilizados para preparar os óxidos sulfatados e a escolha desse procedimento é um fator importante. Além disso, a estratégia da rota sintética utilizada pode conduzir a materiais que apresentem diversas propriedades físicas e químicas e, consequentemente, diferentes comportamentos catalíticos. Dois métodos são empregados na síntese de óxidos sulfatados. O primeiro emprega a técnica de sol-gel, em que se utilizam géis precursores do óxido do metal amorfo, que são tratados com agentes sulfatantes, por exposição com ácido sulfúrico ou impregnação com sulfato de amônia, seguido de calcinação da amostra a altas temperaturas (MORENO et al., 2011). O outro método, e talvez o mais empregado, consiste, inicialmente, em preparar o óxido metálico seguido de uma sulfatação e calcinação do material (AHMED et al., 2008). Neste processo utiliza-se uma solução do precursor do íon sulfato, sendo o ácido sulfúrico o mais empregado (NODA et al., 2005). Os óxidos metálicos sulfatados apresentam características favoráveis para diversos tipos de reação e, entre os óxidos sulfatados utilizados como catalisadores superácidos, podem-se destacar os óxidos de estanho (DABBAWALA; MISHRA; HWANG, 2013; MORENO et al., 2011), zircônio (JAWORSKI et al., 2015; SARAVANAM et al., 2015), lântanio (RESENDE, 2015; VIEIRA, 2014; VIEIRA et al., 2013), tântalo (RAO et al., 2009), titânio (LI et al., 2015), ferro (MAO; MA; WANG, 2010), alumínio (PAN et al., 2013), nióbio (RAO et al., 2009) e silício (CHEN et al., 2015), dentre outros com 33 propriedades interessantes, que já foram utilizados promovendo níveis significativos de conversão para as reações de interesse. Apesar da atividade catalítica já comprovada para diversos óxidos sulfatados e as diversas vantagens da sua utilização, um dos grandes inconvenientes do seu emprego é a sua rápida desativação, devido, entre outros fatores, à lixiviação dos grupos sulfatos. Essa tendência do catalisador se desconectar do suporte sólido e ocupar a fase contendo os reagentes e produtos ocorre, pois as espécies de enxofre suportadas sobre a superfície do óxido podem ser modificadas sucessivamente e transformadas em H2SO4, HSO4 - e SO4 2-, pela presença de água livre em reações na fase aquosa, o que conduz à perda de sítios ativos presentes na superfície sólida. Muitas vezes, o produto acaba sendo contaminado pelo catalisador, mesmo quando utilizado em condições reacionais brandas (LAM; HU, 2007). 2.5 Suportes catalíticos Os catalisadores heterogêneos podem ser classificados em mássicos ou suportados. Os catalisadores mássicos são aqueles em que toda a sua massa é constituída por sítios ativos e os suportados são matrizes sólidas nas quais diversos componentes podem ser dispersos. Existem, basicamente, dois tipos de suportes catalíticos. Há aqueles que oferecem apenas a sua estrutura, contribuindo com suas propriedades mecânicas, tendo como função básica manter a fase ativa em um estado altamente disperso, principalmente quando se utilizam suportes porosos (KOLASINSKI, 2008), e há também suportes que atuam no processo catalítico juntamente com a fase dispersa, contribuindo com a atividade catalítica e podendo reagir com os catalisadores durante o processo de preparação. Esses 34 catalisadores suportados são denominados, respectivamente, inativos e ativos (MOTEKI et al., 2011). Sistemas catalíticos nos quais o suporte também participa do processo catalítico têm recebido muita atenção devido à sua elevada atividade e seletividade em reações de grande importância industrial. Isso porque a dispersão e a estabilização de materiais catalíticos (metais nobres, nanopartículas, terras raras, etc.), em um suporte também ativo, como as zeólitas, podem produzir novos catalisadores com características diferentes, devido às novas interações entre os dois componentes, modificando, assim, suas propriedades catalíticas iniciais (WOJCIECHOWSKA et al., 1999). Esta técnica diminui custos e aproveita as vantagens mecânicas, estruturais e morfológicas contidas no suporte (JULKAPLI; BAGHERI, 2015). As propriedades e o desempenho catalítico dos catalisadores suportados dependem, sobretudo, da dispersão do óxido metálico sobre o suporte, bem como a estrutura da superfície do suporte (YAO; GAO; DONG, 2013). De forma geral, a presença de um suporte é vantajosa por duas razões específicas. A primeira é que a dispersão efetiva de um catalisador em um suporte faz com que ele seja aproveitado ao máximo, minimizando o custo do processo. Já a segunda é que essa dispersão previne a aglomeração das partículas e prolonga muito a vida útil do sólido catalítico. Em casos mais específicos, a própria interação suporte/catalisador pode favorecer a atividade do sistema catalítico e, em alguns episódios, pode ser até indispensável para que esta atividade exista (JACINTO, 2010). A área superficial é um parâmetro importante a ser considerado na utilização de catalisadores sólidos. Sabendo-se que as reações catalíticas heterogêneas ocorrem na interface gás/sólido ou líquido/sólido, a utilização de um catalisador com alta área superficial é favorável, a fim de se obter uma dispersão 35 máxima da fase ativa. Além da área superficial, a dispersão se relaciona também ao tamanho e ao formato das partículas. De modo geral, é possível obter maior dispersão quando se utiliza uma fase ativa em partículas menores (KOLASINSKI, 2008). A dispersão sobre suportes é, ainda, uma das alternativas para proteger os catalisadores de venenos e aumentar sua estabilidade. O suporte catalítico, além de aumentar a atividade do catalisador pelo aumento de sua área superficial, absorve, preferencialmente, o veneno, que desativa o catalisador, devido à sua estrutura porosa. Além disso, o suporte pode ligar-se quimicamente com a fase ativa, aumentando a sua estabilidade. Entre os materiais que apresentam grande aplicação em catálise estão as sílica-aluminas. Estes materiais podem ser utilizados como catalisadores propriamente ditos, mas apresentam maior destaque industrial quando empregados como suporte. Sua ampla aplicação é resultado de algumas características químicas e físicas peculiares, como valores de área específica, volume de poros elevado e diâmetro médio de poros ajustável, de acordo com o fim ao qual se destinam (BREYSSE et al., 2003; RAMIREZ; SANCHEZ- MINERO, 2008). 2.6 Sílica-alumina Sílica-aluminas amorfas são aluminossilicatos preparados por coprecipitação de precursores à base de alumínio e silício (processo cogel) ou pela deposição de sílica sobre um precursor de alumina (boemita). Estes sólidos apresentam maior acidez e maior área específica, comparada à alumina e seu uso como suporte em catalisadores tem se mostrado promissor (ROBINSON et al., 36 1999). Encontra aplicação, principalmente, como suporte em catalisadores de hidrocraqueamento (BURNENS et al., 2011; REZGUI; GUEMINI, 2005). As propriedades ácido-básicas das sílica-aluminas foram estudadas por diferentes técnicas complementares, como a técnica de dessorção de piridina acompanhada por espectroscopia no infravermelho, termodessorção programada de amônia e calorimetria, entre outras. Estes sólidos apresentam, além da acidez de Lewis, sítios ácidos de Brønsted que são formados pela presença de íons de alumínio +3 em coordenação tetraédrica na estrutura. Foi observado que essas propriedades dependem do teor de alumina (ou sílica) presente na amostra. A acidez aumenta com o teor de sílica no sólido, dependendo da metodologia de preparo da sílica-alumina (PODUVAL et al., 2010). Materiais de sílica dopada são comercializadas sob os nomes de SIRAL e SIRALOX, para seus hidratos e óxidos de sílica-alumina, respectivamente. O uso de dopantes afeta as propriedades físicas da alumina em muitas formas (Tabela 1). SIRAL e SIRALOX, além de serem mais estáveis termicamente que algumas aluminas de elevada pureza, também são materiais relativamente ácidos. Tanto o hidrato como o óxido são apropriados para os processos catalíticos em que a acidez superficial é necessária para aumentar a atividade catalítica (SASOL, 2015). 37 Quadro 1 Características das sílica-aluminas SIRAL produzidas pela Sasol (fase alumina: boemita) (SASOL, 2015) Propriedades Físico-químicas SIRAL 5 SIRAL 10 SIRAL 20 SIRAL 30 SIRAL 40 Densidade aparente (g L-1) 450-650 400-600 300-500 250-450 250-450 Partículas (d50) (µm) 50 50 50 50 50 Área BET (m2 g-1) 370 400 420 470 500 Volume de poros (mL g-1) 0,7 0,75 0,75 0,8 0,9 Composição (%) Al2O3 +SiO2 75 75 75 75 75 LOI* 25 25 25 25 25 Al2O3:SiO2 95:5 90:10 80:20 70:30 60:40 C 0,2 0,2 0,2 0,2 0,2 Fe2O3 0,02 0,02 0,02 0,02 0,02 Na2O 0,005 0,005 0,005 0,005 0,005 Dados pós ativação a 550 °C, durante 3 horas. *Perda de ignição A família das sílica-aluminas SIRAL da Sasol apresenta sítios ácidos de Lewis e Brønsted (MARTÍN-LUENGO et al., 2008; NASSREDDINE et al., 2011). A quantidade destes sítios, obtidos por medidas de infravermelho de piridina adsorvida, aumenta com o aumento do teor de sílica na composição até um máximo em torno de 40% de sílica. Nos suportes com quantidades superiores a 40% a acidez total decai e se aproxima do valor da sílica pura (CHIARO, 2011). Os sítios de Brønsted e Lewis nas sílica-aluminas são originados de uma substituição isomórfica de silício tetravalente pelo alumínio trivalente na matriz de sílica. Pelo fato de os átomos de alumínio, normalmente hexacoordenados, terem sido forçados a adotar uma estrutura tetracoordenada, o alumínio tende a 38 adquirir um par de elétrons e comporta-se como um ácido de Lewis na ausência de água, e como um ácido de Brønsted em presença de uma molécula de água (BERTEAU; DELMON, 1991). 2.7 Os metais de terras raras As terras raras, ou metais de terras raras (TR), são, de acordo com a classificação da International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), um conjunto de elementos químicos da série do lantânio (La), com números atômicos de 57 a 71, mais o ítrio (Y) e o escândio (Sc), elementos que apresentam propriedades químicas e físicas muito parecidas e ocorrem na natureza juntos, em proporções variadas e em diversas fontes minerais. Outra terminologia também muito aplicada para a série do lantânio é “lantanídeos” (ou série dos lantanídeos) (ABRÃO, 1994). As aplicações das terras raras têm crescido muito, uma vez que esses elementos são de vital importância no desenvolvimento tecnológico e industrial, com aplicações em diversas áreas das engenharias química, metalúrgica e de materiais (ABRÃO, 1994; LOUREIRO, 1994). A química destes elementos é essencialmente iônica, com todos eles formando cátions trivalentes (TR3+). Embora a valência (III) seja predominante, alguns desses elementos podem apresentar valência (II) (TR2+) e valência (IV) (TR4+), porém, com menor estabilidade que os cátions trivalentes. Elementos como La, Gd, Lu, Y e Sc só formam espécies trivalentes (ABRÃO, 1994). O nome terras raras foi dado pelo sueco Lieutenant Arrhenius, que as descobriu no final do século XVIII, em cavernas da Suécia (LOUREIRO, 1994). Esses elementos lantanídeos, originalmente conhecidos como “terras raras”, foram inicialmente isolados sob a forma de óxidos, recebendo, então, a designação de “terras”, na nomenclatura arcaica e, por terem sido considerados de difícil 39 localização e separação, foram considerados “raros”, recebendo a denominação de “terras raras”, utilizada até hoje. No entanto, atualmente, sabe-se que não são raros e a abundância na litosfera é relativamente alta, podendo ser encontrados, com relativa facilidade, novos jazimentos de minerais contendo terras raras. O elemento túlio, o menos abundante, é tão comum quanto o bismuto (ca. 2 x 10-5%) e mais comum que As, Cd, Hg e Se, elementos estes que não são considerados raros (ABRÃO, 1994). Os principais depósitos minerais comercializáveis, a partir dos quais são extraídas as terras raras, são encontrados na China, nos Estados Unidos, na Austrália, na Índia, no Brasil e no Canadá. No Brasil, as ocorrências de TR são numerosas, com reservas geológicas importantes. Os três depósitos principais do país encontram-se no Planalto de Poços de Caldas (MG), em Catalão (GO) e no Complexo Carbonatítico de Araxá (MG). Os recursos contidos nesses depósitos totalizam 3,26 milhões de toneladas (LOUREIRO, 1994). Dentre os TR, o lantânio, geralmente, é encontrado na natureza na forma de um fluorocarbonato denominado bastnaesita. Seu estado de oxidação mais comum é +3, atingindo uma configuração igual ao gás nobre xenônio, sendo, portanto, muito eletropositivo. Seus compostos são incolores devido ao total preenchimento dos orbitais d e ausência de elétrons em orbitais f que, no caso de alguns lantanídeos, são responsáveis pela coloração de seus compostos. O ambiente geométrico adquirido pelos complexos de lantânio depende muito da orientação e do volume do ligante, já que são relatados números de coordenação elevados para os compostos desse bloco (YAN et al., 2009). Uma das diversas áreas em que os elementos de terras raras, como o óxido de lantânio, são utilizados é a catálise. Estes óxidos participam na estabilização de suportes contra sinterização térmica e aumentam a performance dos 40 catalisadores, reduzindo a energia de ativação das reações (DALLA COSTA; PERALTA; QUERINI, 2014). 2.8 Catalisadores magnéticos A catálise heterogênea apresenta uma série de vantagens em relação à homogênea, no entanto, ainda existe a necessidade de se produzir materiais catalíticos com características mais favoráveis à aplicação industrial. Um ponto relevante é a necessidade da utilização de um método de separação e recuperação mais fácil e eficiente para o isolamento do produto após a reação. Comumente, métodos físicos, como uma filtração ou a centrifugação, são necessários para a separação do catalisador da mistura reacional (CHATTERJEE; CHATTERJEE; IKUSHIMA, 2004). Porém, em sistemas nos quais o catalisador sólido é um pó finamente particulado, uma filtração simples pode não ser eficiente para a completa separação do produto, e o sólido catalítico pode ficar preso nos filtros, causando a obstrução dos mesmos (JUN et al., 2006; MIZUKOSHI et al., 2008). Portanto, existe a necessidade de produção de novos materiais catalíticos para a reação em fase líquida que sejam facilmente isolados do meio reacional e facilitem o procedimento operacional de separação do produto, diminuindo os custos e a quantidade de energia consumida por equipamentos extra durante um processo industrial e garantindo um processo eficiente em que as perdas de massa de catalisador e produto sejam inexistentes ou negligenciáveis. A fim de estender a aplicação dos sólidos ácidos e o desenvolvimento de novas rotas ambientalmente viáveis, a síntese de um novo catalisador sólido ácido magnético desempenha papel essencial e resolve esta questão, pois, além de desempenharem a função catalítica desejada, têm a facilidade de separação do meio reacional pela simples imposição de um campo magnético externo (Figura 41 3) (ÁLVAREZ et al., 2010). Além disso, as partículas magnéticas podem apresentar grandes áreas superficiais, alta atividade catalítica e propriedades magnéticas únicas. Figura 3 Compósito magnético e sua separação magnética do meio reacional. Adaptado de Tristão (2010) Os catalisadores magnéticos podem ser simplesmente separados dos produtos da reação por um imã, fazendo com que a separação dos catalisadores sólidos fique mais fácil e mais econômica. O processo de separação desses materiais requer menos tempo, reduzindo, assim, o risco de desativação do catalisador, causada por exposição durante sua reciclagem, aumentando a sua capacidade de reutilização em comparação com a filtração ou centrifugação. Para o preparo dos catalisadores, normalmente, se obtêm, inicialmente, nanopartículas magnéticas na forma de ferrofluidos para posterior adição do material cataliticamente ativo. Um fluido magnético se caracteriza pela dispersão coloidal de partículas magnéticas, como a magnetita, da ordem de nanômetros, dispersas em um líquido carregador, que pode ser um meio aquoso ou orgânico. Catalisador magnético Sistema reacional Eletroímã Produto limpo 42 A estabilidade coloidal desse fluido depende das dimensões das partículas, que devem ser suficientemente pequenas para evitar a precipitação devido às forças gravitacionais. Depende também das propriedades físico-químicas da superfície, que influenciam as repulsões estéricas e eletrostáticas. Este equilíbrio entre as interações de naturezas opostas presentes em um ferrofluido é modulado pelo movimento browniano (JEONG et al., 2007; SCHERER; FIGUEIREDO NETO, 2005). Existem diferentes metodologias de preparo de nanopartículas magnéticas, como redução por tamanho de moagem, coprecipitação, coprecipitação em microemulsão, sol-gel, decomposição de compostos de coordenação, decomposição por sonicação e redução de íons metálicos. O método de síntese mais utilizado é o de coprecipitação, que consiste na precipitação de sais de ferro divalentes e trivalentes, em solução, por meio de reações em presença de base forte, devido à simplicidade e à eficiência da técnica (GUPTA; GUPTA, 2005; LAURENT et al., 2008): 2 Fe3+ + Fe2+ + 8 OH- → Fe3O4(s) + 4 H2O(l) O processo de coprecipitação apresenta um grande número de vantagens, como homogeneidade química, baixas temperaturas de reação e sinterização, obtenção de partículas finas, produtos com boa reatividade e uniformidade, pouca aglomeração, tempo de reação relativamente pequeno, baixo custo, possibilidade de processamento em grande escala, além da possibilidade de obtenção de uma grande quantidade de partículas (GUPTA; GUPTA, 2005). Além disso, essas nanopartículas magnéticas podem, ainda, ser moduladas de acordo com a funcionalidade desejada. Pode-se, por exemplo, obter 43 compósitos associando diferentes materiais na superfície da partícula magnética, a fim de se obter uma nova aplicabilidade. 2.9 Partículas magnéticas e o superparamagnetismo O magnetismo de uma substância está associado às propriedades magnéticas do elétron. Além da carga elétrica, o elétron tem um momento angular intrínseco (o spin) que gera seu momento magnético – o magnéton de Bohr (μB). Quando o elétron está ligado a um núcleo, o momento magnético no íon aparece quando uma camada eletrônica não está completamente preenchida e o spin total e o momento angular orbital não se cancelam exatamente (CULLITY; GRAHAM, 2011). O momento angular orbital e o spin do elétron dão origem ao dipolo magnético. Para que um sólido seja magnético, o momento magnético do átomo deve persistir quando ele está ligado a outros átomos. A interação dos elétrons mais externos com seus vizinhos gera o aparecimento de bandas de energia com estados delocalizados, principalmente em metais. Esses elétrons interagem de diferentes formas, produzindo diferentes comportamentos magnéticos, dando origem às fases magnéticas (CULLITY; GRAHAM, 2011). A matéria submetida à ação de um campo magnético externo pode resultar no ordenamento dos momentos magnéticos, caracterizando uma fase magnética. A resposta ao campo magnético e ao ordenamento é definido como magnetização, a qual é quantificada pela susceptibilidade magnética (χ) (CULLITY; GRAHAM, 2011). De acordo com os valores de susceptibilidade, os materiais podem ser classificados em diamagnéticos (χ<0), paramagnéticos (χ>0), ferromagnéticos (χ>>0), ferrimagnéticos (χ>>0) e antiferromagnéticos (χ>0), de acordo com a 44 formação e o arranjo dos dipolos magnéticos, na ausência e na presença de um campo magnético externo. Um material diamagnético não apresenta dipolos magnéticos na ausência de um campo magnético externo (Figura 4 a), mas, na presença de um campo, surgem dipolos magnéticos fracos. A magnetização de um material diamagnético ocorre na direção oposta à do campo magnético aplicado, resultando, assim, em uma força repulsiva fraca em relação ao campo (Figura 4b) (EGAN et al., 2004; JEONG et al., 2007; MARTINS; TINDADE, 2012; SHRIVER et al., 2008; WELLER, 1994). (a) (b) Figura 4 Fase diamagnética: (a) dipolos magnéticos, (b) resposta dos momentos magnéticos submetida a um campo (COUTO, 2010) Já os materiais paramagnéticos apresentam dipolos magnéticos orientados aleatoriamente, os quais podem ser alinhados por meio da ação de um campo magnético externo, e a magnetização ocorre na mesma direção do campo aplicado, ou seja, uma pequena parcela dos spins se alinha na direção do campo magnético (Figura 5) (JEONG et al., 2007; MARTINS; TINDADE, 2012; SHRIVER et al., 2008; WELLER, 1994). A intensidade dessa resposta é muito fraca e, para que ela seja detectada, é necessário utilizar temperaturas muito baixas e aplicar campos muito intensos. Podem ser citados o alumínio e o sódio como exemplos de materiais paramagnéticos (EGAN et al., 2004). B0 45 (a) (b) Figura 5 Fase paramagnética: (a) dipolos magnéticos, (b) resposta dos momentos magnéticos submetida a um campo (COUTO, 2010) As propriedades ferromagnéticas, ferrimagnéticas e antiferromagnéticas dependem das interações entre os spins dos elétrons de muitos átomos e originam- se do comportamento cooperativo de células unitárias de um cristal. Nestes materiais, os dipolos magnéticos existem mesmo na ausência de um campo magnético externo e exercem efeito de longo alcance, exibindo um momento magnético permanente. Nos materiais ferromagnéticos, os spins de centros metálicos diferentes encontram-se acoplados segundo um alinhamento paralelo que se mantém num domínio magnético, ou seja, os spins estão todos orientados na mesma direção, mesmo na ausência de campo externo aplicado (Figura 6). Trata-se de uma característica marcante que é conhecida como magnetização espontânea, não nula. O momento magnético pode ser elevado, uma vez que os spins individuais reforçam-se mutuamente. B0 46 Figura 6 Dipolos magnéticos para a fase ferromagnética (COUTO, 2010) Outra categoria de compostos que apresentam magnetização espontânea é a dos antiferromagnéticos. Ao contrário dos ferromagnéticos, seus spins têm um alinhamento antiparalelo, cancelando-se mutuamente (Figura 7). Figura 7 Momentos magnéticos de um material antiferromagnético (COUTO, 2010) Assim como no antiferromagnetismo, materiais ferrimagnéticos têm spins com alinhamento antiparalelo, entretanto, estes spins apresentam momentos magnéticos com diferentes magnitudes (apresentam átomos vizinhos distintos), o que resulta em um cancelamento incompleto e o material apresenta um momento magnético global (Figura 8) (JEONG et al., 2007; MARTINS; TINDADE, 2012; SHRIVER et al., 2008; WELLER, 1994). Como consequência desse fato, a 47 magnetização total pode, em muitos casos, ser mais intensa que nos materiais antiferromagnéticos. A magnetita (Fe3O4) é um exemplo de composto dessa categoria conhecido desde a antiguidade (EGAN et al., 2004). Figura 8 Momentos magnéticos de um material ferrimagnético (COUTO, 2010) Ainda, em partículas muito pequenas, que apresentam tamanho de partícula abaixo de certo valor crítico (diâmetro crítico), a formação de domínios magnéticos torna-se energeticamente desfavorável e o domínio magnético pode coincidir com a nanopartícula, formando um monodomínio (Figura 9). Nesta situação, a mudança na orientação da magnetização ocorre por meio de uma rotação dos spins, o que origina uma coercitividade relativamente elevada. Se o tamanho de partícula do material ferromagnético ou ferrimagnético for reduzido ainda mais, a energia de agitação térmica pode desalinhar a orientação da componente da magnetização de tal forma que, na ausência de um campo magnético externo, a magnetização resultante é nula. Assim, estes materiais não apresentam coercitividade e, na ausência de um campo externo, comportam-se como paramagnéticos, com a magnetização da nanopartícula sendo considerada como um único e enorme momento magnético, soma de todos os momentos magnéticos individuais carregados pelos átomos das nanopartículas, sendo 48 denominados de superparamagnéticos (JEONG et al., 2007; MARTINS; TINDADE, 2012). Figura 9 Representação de um alinhamento de spins em um monodomínio e um multidomínio (JACINTO, 2010) Um dos materiais que têm, naturalmente, um forte magnetismo, apresentando superparamagnetismo na escala manométrica, é a magnetita. A magnetita (Fe3O4) é um mineral ferrimagnético negro, contendo ambos Fe2+ e Fe3+. Trata-se do óxido magnético mais importante da natureza, estando presente em rochas ígneas, sedimentares e metamórficas, sendo rara a sua ocorrência na forma pura (JEONG et al., 2007). Esse minério difere dos outros óxidos por apresentar estrutura mista com FeO e Fe2O3, e um sistema de cristalização cúbico com estrutura de espinélio invertido (Figura 10), cuja fórmula geral é dada por (A)[B]2O4. Tem célula unitária cúbica de face centrada, com oito íons Fe3+ localizados no sítio tetraédrico (sítio A), dezesseis átomos de ferro localizados no octaédrico (sítio B, sendo oito íons Fe3+ e oito Fe2+) e 32 átomos de oxigênio (O2-) (CORNELL; SCHUWERTMANN, 2003; JEONG et al., 2007). Assim, cada célula unitária é formada por sítios tetraédricos e octaédricos. Monodomínio Multidomínio 49 Em uma magnetita perfeita, o número de átomos de Fe3+ é igual ao dobro do de Fe2+, mas, frequentemente, este óxido é encontrado com estrutura não estequiométrica (razão Fe(III)/Fe(II) ≠ 2) (CORNELL; SCHWERTMANN, 1996). Figura 10 Representação da estrutura cristalina da magnetita (VERWEY; HEILMANN, 1947) A magnetização do Fe3O4 ocorrerá com a presença de campo magnético externo, desaparecendo quando o campo for retirado. Esse efeito deve-se a não conservação da orientação magnética dos átomos individuais (FINOTELLI et al., 2010; SIDHU; GILKES; POSNER, 1978). A magnetita apresenta fácil manipulação e preparo, constituindo-se um material de baixo custo e fácil aplicabilidade, o que a torna um dos principais sistemas em estudo no campo das nanopartículas magnéticas. A maghemita, forma oxidada da magnetita, é ferrimagnética e metaestável. Sob aquecimento ocorre mudança da sua estrutura cristalina, a qual passa de cúbica para hexagonal, originando a hematita. A hematita, diferentemente da magnetita e da maghemita, é um óxido antiferromagnético (CORNELL; SCHUWERTMANN, 2003; JEONG et al., 2007; MARTINS; TINDADE, 2012). Oxigênio A – Fe tetraédrico B – Fe octaédrico 50 A utilização desses materiais com propriedades magnéticas em catalisadores, principalmente magnetita e maghemita, dispensa o uso de sistemas que, normalmente, são empregados na separação sólido-líquido, como centrifugação e filtração. Além disso, devido ao fenômeno do superparamagnetismo, após a retirada do campo magnético, os carregadores magnéticos não retêm a magnetização, se desaglomerando, podendo ser, assim, ressuspensos e reutilizados. 2.10 O uso de catalisadores na produção de biocombustíveis A maior parte de toda energia consumida no planeta vem do petróleo, do carvão e do gás natural. Porém, nos últimos anos, o aumento da demanda por esses combustíveis fósseis, acompanhada pela possível exaustão de suas reservas, juntamente com a instabilidade política vivenciada por parte dos países detentores da produção de petróleo e gás natural, bem como as exigências feitas por grandes órgãos mundiais quanto à redução das emissões de gases causadores do “efeito estufa”, gera inúmeras discussões quanto à oferta, à utilização e, ainda, questões econômicas e ambientais relativas aos combustíveis fósseis. Assim, torna-se emergencial o desenvolvimento de uma matriz energética sustentável, baseada em combustíveis alternativos renováveis que possam substituir, ao menos parcialmente, os combustíveis de origem fóssil (CAMPOS, 2011; JIMENEZ- MORALES et al., 2010). Uma das alternativas mais prementes para minimizar estes problemas são os biocombustíveis (etanol e biodiesel). Por serem de origem vegetal, podem ser considerados renováveis, podendo ser utilizados de forma ambientalmente sustentável. Além disso, não contribuem para o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera terrestre, já que o CO2 emitido durante a queima é absorvido pelas 51 plantas novamente no processo de fotossíntese para a sua formação (DARMSTADT et al., 2004; LÉDÉ, 1999), causando um impacto muito menor no aquecimento do planeta, pois, no balanço total, existe um equilíbrio entre a emissão e a absorção de CO2. O Brasil é um dos pioneiros no uso deste tipo de combustível, já utilizando o álcool etílico, oriundo da fermentação da cana, desde a década de 1970, quando, para fazer frente aos sucessivos aumentos do preço do petróleo, foi criado o Proálcool, uma iniciativa governamental. O programa tinha como objetivo garantir o suprimento de etanol no processo de substituição da gasolina, além de apoiar o desenvolvimento tecnológico da indústria sucroalcooleira. O bioetanol tem sua dinâmica produtiva bem sedimentada no Brasil e toda gasolina vendida atualmente tem a adição de 27% de bioetanol anidro (AMATO; MATOSO, 2015). Pesquisas relacionadas aos biocombustíveis se intensificaram no país devido às suas excelentes condições de clima, solo e imensa extensão territorial, contribuindo para investimentos governamentais em estudos relacionados à produção de biodiesel. Em 2005 foi publicada a Lei nº 11.097, que introduziu o biodiesel na matriz energética brasileira. O biodiesel, em especial, surgiu como uma alternativa viável, em termos de combustível renovável e faz do Brasil um futuro líder na sua produção. Desde a sua descoberta, o biodiesel tem sido o foco de pesquisas e investimentos tanto em universidades quanto por parte de governos e indústrias, como um combustível renovável e alternativo para o diesel de petróleo. A nomenclatura da mistura diesel/biodiesel é feita utilizando-se a letra B seguida de um número que corresponde ao percentual de biodiesel na mistura. Então, têm-se as misturas B5 e B10, por exemplo, que contêm 5% e 10% de biodiesel, respectivamente, em diesel do petróleo (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS - ANP, 2008). 52 A produção do biodiesel apresenta um interesse crescente em todo o mundo devido às flutuações dos preços do petróleo, aos benefícios ambientais associados à sua combustão e a um maior potencial para o desenvolvimento regional de países como o Brasil (GAN et al., 2010). O biodiesel é renovável, não tóxico e biodegradável; tem índices de compostos de enxofre emitidos praticamente nulos, incentiva a economia e o desenvolvimento rural e, ainda, apresenta maior número de cetano e ponto de fulgor (VYAS; VERMA; SUBRAHMANYAM, 2010; ZHANG et al., 2010). Em termos ambientais, a substituição do óleo diesel por biodiesel é muito vantajosa devido à grande redução das emissões de gases poluentes. A substituição total do diesel de petróleo por ésteres metílicos de óleo de soja, por exemplo, diminui as emissões de CO2, CO, hidrocarbonetos, MP (material particulado) e SOx, nas proporções de 78%-100%, 48%, 67%, 47% e 99%, respectivamente. No entanto, os níveis de emissões de gases nitrogenados (NOx) são ligeiramente maiores para o biodiesel. Porém, a ausência quase que total de enxofre confere ao biocombustível uma grande vantagem, pois não há qualquer emissão de gases sulfurados, que inclui as mercaptanas, como exemplo (MARCINIUK, 2007). Em suma, a produção de biodiesel apresenta uma proposta com foco ambiental, social e econômico, sugerindo uma nova cultura energética no contexto de um país cuja matriz energética é, predominantemente, de combustíveis fósseis. Assim, a necessidade de implementar novos programas de utilização deste biocombustível tem contribuído para o aumento da pesquisa de novos processos de produção, principalmente por meio de novas rotas catalíticas. Dessa forma, em escala mundial, desde o final da década de 1990, um grande número de catalisadores sólidos para a produção de biodiesel tem sido relatado na literatura, tais como óxidos mistos (LIU; WEN; CUI, 2015), enzimas (GULDHE et al., 53 2016; KAIEDA et al., 1999), óxidos (CHEN et al., 2012), hidróxidos duplos lamelares (LIU et al., 2007), zeólitas (SUN et al., 2015), complexos inorgânicos (ABREU et al., 2004), óxidos impregnados (MUTREJA; SINGH; ALI, 2014) e resinas fortemente trocadoras de ânions (FU et al., 2015). O grupo de pesquisa do Laboratório de Catálise e Biocombustível do Departamento de Química da Universidade Federal de Lavras investigou, de forma inédita, o uso do óxido de lântanio sulfatado em reações de esterificação do ácido oleico em meio metílico para a produção de oleato de metila. Foi possível verificar que o uso desse catalisador puro ou suportado sobre zeólitas pode vir a ser uma alternativa eficiente e promissora para a produção do biodiesel, uma vez que alcançou rendimentos de 96% e 100%, respectivamente, em condições relativamente brandas de reação (10% de catalisador, temperatura de 100 °C e razão molar óleo/álcool de 1:20). Os resultados apresentados no trabalho mostraram que a sulfatação do óxido levou ao surgimento de fortes sítios ácidos de Brønsted e que a impregnação do óxido sulfatado sobre a estrutura da zeólita levou ao surgimento de um catalisador ainda mais eficiente para a reação estudada e que, após três ciclos de reação, a sua atividade catalítica foi reduzida a 50% do valor inicial (RESENDE, 2015; VIEIRA, 2014; VIEIRA et al., 2013). Além disso, foi proposto um novo sistema catalítico, baseado em óxido de cério sulfatado puro e suportado em zeólita HZSM-5, também em reações de esterificação do ácido oleico com metanol. Os resultados mostraram se tratar de uma alternativa inovadora para a produção de biodiesel, em termos de catalisadores heterogêneos. Foi possível obter uma conversão de 100%. O processo de sulfatação aumentou a atividade do catalisador, tendo a conversão sido mais significativa quando se aumentou a concentração do agente sulfatante. Todos os catalisadores apresentaram desativação após o primeiro uso, porém, ela foi menor quando eles foram lavados com hexano. Após o terceiro reuso, os 54 catalisadores apresentaram conversão superior à da reação não catalisada (COELHO, 2013). 2.11 Biodiesel A história do biodiesel teve início nos finais do século XIX, quando Rudolf Diesel descobriu, nos óleos vegetais, um combustível e um caminho para o desenvolvimento industrial. Em 1898, na Feira Mundial de Paris, Diesel demonstrou o primeiro protótipo de um motor movido a óleo de amendoim, cuja eficiência foi de 26% e que, ao longo dos anos, sofreu inúmeras evoluções tecnológicas (DERMIRBAS, 2007; ZABETI; DAUD; AROUA, 2009). O biodiesel é um combustível que pode ser produzido a partir de fontes renováveis, como óleos vegetais e também a partir de gordura animal e resíduos de óleo de fritura. Existem várias opções de fontes de óleo vegetal. No Brasil, a principal fonte para a produção de biodiesel é o óleo de soja. No entanto, outras fontes, tais como girassol, pinhão-manso, mamona, amendoim, algodão, dendê, coco-de-babaçu, entre outras, podem ser utilizadas em maiores proporções em um futuro próximo, uma vez que seus cultivos podem atingir uma grande escala (CONCEIÇÃO et al., 2005). Segundo a Lei Federal n° 11.097 (13 de janeiro de 2005), do Ministério de Minas e Energia – MME, o biodiesel é um biocombustível derivado de biomassa renovável para uso em motores a combustão interna com ignição por compressão ou, conforme regulamento para geração de outro tipo de energia, que possa substituir parcial ou totalmente o combustível de origem fóssil (ANP 2005). Quimicamente, o biodiesel é constituído de ésteres alquílicos que podem ser obtidos por meio da transesterificação de triglicerídeos, ou da esterificação de ácidos carboxílicos, ambos na presença de um álcool de cadeia curta, como o 55 etanol ou o metanol e de um catalisador ácido ou básico (GAN et al., 2010; JIMENEZ-MORALES et al., 2010; MA; HANNA, 1999). Dentre os processos químicos utilizados para a produção do biodiesel, a transesterificação é considerada o mais viável, sendo o caminho por meio do qual moléculas de triglicerídeos reagem com um álcool de cadeia curta, na presença de um catalisador, formando ésteres monoalquílicos de ácidos carboxílicos, que constituem o biodiesel em sua essência, e libera uma molécula de glicerol como subproduto (ARANSIOLA et al., 2014; BADDAY; ABDULLAH; LEE, 2014). Trata-se de um processo catalítico homogêneo em que a transesterificação do óleo vegetal é realizada com metanol e, em geral, na presença de hidróxido de sódio ou potássio como catalisador. A estequiometria da reação requer que a relação seja de 3:1 de álcool em relação ao triglicerídeo, como pode ser observado na Figura 11, podendo-se utilizar proporções superiores, de forma a obter elevada produção de ésteres (ENCINAR et al., 2002). Como se trata de uma reação reversível, o álcool, normalmente, é utilizado em excesso para deslocar o equilíbrio no sentido dos produtos (HUBER; IBORRA; CORMA, 2006; MA; HANNA, 1999; MARCHETTI; MIGUEL; ERRAZU, 2007). Figura 11 Esquema de uma reação de transesterificação Triglicerídeo Álcool Glicerol Ésteres (biodiesel) Cat. 56 A transesterificação consiste de etapas consecutivas de reações, conforme apresentado na Figura 12. Na primeira etapa, o triglicerídeo reage com uma molécula de álcool, produzindo diglicerídeo e a primeira molécula de éster de ácido carboxílico. Na segunda etapa, o diglicerídeo reage com outra molécula de álcool, produzindo monoglicerídeo e a segunda molécula do éster. A última etapa consiste na reação do monoglicerídeo com outra molécula de álcool, produzindo a última molécula de éster do ácido carboxílico e formando a glicerina (HUBER; IBORRA; CORMA, 2006; MARCHETTI; MIGUEL; ERRAZU, 2007). 57 Figura 12 Etapas da reação de transesterificação Esta reação é uma das principais rotas utilizadas na síntese do biodiesel, devido, principalmente, ao fato de os óleos vegetais serem constituídos majoritariamente de triglicerídeos. Porém, ainda existem diversos desafios (VIOLA et al., 2012), uma vez que seu rendimento depende essencialmente da relação molar entre o óleo e o álcool, da temperatura de reação, do álcool utilizado, da quantidade e do tipo de catalisador (ácido ou base forte) e também do tempo de reação (ENCINAR et al., 2002; MA; HANNA, 1999; MARCHETTI; MIGUEL; ERRAZU, 2007). Assim, várias pesquisas têm sido desenvolvidas, a fim de otimizar estes parâmetros experimentais e, com isso, aumentar o rendimento da reação. 1° etapa 2° etapa 3° etapa catalisador catalisador catalisador 58 Dentre os álcoois mais utilizados na produção de biodiesel, o metanol e o etanol se destacam na reação. As vantagens do metanol em relação ao etanol estão em seu baixo custo, ausência de água, menor cadeia e uma maior polaridade, maior reatividade e capacidade de dispersar catalisadores básicos heterogêneos facilmente, além dos aspectos relacionados à produção e à purificação dos ésteres (OLIVEIRA et al., 2010). O etanol, porém, é consideravelmente menos tóxico e pode ser obtido a partir de fontes renováveis (MA; HANNA, 1999). Para que ocorra a produção de biodiesel é necessária a presença de um catalisador para acelerar a reação. Tais catalisadores podem ser básicos ou ácidos, em sistemas homogêneos ou heterogêneos. No entanto, a utilização de catalisadores básicos convencionais é preferível devido aos altos níveis de conversão dos triacilgliceróis em seus ésteres correspondentes em menores tempos de reação, além de serem catalisadores facilmente manipuláveis e menos corrosivos que os catalisadores ácidos (FREEDMAN; PRYDE; MOUNTS, 1984). Uma representação geral da reação de transesterificação catalisada por base é apresentada na Figura 13. Dentre os catalisadores básicos homogêneos, os alcóxidos de metais alcalinos (como o CH3ONa) são os mais ativos. Geralmente, apresentam altos valores de rendimentos (aproximadamente 98%) em curtos tempos de reação (cerca de 30 minutos) (SCHUCHARDT; SERCHELIA; VARGAS, 1998). No entanto, hidróxidos como NaOH e KOH são os mais utilizados na indústria, devido ao seu potencial de catalisar reações em baixa temperatura e pressão, apresentar alta conversão em um curto tempo e ser mais viável, economicamente, que outros catalisadores (LOTERO et al., 2005). 59 RO- + BH+ B= base B + ROH Figura 13 Reação de transesterificação de triglicerídeo catalisada por base Uma das limitações apresentadas por catalisadores homogêneos é a dificuldade de recuperação do catalisador após a reação e a necessidade de tratamento para neutralizar o pH do produto obtido (LAOSIRIPOJANA et al., 2010). Devido a estas limitações, pesquisas têm sido desenvolvidas para a síntese de catalisadores básicos heterogêneos que possam ser utilizados na produção de biodiesel. Entre os catalisadores heterogêneos mais estudados estão os óxidos de metais alcalinos heterogêneos, especialmente o óxido de cálcio (CaO), pois apresentam alta basicidade, baixa solubilidade em metanol e baixo custo de produção (ZABETI; DAUD; AROUA, 2009). Apesar das vantagens apresentadas pela catálise básica, o uso de catalisadores dessa natureza na transesterificação é limitado somente a óleos 60 refinados com teor de ácidos graxos livres menor que 0,5% (WANG et al., 2006). Esta limitação se dá pelo fato de os óleos vegetais com alto teor de ácidos graxos livres (óleo de palma, óleos residuais de frituras, entre outros), quando transesterificados em meio alcalino, apresentam o inconveniente de produzir sabão, tanto pela neutralização dos ácidos graxos livres quanto pela saponificação dos glicerídeos ou ésteres formados (Figura 14) (ROSSET, 2011). Essas reações secundárias prejudicam a eficiência do processo, devido ao consumo excessivo do catalisador e à perda considerável do potencial de rendimento da reação de transesterificação, o que dificulta o processo de separação do glicerol e a purificação do biodiesel (PATEL; BRAHMKHATRI; SINGH, 2013; SCHUCHARDT; SERCHELIA; VARGAS, 1998). Figura 14 Reações secundárias que podem ocorrer durante a transesterificação utilizando catalisador básico: (1) saponificação, (2) neutralização dos ácidos graxos Tendo em vista as limitações apresentadas pela catálise básica, principalmente a homogênea, mas também a heterogênea nos casos em que o catalisador básico sofre processo de lixiviação, a transesterificação por catálise ácida surge como uma opção para a produção de biodiesel. A catálise ácida apresenta vantagens sobre a catálise básica, no que confere à indiferença aos ácidos graxos livres presentes no óleo, podendo catalisar esterificação e Reação 2 Reação 1 61 transesterificação simultaneamente, fazendo com que não haja a formação de sabão (KULKARNI; DALAI, 2006). Na Figura 15 observa-se uma representação geral da reação de transesterificação catalisada por ácido. A estratégia ideal para estes materiais é a de converter ambas as frações (ácidos graxos livres e triglicerídeos) em biodiesel e, para alcançar este objetivo, outra reação, a esterificação dos ácidos graxos livres, pode ser conduzida, seguida de uma etapa de transesterificação para produzir ésteres alquílicos a partir dos triglicerídeos remanescentes (BASSAN et al., 2013). A produção de biodiesel via reação de esterificação não tem o inconveniente de gerar sabão (SANTACESARIA et al., 2012). 62 Figura 15 Etapas de transesterificação de triglicerídeo catalisada por ácido 63 Dentre os catalisadores ácidos, os mais utilizados são o ácido sulfúrico e o ácido clorídrico. No entanto, a catálise ácida homogênea apresenta desvantagens devido à dificuldade de separação do catalisador e por apresentar corrosão do reator. Além disso, as reações em que se utilizam catalisadores ácidos são mais lentas que as reações catalisadas por bases e requerem maiores temperaturas (ROSSET, 2011). Uma alternativa à catálise ácida homogênea é a utilização de catalisadores sólidos, pois apresentam, dentre outras vantagens, facilidade de separação do produto do meio reacional, a obtenção de produtos com alto grau de pureza, a facilidade de regeneração e a possibilidade de serem reutilizados. Além disso, não são corrosivos e não exigem uma etapa de lavagem do produto, representando menor geração de resíduos ao final do processo (ZHANG et al., 2010). 2.12 Esterificação Embora a utilização da catálise ácida em reações de transesterificação seja vantajosa em relação à catálise básica, no que se refere a não saponificação dos ácidos graxos, a produção de biodiesel utilizando catalisadores básicos ainda é empregada, por apresentar maior rendimento. No entanto, este processo ainda é caro, pois necessita de óleos puros. Neste contexto, a esterificação dos ácidos graxos é uma alternativa viável, já que pode ser utilizada na produção de biodiesel diretamente, ou em uma pré-etapa, a fim de eliminar os ácidos graxos livres e possibilitar a realização de transesterificação por catálise básica (SANTOS, 2012). Na produção de biodiesel pode ser realizada a esterificação direta de ácidos graxos presentes na matéria-prima, após um processo de hidrólise dos triglicerídeos. A utilização da esterificação direta torna possível a eliminação de 64 vários problemas presentes na transesterificação, como formação de sabão, dificuldade de separação do glicerol do meio reacional e alto custo de produção que está, principalmente, relacionado ao preço da matéria-prima utilizada (POUSA, 2007). Estudos também mostram que o processo de conversão desses óleos em duas etapas, um pré-tratamento usando a reação de esterificação catalisada por centros ácidos para reduzir o teor de ácidos graxos livres, segui