dissertação

Michel Serres e o pensamento mestiço: implicações para a formação humana contemporânea

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Resumo

Esta dissertação analisa o pensamento mestiço de Michel Serres, tomando como eixo central o conceito de mestiçagem e suas implicações para a formação humana contemporânea. O estudo examina os pressupostos e os limites do paradigma epistemológico moderno marcado pela fragmentação, pela hiperespecialização e pela hierarquização dos saberes, evidenciando como a razão instrumental e a disjunção cartesiana consolidaram uma visão excludente do conhecimento que separa sujeito e objeto, natureza e cultura. Em seguida, investiga os fundamentos teóricos do pensamento mestiço, destacando a filosofia das passagens, das travessias e das multiplicidades, para então indagar em que medida essa perspectiva possibilita o diálogo com as filosofias africanas contemporâneas e que contribui para uma crítica ao eurocentrismo. A pesquisa é orientada pelas seguintes questões: em que medida o pensamento mestiço contribui para a formação humana contemporânea? De que modo essa perspectiva pode enfrentar a fragmentação e a hiperespecialização do conhecimento? Como o pensamento serreano, ao abrir-se à alteridade, pode estabelecer pontes com filosofias não-europeias, deslocando-se para além da hegemonia eurocêntrica? Parte-se da hipótese de que o pensamento mestiço oferece contribuições relevantes para a superação das crises educacionais contemporâneas, ao questionar um paradigma epistemológico moderno excludente, mecanicista e redutor da complexidade. Defende-se, assim, que a emergência de uma educação mestiça entendida como prática epistemológica e pedagógica fundada na interdisciplinaridade, na circulação entre ciências exatas e humanas, na multiculturalidade e no reconhecimento da dignidade humana e da natureza possibilita a construção de processos formativos mais plurais, relacionais e abertos à diversidade cultural. Ao aprofundar o diálogo com as filosofias africanas, a investigação revela convergências significativas que fortalecem a crítica ao eurocentrismo, mas também tensões importantes. O pensamento mestiço, ao valorizar a passagem e a tradução entre diferentes saberes, encontra eco em perspectivas como a afrocentricidade de Asante, o Ubuntu em Ramose e Gomane, e as filosofias de matriz crítica e libertária de Mucale, Ngoenha, Mbembe e Hountondji, para quem a tradução é experiência fundamental que permite o trânsito entre universos distintos sem hierarquizá-los. No entanto, tais filosofias insistem, de modo mais radical, na historicidade das assimetrias coloniais e na necessidade de justiça cognitiva. Esta aproximação permite vislumbrar deslocamentos teóricos que rompem com a hegemonia do pensamento único, abrindo espaço para um universal plural forjado não na exclusão ou na síntese harmoniosa, mas no reconhecimento das feridas da história e no encontro tenso e criativo entre diferentes tradições de pensamento. Palavras-chave: Michel Serres; Pensamento mestiço; Educação mestiça; Filosofias africanas; Formação humana.

Abstract

This dissertation analyzes the mixed thought of Michel Serres, taking as its central axis the concept of mestizo and its implications for contemporary human formation. The study examines the assumptions and limits of the modern epistemological paradigm marked by fragmentation, hyperspecialization, and the hierarchization of knowledge, highlighting how instrumental reason and Cartesian disjunction consolidated an exclusionary view of knowledge that separates subject and object, nature and culture. It then investigates the theoretical foundations of mixed thought, emphasizing the philosophy of passages, crossings, and multiplicities, in order to inquire to what extent this perspective enables dialogue with contemporary African philosophies and contributes to a critique of Eurocentrism. The research is guided by the following questions: To what extent does mixed thought contribute to contemporary human formation? In what way can this perspective confront the fragmentation and hyperspecialization of knowledge? How can Serres’ thought, by opening itself to alterity, build bridges with non-European philosophies and move beyond Eurocentric hegemony? The study is based on the hypothesis that mixed thought offers relevant contributions to overcoming contemporary educational crises by challenging a modern epistemological paradigm that is exclusionary, mechanistic, and reductive of complexity. It argues, therefore, that the emergence of a “mixed education” understood as an epistemological and pedagogical practice grounded in interdisciplinarity, in the circulation between the natural sciences and the humanities, in multiculturalism, and in the recognition of human and natural dignity makes possible the construction of formative processes that are more plural, relational, and open to cultural diversity. By deepening the dialogue with African philosophies, the investigation reveals significant convergences that strengthen the critique of Eurocentrism, but also important tensions. Mixed thought, by valuing passage and translation between different forms of knowledge, resonates with perspectives such as the Afrocentricity of Asante, Ubuntu in Ramose and Gomane, and the critical and libertarian philosophies of Mucale, Ngoenha, Mbembe, and Hountondji, for whom translation is a fundamental experience that enables movement between distinct universes without hierarchizing them. However, these philosophies insist more radically on the historicity of colonial asymmetries and on the need for cognitive justice. This approach makes it possible to envision theoretical displacements that break with the hegemony of a single mode of thought, opening space for a plural universal forged not in exclusion or harmonious synthesis, but in the recognition of the wounds of history and in the tense and creative encounter among different traditions of thought. Keywords: Michel Serres; Mixed thought; Mixed education; African philosophies; Human formation.

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GONGOLO, Dionísio Fernando. Michel Serres e o pensamento mestiço: implicações para a formação humana contemporânea. 2026. 107 p. Dissertação (Mestrado Acadêmico) - Universidade Federal de Lavras, 2026.

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